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Abril, o mês que o grunge não esquece. "It's better to burn out than to fade away"

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Ambos durante um Unplugged na MTV: o dos Nirvana foi em 94, o dos Alice In Chains em 96

Num 6 de abril como o desta segunda-feira, mas num de 1994 e noutro de 2002, Seattle e cidades desse mundo já viviam sem dois dos seus: Kurt Cobain inicialmente, Layne Staley posteriormente - 27 e 34 anos. Era um luto que se fazia sem se saber: ambos morreram trágica e coincidentemente num 5 de abril, mas só dias depois é que foram encontrados. Esta é uma história sobre dois dos grandes. Com canções pelo meio e uma homenagem singular no fim.

What the hell am I? Thousand eyes, a fly Lucky then I'd be In one day deceased  Sickman, sickman, sickman  I can feel the wheel, but I can't steer When my thoughts become my biggest fear Ah, what's the difference, I'll die In this sick world of mine. 

"Sickman" ALICE IN CHAINS

 

A porta é arrombada com estrondo. Lá dentro ouve-se o som de uma televisão. A polícia irrompe pela sala e encontra-o sentado no sofá, o corpo pálido iluminado pelas imagens que vinham do aparelho. O chão está coberto de latas de spray de tinta. Ali ao lado jaz o resto de um pequeno pacote de cocaína, na mesa do café estão dois cachimbos de "crack". Layne já quase não tinha dentes. Aquele homem de 1,85 metros pesava, no seu último momento, apenas 39 quilos. O corpo estava já a entrar em decomposição. E aquela foi a última imagem que Nancy teve do filho. 

A mãe de Layne tinha ligado para a polícia, alertando que já não sabia do filho há duas semanas. Estávamos a 19 de Abril de 2002. Na verdade, a ausência não era algo que família e amigos habitualmente estranhassem. Layne passava semanas, meses se fosse preciso, sem entrar em contacto com ninguém. Um dos amigos, o baterista Sean Kinney, conta que lhe ligava três vezes por semana, mas ele nunca atendia. "Sempre que estava por perto, passava em frente à casa dele e gritava pelo nome. Mesmo que eu conseguisse entrar no prédio, ele não abria a porta." 

Há pelo menos seis anos que Layne vivia encerrado no seu próprio mundo. O empregado do "Rainbow", o bar do bairro onde vivia, garante que o via por lá uma vez por semana. Não pedia nada, apenas ficava sentado a uma pequena mesa num canto do bar. E assim ficava. Olhando uns quatro meses para trás, altura em que deu a sua última entrevista, percebe-se que Laney pressentia que a morte estava perto.  

"Estou perto da morte.  Consumi crack e heroína durante anos. Nunca quis acabar a minha vida desta forma."  

O resultado dos exames forenses não foi, por isso, surpresa para ninguém. Causa da morte: uma overdose provocada pela mistura de heroína e cocaína. Ou "speedball", como a combinação era conhecida na altura. O que causou verdadeiramente espanto foi a segunda conclusão da autópsia. Laney já estava morto há duas semanas. E a coincidência era demasiado evidente para o mundo, e em especial os fãs do "grunge", não repararem: Laney Staley, vocalista dos Alice In Chains, um dos maiores nomes daquele movimento musical nascido no underground de Seattle, morreu a 5 de Abril. Oito anos antes, precisamente no mesmo dia de Abril, o mundo recebia, em choque, a notícia de uma outra morte.  

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De repente começou a ouvir-se um som estranho dentro do estúdio. Mas o que era aquilo? Um pato... de borracha?!  Sim, era mesmo um pato de borracha amarelo, daqueles que pomos a flutuar na banheira. Cobain tinha-o levado para dentro de estúdio de gravação. E eis que, de repente, ali no meio da distorção da guitarra, das acelerações e travagens rítmicas, ali no meio de uma música sobre uma relação parasítica com uma mulher, surge um vulgar patinho de borracha. O génio de Kurt também passava por isto: imprevisível. (E o certo é que o pato ainda seria estrela da compilação "Incesticide", lançada em 1992, onde aparece na contracapa. Esteja atento ao vídeo que aí vem, nomeadamente a partir dos 01m40s, onde se ouve o pato).  

