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Amadeu, que aprendeu o mundo no campo e tinha o coração na ponta dos dedos

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Em Portugal, a dedicação à língua mirandesa tem nome próprio: Amadeu Ferreira, o jurista da CMVM que - quando todos diziam que "era uma loucura impossível" - arranjou tempo para traduzir "Os Lusíadas", a "Mensagem", os quatro Evangelhos da Bíblia e ainda duas aventuras do Asterix para uma língua que pertence a um cantinho do nordeste português e é falada por menos de 15 mil pessoas. No final de 2014 deu ao Expresso aquela que viria a ser a sua última entrevista. Morreu no passado domingo e esta quinta-feira foi lançada a sua biografia, "O fio das lembranças", com quase 800 páginas.

Joana Beleza (texto e vídeo) Fotografias de Marcos Borga e do arquivo Expresso

É da natureza das cidades não permitir horizontes largos e profundos. Toda a gente sabe que entre prédios e carros só se vê o prédio mais próximo, o semáforo, o passeio do outro lado da estrada. Talvez por isso seja impossível estar em  Lisboa e ver o alto das arribas do Douro. Mesmo em bicos de pé, do alto de qualquer colina da cidade, não dá. Ninguém as vê, a não ser Amadeu Ferreira. 

 

Dezembro de 2014 Saldanha, centro de Lisboa Hora de ponta Chego a casa dele ao fim da tarde. Já lá está o fotógrafo a arranjar a melhor luz para fotografá-lo. Amadeu Ferreira tem 64 anos e um tumor no cérebro. Estamos no Inverno e sabíamos de antemão que a entrevista só poderia acontecer num ambiente protegido. A sala está quente e os dois filhos de Amadeu estão por casa para ajudar o pai e os jornalistas no que for preciso. Parar não é um verbo que encaixe na vida deste homem. Apesar de muito doente e quase cego, Amadeu acaba de lançar um livro de provérbios mirandeses, "Ditos dezideiros", e um outro de poemas que acompanham fotografias de Luís Borges da região transmontana, o "Norteando". Anda agora a trabalhar um livro "entre o poético e o filosófico", sobre a velhice.  Sabe que já não tem muito tempo de vida, por isso aceita tirar parte da tarde para falar com o Expresso sobre o que mais ama: a língua mirandesa. E do que falta fazer pela vida dela - a este tema o Expresso voltará, de forma mais detalhada, numa das edições de março da revista E.

"No passado, há muitos anos, obrigaram-nos a falar português. Disseram-nos que o mirandês não era uma língua de gente ou, então, era uma língua de gente estúpida, atrasada. (...) Envergonhada, foi-se escondendo de quem vinha de fora, foi encolhendo até ficar presa numa pontinha de Portugal. (...) Em cada aldeia, a língua cresceu com as suas diferenças, a sua maneira de ser, embora sem deixar de ser quem era. Apagar essas diferenças ou fazer de conta que não existem seria ficar mais pobre e, quem sabe, morrer de vez. Pertencer ao mirandês, como uma língua única, é algo de que nos devemos orgulhar."

Orgulho é uma palavra que encaixa bem em Amadeu Ferreira. Vice-presidente da Comissão de Mercados de Valores Mobiliários (CMVM) e professor de Direito na Universidade Nova de Lisboa, Amadeu foi também o escritor, poeta, tradutor, cronista e o investigador que mais tempo e trabalho dedicou à promoção da língua que o "amamentou". Nascido em 1950 em Sendim, fez parte da geração que abandonou a terra e a língua. Onde muitos tinham vergonha da sua origem, aquele jovem sendinês tinha um orgulho desmedido pelas palavras e expressões que ouvia os pais e os vizinhos usarem no dia-a-dia. "A vida no campo, nos anos 50, no interior do país, era uma vida difícil. Sendo filho de uma família muito pobre tive a sorte de poder estudar, mas sempre, desde novo, trabalhei no campo. O mundo que aprendi foi o mundo do campo. E aprendi-o em mirandês."

Muitos anos depois de ter nascido e a muitos quilómetros de distância de Miranda, numa "longa noite de setembro de 1999", Amadeu Ferreira sentou-se à secretária e, num rasgo de insónia e de inquietação, escreveu um manifesto pela língua mirandesa. Da ponta dos dedos saíram-lhe oito páginas que eram ao mesmo tempo um resumo de história, um pedido de socorro e uma carta de amor.

