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António Joaquim Rodrigues Ribeiro nasceu na freguesia de Fiscal. Vamos falar sobre ele

Foi Tonito em criança, apareceu-nos como António & Variações e ficou-nos para sempre como António Variações. Nasceu no 3 dezembro que ocorreu há 70 anos.

Nunca se tinha visto nada assim. O tipo aparece na televisão vestido de aspirina gigante e vem munido de uns smarties coloridos que vai atirando para o público e para as câmaras, ao mesmo tempo que canta uma música chamada "Toma o comprimido". Estávamos no início dos anos 80 e não é difícil imaginar que grande parte das pessoas lá em casa tenha ficado de boca aberta. Ele não o saberia na altura (ou talvez soubesse, uma vez que, como todos iriam ver depois, era à um homem à frente do tempo), mas tinha nascido um ícone musical. E aquele momento tinha começado num simples corte de cabelo.

António trabalhava num dos mais conhecidos cabeleireiros de Lisboa quando aquele senhor do "Passeio dos Alegres", o programa que colava toda a família à televisão aos domingos à tarde, apareceu para cortar o cabelo. Entre dois dedos de conversa trivial, disse a Júlio Isidro que cantava e escrevia umas canções. Três dias depois, entregou-lhe uma cassete com a gravação da música que viria a marcar a sua estreia na televisão. Apresentou-se nos estúdios do Lumiar, ainda em grupo, com o nome "António & Variações". Depressa assumiu o Variações como seu próprio nome artístico.

Mas não era só a aspirina e os smarties. Era a barba longa, descolorida, os brincos, aquelas roupas desconcertantes, onde o laranja, o cor-de-rosa, o verde alface e o grená podiam conviver sem qualquer problema e afrontavam o cinzentismo da época. E aquelas boinas, e aquelas calças que muitas vezes lhe davam por cima do tornozelo. Mas ele dizia que não se preocupava com a moda, só com a estética. "Excêntrico" , "estranho", "bizarro", adjetivos que muitos lhe colariam. Outros veriam logo ali um génio desconcertante. 

Porque eu só quero quem

FOTO ARQUIVO EXPRESSO

António Joaquim Rodrigues Ribeiro nasceu na freguesia de Fiscal, no distrito de Braga, a 3 de Dezembro de 1944. A mãe chamava-lhe, carinhosamente,  "Tonito". O pai tocava acordeão e cavaquinho, e terá sido por aí que primeiro se começou a interessar pela música.  "Se tivesse nascido em Nova Iorque seria um rocker, mas como nas­ci no Minho prefiro ser um folclorista que também ensaia o rock", afirmará mais tarde numa entrevista. Fez de tudo um pouco na vida: trabalhou num escritório, foi caixeiro e barbeiro. Cumpriu o serviço militar em Angola, viveu aventuras em Londres e Amsterdão. Foi ver o mundo, e regressou para mudar o panorama português para sempre.

Mas mesmo antes de aparecer na televisão, Variações já tinha um contrato discográfico. Assinou com a Valentim de Carvalho em 1978. Passados mais de dois anos, nada aparecia. Foi quando um dos irmãos, que era advogado, pressionou a editora: ou avançavam para uma gravação ou denunciavam o contrato. Daí surgiu em 1981 o single "Povo que lavas no Rio", uma versão de Amália (a grande inspiração de Variações, admitiria o próprio várias vezes publicamente), num disco que tinha no outro lado a música "Estou Além". "Vou continuar a procurar a quem eu me quero dar / Porque até aqui eu só / Quero quem / Quem eu nunca vi / Porque eu só quero quem /Quem não conheci" são os primeiros versos originais de Variações a ficar na cabeça dos portugueses.

A música viria a integrar, três anos mais tarde, o primeiro álbum, intitulado "Anjo da Guarda" (dedicado, mais uma vez, à musa Amália), que contava com outros temas que alcançariam a eternidade, como "O corpo é que paga" ou "É pra' amanhã".  Mas qual o segredo das suas músicas? As músicas eram uma mescla de pop, rock, blues, fado... As letras eram simples e complexas ao mesmo tempo, e abordavam o quotidiano de uma forma tal que as tornou intemporais. Nunca se tinha ouvido nada assim em Portugal.

António nunca esconderia a homossexualidade, num tempo em que era proibido falar sobre isso. Ajudou a quebrar tabus, mas foi também o primeiro caso de uma figura conhecida a chamar a atenção para a realidade da SIDA. Quando a "Canção do Engate" estourou nas rádios nacionais, em 1984, Variações já estava internado com uma broncopneumonia, agravada pela doença da qual padecia. Viria a morrer a 13 de Junho de 1984, um dia de Santo António. Tinha apenas 39 anos.

A última vez em que o público português o viu foi também num programa de Júlio Isidro, chamado "A festa continua". Era para ter cantado duas músicas do novo álbum, mas acabou por interpretar duas mais antigas. Vinha provocador, igual a si próprio, mas provavelmente agora já ninguém terá ficado de boca aberta como há 3 anos: as mesmas barbas, que ficariam para a história; e um pijama de flanela com coelhinhos e ursinhos.