Não será talvez a música mais conhecida dos Nirvana, mas "Drain You" faria parte de um álbum que iria mudar o panorama musical para sempre. Estávamos no final de 1991 quando "Smells like teen spirit", o primeiro single de "Nevermind", começa a invadir as ondas da rádio. De repente, o rock rebelde e alternativo que já fervilhava pelas ruas de Seattle dá a conhecer-se ao mundo. E, com ele, uma voz e um rosto. Kurt Cobain, elevado a porta-voz de uma geração desalentada, confinada a uma sociedade marcada pela apatia e alienação e desejosa de uma forma de se libertar e de exorcizar os seus demónios.  

Um ano antes de "Nevermind" já os Alice In Chains, liderados por Layne Staley e Jerry Cantrell, tinham lançado o primeiro álbum, "Facelift". E havia ainda os "Soundgarden" e os "Pearl Jam" a despontar na cena musical de Seattle. Mas nenhuma história é tão trágica com as de Cobain e de Staley. Eles que morreram no mesmo dia, com oito anos de diferença, e que acabaram por ter tantos pontos em comum em vida.  

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Kurt Cobain e Layne Staley nasceram com apenas seis meses de diferença, corria o ano de 1967. E, na vida de ambos, houve um acontecimento que os iria mudar para sempre: o divórcio dos pais. Layne chegou a afirmar sobre a separação: "O meu mundo tornou-se um pesadelo, só havia sombras à minha volta. Recebi um telefonema a dizer que o meu pai tinha morrido, mas a minha família sabia que ele andava por aí, a consumir todo o tipo de drogas".  

Cobain também passou pelo mesmo e exatamente na mesma idade, por volta dos sete, oito anos. Foi aí que o rapazinho pacato - que aos dois anos já entoava o "Hey Jude", dos Beatles, e aos 4 dava os primeiros toques num piano - começou a tornar-se rebelde e a desafiar todos à sua volta. No dia em que fez 14 anos, o tio deu-lhe o presente à escolha: ou uma guitarra ou uma bicicleta. Escolheu a guitarra e de repente naquelas cordas já começam a correr algumas das suas músicas favoritas, como a "Stairway to Heaven", dos Led Zepellin.  

Aluno problemático, Kurt não chegou a terminar o liceu. Sai de casa dos pais e vai viver com amigos. Vai dormindo onde pode e, mais tarde na vida, chega mesmo a admitir que dormiu na rua (é ouvir a "Something in the way"). Mas é no liceu que conhece um dos elementos dos Melvins, uma banda de punk rock de Aberdeen, a sua cidade natal, que o leva para os ensaios, onde se iria cruzar com um tipo que o ajudaria a formar a banda que iria ficar na história da música.  

Cobain mostrou a Krist Novoselic umas gravações que tinha feito, mas demorou tempo a convencê-lo que deveriam formar um grupo. Quando Novoselic aceita, os dois passam a fazer alguns ensaios no andar de cima do cabeleiro da mãe de Krist. Passam para atuações ao vivo, mas não têm grande sucesso. Os espaços estão às moscas. A banda vai rodando de baterista até ficar com Chad Channing. E ganha um nome: Nirvana. Assinam pela Sub Pop Records (editora que começava na altura a impulsionar o movimento "grunge") e acabam por lançar o primeiro album, "Bleach", em 1989. Já são falados em Seattle, mas ainda estão longe de conquistar o mundo.  

Por essa altura, já Layne Staley estava também em estúdio a preparar um álbum. Layne, que começou por tocar bateria aos 12 anos, mas que sempre quis ser vocalista, tinha-se juntado a uma banda nos tempos de liceu, os "Sleze". É num estúdio de gravação que acaba por conhecer o guitarrista Jerry Cantrell. Tornam-se bons amigos - chegam a partilhar casa - e ambos formam os Alice N´Chains. Depois de um breve periodo de desagregação acabam por voltar a reunir-se, já com o nome definitivo - Alice In Chains. O primeiro álbum, "Facelift", acaba por sair em Agosto de 1990, apenas um ano depois do álbum de estreia dos Nirvana.  "Man in the Box", o segundo single, foi um sucesso. 