"Que destino queremos para o mirandês? É muito difícil responder: a língua está tão doente que ainda não descobriu remédio que a salve. Primeiro, fez uma fronteira com o português e manteve-se apenas numa parte da Terra de Miranda; depois, tornou-se amiga do português e foi-lhe pedindo palavras emprestadas como se fossem suas. Quando, entretanto, a expulsaram da Igreja, foi como receber uma facada que nunca deixou de sangrar e, com o tempo, evoluiu para cancro. Quem conhece a cura para o cancro? Apesar disso, não há que desistir nunca ou dar-se por vencido. O pior é que os mirandeses nem se aperceberam. Está doente, velha e cansada, com poucas forças para resistir. E apenas existe uma maneira de os velhos viverem: através dos filhos. O mirandês deve deixar filhos que tenham orgulho na sua língua e não reneguem os pais."

Naquela "longa noite de setembro de 1999", Amadeu tinha 49 anos e, na sua casa em Lisboa,  escrevia com o pensamento posto no alto do planalto mais oriental de Portugal. No quarto ao lado dormiam os seus dois filhos, José Pedro e João, com os quais diariamente falava em mirandês para que a sua raiz não se perdesse. Mal sabia que, 15 anos depois, o mais velho dos descendentes, linguista de profissão e de paixão, lhe daria uma neta, a primeira neta, chamada Lhuzie. Era o culminar de um círculo perfeito, uma vida inteira a lutar pelo orgulho de uma língua minoritária. Precisamente numa altura em que Amadeu lutava contra um cancro mortífero, veio o orgulho de ver a família crescer. "O nome da minha neta é um manifesto pelo mirandês e o reconhecimento de uma vida, de um esforço, de um ideal que foi o meu. Se ela viver muitos anos, como eu espero que viva, e se os pais falarem com ela em mirandês, como eu espero que falem, então ainda se falará mirandês daqui a muito tempo."

Amadeu (em cima, à direita) com a mãe e os irmãos no início dos anos 1960

Amadeu (em cima, à direita) com a mãe e os irmãos no início dos anos 1960

Amadeu com os pais e o filho José Pedro em bebé, em 1980

Amadeu com os pais e o filho José Pedro em bebé, em 1980

 

Lhuzie Desde o início dos anos 90, Amadeu Ferreira dedicou grande parte do seu tempo a promover a língua mirandesa. Escreveu dezenas de livros, traduziu centenas de páginas, publicou ensaios, deu aulas de língua mirandesa ao vivo e online, alimentou blogues e tertúlias à volta da língua materna, teve uma crónica no jornal "Público" escrita integralmente em mirandês. Criou ainda a Associação de Língua e Cultura Mirandesa, com uma sede chamada "Casa de la Lhéngua", em Miranda do Douro. Quando, por falta de saúde, o seu ritmo de trabalho foi forçado a abrandar, surgiu um novo impulso pela língua na forma de um bebé. A nora, Mariana Gomes, investigadora do centro de linguística da Universidade de Lisboa, e o filho de Amadeu, José Pedro Ferreira, investigador na área da linguística computacional no Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada (Celga-Iltec), decidiram dar à sua primeira filha um nome mirandês. E foi ao avô Amadeu que pediram apoio para elaborar um pedido especial junto do Instituto dos Registos e Notariado. "Sendo investigadores na área da língua portuguesa, já tínhamos conhecimento do processo de atribuição do nome. Por isso, antes do nascimento preparámos um pedido especial por escrito com base numa argumentação jurídica com princípios bastante simples: se constitucionalmente temos direito ao nome e se os mirandeses têm direito a ver os seus direitos linguísticos reconhecidos, que direito linguístico mais básico existe do que o direito ao nome? Nenhum", explica José Pedro Ferreira.

A atribuição do nome Lhuzie à neta de Amadeu Ferreira foi notícia em vários jornais e abriu caminho para que outros pais quisessem escolher nomes mirandeses. "Já fomos contactados por dois casais a perguntar como é que tínhamos conseguido, o que tínhamos feito", conta Mariana. O próximo passo será entregar nos Registos uma lista de nomes mirandeses que possa vir a ser integrada na lista de nomes portugueses oficiais.

Lhuzie tem apenas sete meses, mas a sua existência já acumula histórias que há de vir a descobrir. O avô paterno dedicou-lhe um poema com andorinhas em mirandês e deixou-lhe uma carta para quando tiver 18 anos: "Diria à minha neta: sê tu mesma dentro deste caminho, livre com intervenção de cidadã, com intervenção positiva, no sentido de que o mundo é transformável. O mundo onde nasceste não está totalmente feito, sobrou um bocadinho para tu fazeres." Essas palavras ficaram registradas num vídeo do cineasta Leonel Brito e foram transcritas para a biografia que foi esta quinta-feira lançada na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, pelas 18h00. "O fio das lembranças - biografia de Amadeu Ferreira" é da autoria da investigadora Teresa Martins Marques e tem perto de 800 páginas. Conta com entrevistas, fotografias de arquivo, relatos de amigos, familiares e colegas, depoimentos críticos sobre as suas obras literárias e ainda a extensa bibliografia e webgrafia do biografado.

