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A vida está no ar (e isso é só mais um passo para a sociedade de custo marginal zero)

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FOTO DR

Meerkat é uma nova aplicação. É a câmara em qualquer parte do mundo a emitir para todo o mundo em tempo real. Já é viral no South by Southwest (SXSW), que decorre em Austin, nos Estados Unidos.

Um dos acontecimentos do fim de semana passado chama-se Meerkat. O nome desta suricata do deserto africano, mamífero exemplar na evolução animal, é também o de uma aplicação criada para o iPhone que está a fazer furor no South By Southwest (SXSW), festival a decorrer até ao próximo domingo em Austin, no Texas, Estados Unidos. 

O Meerkat, lançado há apenas duas semanas e de modo muito hesitante, ancorou-se no Twitter, tirando partido da rede dos seus utilizadores, para partilhar vídeos em tempo real. Não, não é mais uma aplicação para gravar o vídeo e fazer o 'upload' para o Facebook ou Twitter, ou mais uma ferramenta para fazer vídeo conferências, como, de resto, já era possível numa série de aplicações, de que o Facetime é um bom exemplo.  

O Meerkat é a vida no ar, sem filtros, sem edições. A vida que cada um de nós pode partilhar no Twitter com todos os seguidores. É a câmara em qualquer parte do mundo a emitir para todo o mundo em tempo real, a partir do 'smartphone' mais próximo de si e para o 'smartphone' que tem na sua mão. 

O número de adesões ao Meerkat nestas duas semanas, mesmo tendo em conta que o conteúdo desses mesmos 'streamings' ainda é bastante incipiente, já permite antever o potencial desta aplicação; a 'riqueza' que reverterá para os seus criadores e utilizadores. Ainda ontem, alguém escrevia: "Assisti a um concerto do SXSW, e não estava em Austin, mas em Nova Iorque." Podia estar em Londres, em Paris ou na Amadora, como numa das t-shirts da banda portuguesa Buraka Som Sistema, cuja imagem abria a página na internet do SXSW.

Podia de facto estar em qualquer lugar desde que tivesse internet. E se nada disto é totalmente novo, a inovação está na forma como o Meerkat usa a seu favor uma rede agregadora como o Twitter, e como essa mesma plataforma aumenta infinitamente o seu potencial. De resto, o Twitter já se ressentiu, e as tensões entre as duas aplicações começaram.Como o Twitter em 2007 ou o Foursquare em 2009, foi o SXSW (evento dedicado à música, filmes e interatividade) que tornou a nova aplicação viral.

Nem todos estes fenómenos devem ser levados em conta, mas desde 1999, e desde o Napster, que a relação entre tecnologia e cena musical é algo que o resto do mundo não deve ignorar. Foi de facto o Napster, ao partilhar ficheiros musicais, que criou um novo paradigma a partir da primeira plataforma de 'prosumers'. O que segundo Jeremy Rifkin remete para a figura de fornecedor e consumidor numa sociedade onde o custo marginal se aproxima do zero e as colaborações e partilhas se intensificam através de sistemas agregadores.

Jeremy Rifkin, que anuncia, sem pessimismos, o fim da era do capitalismo no seu último livro ("The Zero Marginal Cost Society: The Internet of Things, The Collaborative Commons and The Eclipse of Capitalism"), de que já falei na semana passada, sublinha a forma como o sistema capitalista, que nos parece completamente insubstituível, se tornará cada vez mais residual. Para Rifkin, a economia tem uma natureza cada vez mais híbrida e o capitalismo andará lado a lado com o "Collaborative Commons".

Rifkin começa, de facto, o capítulo do último livro - dedicado ao conceito de "Collaborative Commons" - reforçando a ideia de que se nos tivessem dito há 25 anos que os seres humanos poderiam trocar textos, vídeos, sons e conhecimentos a partir de um pequeno telefone, provavelmente não teríamos acreditado. Mas foi de facto há 25 anos que começou esta nossa aventura, com o lançamento da WorldWideWeb, em 1990.

A imprensa norte-americana já começou a usar o Meerkat, percebendo de imediato as suas potencialidades e a ameaça que esta aplicação representará. Não é difícil imaginar as formas como o Meerkat poderá ser usado no ativismo político, nos movimentos cívicos, no desporto... Mas se ainda não sabemos se o Meerkat é algo que veio para ficar, eu não teria problemas em apostar que, com esta ou outra aplicação, o conceito não nos vai largar, tal como o sistema no qual se enquadra, por mais que nos pareça assustador.

[Texto originalmente publicado na edição do Expresso Diário de 18 de março de 2015]