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"Kurt smells like teen spirit." A frase foi escrita a spray numa das paredes do apartamento de Cobain por Kathleen Hanna, membro da banda punk "Bikini Kill", onde estava também Tobi Vail, namorada de Cobain na altura. (E foi a pensar na relação problemática com Tobi que Kobain escreveu "Drain You", a tal música onde entra um pato de borracha lá pelo meio...) "Teen Spirit" era na verdade a marca do desodorizante usado por Tobi, mas a frase ficou e inspirou Cobain a compor a música que iria lançar os Nirvana para a fama mundial. E foi assim que um desodorizante passou a slogan revolucionário. O segundo álbum de estúdio do grupo é um sucesso, ao lado de Novoselic e já com o baterista Dave Grohl, a formação definitiva da banda. Mas é na tour de "Nevermind" que os problemas de Cobain com as drogas começam a evidenciar-se. O consumo de heroína tinha começado já a meio dos anos 80, mas tinha-se agravado com a fama crescente. A heroína era um escape e também um alivio para as crónicas dores de estômago de que sofria.  

"He's the one Who likes all our pretty songs And he likes to sing along And he likes to shoot his gun But he knows not what it means Knows not what it means when I say aahh ..." 

Kurt é subitamente promovido a porta-voz de uma geração, mas nunca se sente confortável nesse papel. Sente-se incompreendido, até mesmo mal interpretado. Em "Nevermind", envia várias mensagens nesse sentido. A mais evidente das quais na letra de "In Bloom". 

Ao mesmo tempo que Kurt Cobain se defrontava com o consumo de droga  e a depressão, o vocalista dos "Alice In Chains", Layne Staley, passava por problemas semelhantes. Os temas da banda refletem essas experiências pessoais. Em 1992, o grupo lança o seu álbum de maior sucesso, "Dirt".  Quando em 1994 editam o EP "Jar of Flies", os outros membros da banda optam por não partir em tourné, dado o estado de saúde cada vez mais deteriorado de Layne. Chega a tentar a reabilitação. Trabalha num projeto musical paralelo, que vai dar pelo nome de "Mad Season". Volta aos Alice In Chains, que editam mais um álbum em 95. Layne atua pela última vez em público em julho de 1996. No mesmo ano, a namorada morre (vítima de complicações provocadas pelo uso de drogas) e Layne entra em depressão profunda. Desaparece praticamente dos olhares públicos e recolhe ao apartamento onde viria a ser encontrado seis anos mais tarde, vítima de uma overdose de cocaína e heroína.  

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Cobain tinha-a conhecido no Satyricon, um clube noturno de Portland famoso por albergar bandas de rock alternativo e punk. Courtney era vocalista das "Hole", uma banda de punk rock, e ao que parece foi ela que avançou primeiro, perante a relutância inicial dele face aos avanços dela. A relação acabaria por ser conturbada, marcada pelo consumo de drogas de ambos. Casam-se em Fevereiro de 1992, no Havai, pouco tempo depois de descobrirem que iriam ser pais. (A filha, Francis Bean Cobain, acabaria por nascer em agosto desse ano). Cobain faz uma tentativa de reabilitação por essa altura, mas sem sucesso. Os problemas com as drogas e as reabilitações falhadas viriam a suceder-se.  

Em Março de 1994 está em Roma, depois de um concerto em Munique, quando sofre uma overdose, fruto de uma primeira tentativa de suicídio. No final do mês, a mulher, Courtney Love, junta vários amigos do cantor e organiza uma "intervenção", destinada a convencê-lo a internar-se. Aceita relutantemente e dá entrada num centro de reabilitação em Los Angeles. Dois dias depois vai fumar um cigarro, salta uma vedação de dois metros de altura e nunca mais se sabe dele.  

O resto da história é sobejamente conhecido. A 8 de abril, o corpo de Cobain é encontrado num anexo da sua casa em Seattle, com uma arma ao lado que o próprio tinha apontado contra o queixo. Os exames toxicológicos determinaram que tinha uma grande quantidade de heroína no organismo, além de um medicamento usado, entre outras coisas, para combater ataques de ansiedade. A autópsia acaba por revelar que a morte tinha acontecido dias antes... a 5 de abril.  

Kurt deixa a seu lado uma nota de suícidio em que umas das frases mais marcantes é uma citação de Neil Young: 

"It's better to burn out than to fade away".  

A frase serviria igualmente para retratar o fim trágico de dois dos nomes mais importantes do panorama "grunge". Enquanto o final de Kobain foi trágico e abrupto, a chama de Staley foi-se apagando com o tempo, até morrer esquecido no seu próprio apartamento. Já este ano, no reencontro dos Mad Season em Seattle, a 30 de janeiro, Layne foi homenageado de forma invulgar: enquanto os músicos tocavam o tema, Staley cantava. Numa gravação.