Amadeu com o livro "L segredo de peinha campana", de 2007, e "Norteando", publicado em 2014. Fotografia tirada em dezembro de 2014

Amadeu com o livro "L segredo de peinha campana", de 2007, e "Norteando", publicado em 2014. Fotografia tirada em dezembro de 2014

FOTO MARCOS BORGA

"Há coisas que, quando usamos outra língua para as dizer, soam como estranhas e, no fim, ficamos com a ideia de que não fomos capazes de as dizer. Há palavras, sons, ditos, coisas que dormiram durante tanto tempo connosco que tomaram cama para um lado e quando não nos deitamos para esse lado é como dormir sobre uma pedra."

Durante aquela hora em que o entrevistei fomos de Lisboa a Miranda sem sair do sítio. Amadeu fez uma espécie de resumo de vida. Contou-me que tinha nascido em Sendim numa família pobre, numa terra isolada. Que mal entrou na escola sentiu um choque entre o seu mundo, que era falado em mirandês, e o resto do mundo, o português. Que com o passar dos anos as duas línguas aprenderam a conviver dentro dele e que ele aprendeu a dominá-las para dizer as coisas.

A biografia que agora é lançada fala dele enquanto filho da terra e homem do Direito, poeta e tradutor, pessoa de muitos amigos e de grande humildade. Fala também da história nacional, do Portugal profundo dos anos 1950 e 60, da revolução de Abril e do reconhecimento político do mirandês como segunda língua oficial no fim dos anos 90.

Mas Amadeu Ferreira não foi só o maior divulgador da língua mirandesa em Portugal. Foi também um pioneiro nos estudos de Valores Mobiliários em Portugal. Inscreveu-se aos 35 anos no curso de Direito e foi um aluno brilhante. Mais tarde fez carreira na CMVM e deu aulas na universidade. Dizem que dormia poucas horas e andava sempre bem-disposto. Recebia muitos amigos em casa e durante a noite escrevia poemas e ensaios. Assinou livros com os pseudónimos Fracisco Niebro, Marcus Miranda e Fonso Roixo. Viveu em Lisboa, mas voltou muitas vezes a Sendim. Durante décadas reuniu palavras, ditos e provérbios mirandeses. Andou nos últimos 15 anos a construir um dicionário de mirandês-português com a ajuda do filho linguista. "É provável que ainda este ano consiga publicar o dicionário", diz-nos José Pedro. O filho de Amadeu tem agora ao colo a causa e a paixão que herda do pai. Ora na forma da filha com a qual só fala em mirandês, ora na responsabilidade em dirigir a associação de língua e cultura mirandesa. Porque ainda falta fazer muita coisa para assegurar que a segunda língua oficial de Portugal continue a ser uma língua viva: "Há um completo desinteresse do Estado português pelo mirandês desde que a língua foi aprovada na Assembleia da República como segunda língua oficial do país. Por exemplo, há anos que se pede que seja assinada a Carta Europeia das Línguas por parte de Portugal, que é um dos pouquíssimos Estados que não são signatários. É uma coisa que não é feita por puro desinteresse e que permitiria ao mirandês estar integrado naquilo que vai sendo feito por outras línguas minoritárias da Europa".

Amadeu com "Os Lusíadas" em mirandês

Amadeu com "Os Lusíadas" em mirandês

FOTO DE ARQUIVO DO EXPRESSO

Durante muitos séculos, o mirandês passou de geração em geração através da fala. Nas escarpas do Douro, de enxada na mão, à mesa, foram os falantes que fizeram da língua aquilo que ela é: uma língua viva. Amadeu Ferreira quis fazer dela outra coisa, dar-lhe uma nova dignidade, impondo na sua vida pessoal horas e horas de escrita e de tradução para mirandês de monumentos literários da língua portuguesa. Morreu a 1 de março de 2015, com 64 anos. Tinha pedido que não fossem realizadas cerimónias fúnebres e assim foi. Dois dias depois juntaram-se em Lisboa, na Casa de Trás-os-Montes, muitos amigos e familiares para ler excertos de textos do poeta. Numa mesa, ao canto da sala, estavam alguns dos livros que escreveu e outros que traduziu. Dentro de um deles, chamado "Língua Mirandesa - Manifesto em forma de hino", lê-se na última página:

"Com o coração na ponta dos dedos, toda a noite fui escrevendo, sem sono, como quem fica a vigiar para não morrer. Lisboa inteira, à minha volta, deixa-me a falar sozinho. A Terra de Miranda, a quinhentos quilómetros daqui, cheira-me a vindima e a sementeira."

Quando saí de casa dele, ao Saldanha, numa certa noite de dezembro de 2014, também a mim a rua inteira cheirava a Trás-os-Montes.