Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A história do papagaio (ou da fúria criativa de Manoel de Oliveira)

  • 333

FOTO ERIC GAILLARD / REUTERS

Pedro Abrunhosa foi coprotagonista em "A Carta" (1999) e Manoel de Oliveira realizou a curta-metragem que ilustra a canção "Momento", do álbum homónimo, lançado em 2002 por Abrunhosa. Conheciam-se há cerca de 35 anos.

Helena Bento

Jornalista

Pedro Abrunhosa gosta de recordar um episódio que aconteceu durante a rodagem da curta-metragem que ilustra o seu single "Momento". O pequeno filme, com a duração de cinco minutos, foi rodado no Porto. Estavam na praia, na Afurada (Gaia), e era preciso içar um papagaio (fazia parte de uma das cenas da curta), mas não havia papagaio nem havia quem o içasse. A equipa de rodagem ficou atrapalhada, Manoel de Oliveira nem por isso. Com a "fúria criativa" que lhe conheciam (tinha 95 anos na altura), enfiou-se no carro, atravessou a ponte da Arrábida, chegou a casa, agarrou nos materiais, papel, madeira e cola, e quando regressou à praia começou a construir um papagaio. Chamou um miúdo que andava por ali, um filho de pescador que "parecia ter saído do seu 'Aniki Bóbo'", e pediu-lhe que agarrasse no papagaio e o fizesse voar. "Vais ali para o fundo e pões-te a correr", dissera-lhe. E como se o miúdo não percebesse, Manoel de Oliveira exemplificou, "como fazia sempre". "O Manoel tinha uma capacidade intelectual e física invulgar", recorda Pedro Abrunhosa em entrevista ao Expresso.

Conheceu o realizador há 35 anos. O convívio, esse, só viria a tornar-se frequente anos depois, quando Oliveira começou a visitar a casa de Abrunhosa. Trabalharam juntos em várias bandas sonoras. Oliveira chegava e sentava-se junto do músico, "imiscuindo-se [de forma positiva, dirá Abrunhosa mais tarde] nas gravações". Não era produtor, "mas uma voz ativa na condução do processo". 

Em 1999, Abrunhosa foi protagonista do seu filme "A Carta" ("foi uma experiência brilhante"), vencedor do Prémio do Júri no Festival de Cannes, e anos mais tarde pediu-lhe que fizesse um "videoclip" para o seu single "Momento", que viria a ser lançado em 2012. "'Videoclips' não faço, mas faço curta-metragem". E fez, levando "tudo muito a sério, preparação, produção, etc".

Trabalhar com Manoel de Oliveira foi "muito fácil", recorda Abrunhosa. "Eu faço de mim próprio um filme e o Manoel deixava muito claro que eu tinha de ser eu próprio" (em "A Carta", Pedro Abrunhosa protagoniza a personagem de Pedro Abrunhosa). Apesar disso, realizador e músico nem sempre se entenderam. "Muitas vezes o confrontei com algumas questões, mas ele era muito inflexível." Dá como exemplo a rodagem do já referido filme "A Carta", em que Abrunhosa achava que uma das partes do texto, escrito em francês, devia ser alterada porque não lhe parecia "muito coerente", mas Oliveira manteve-se firme. Falou com uns quantos entendidos e a partir daí "não houve discussão possível". O confronto, de resto, foi sempre "saudável" - "o Manoel não se deixava atrapalhar por isso e eu também não" - ao contrário do que aconteceu com outras pessoas com quem o realizador trabalhou. "Vi-o ser muito duro com alguns atores."

Abrunhosa conta que certa vez disse ao realizador que o achava muito mais "dionisíaco" do que "apolíneo", muito mais "provocador" do que "contemplador" ("como as pessoas costumavam dizer"). "Manoel era um homem de uma acutilância, humor, ironia e sensualidade enormes, e um cineasta invulgar. O Manoel não fazia filmes, fazia cinema", acrescenta. "Deixa uma obra vastíssima, tanto em termos de quantidade como conteúdo, e a imensidão dos assuntos que aborda é um feito. De alguma forma, toda a gente o conhecia."