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A filha de Cobain prefere Oasis a Nirvana, mas chora com uma das canções do pai: "My heart is broke but I have some glue"

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Frances Bean Cobain numa foto que colocou no Twitter

Frances, hoje com 22 anos e artista plástica, falou sobre o pai e os Nirvana como raramente (ou nunca) a vimos. As confissões vêm na Rolling Stone, que a entrevistou a propósito da exibição do documentário da HBO "Kurt Cobain: Montage of Heck", que está a chegar.

Maria Henriques

Há alguns anos, Frances Bean Cobain trabalhou como estagiária nos escritórios de New York da Rolling Stone. Era uma miúda de 15 anos de estilo gótico e um bocado fechada - palavras da própria. Lembra-se de ser assistente de pesquisa para uma notícia sobre os Jonas Brothers e de trabalhar num cubículo atravessado por uma parede que tinha uma pintura gigante de Kurt. "Olhava para o meu pai todo o dia", conta Frances à Rolling Stone, à qual acaba de conceder uma entrevista em que faz revelações inesperadas e observações comovidas. 

Sobre o documentário que aí vem e em que assume a produção executiva - "Kurt Cobain: Montage of Heck" -, descreve-o como jornalismo emocional. "É o mais próximo que há de ter o Kurt a contar a sua própria história, nas suas próprias palavras, de acordo com a sua própria estética, com a sua particular perceção do mundo. Pinta um retrato de um homem que tenta lidar com o facto de ser humano. Quando o Brett [o realizador] e eu nos encontrámos pela primeira vez, eu fui muito específica sobre como queria ver o Kurt representado. Disse-lhe que não queria a mitologia nem o romanticismo. Apesar de Kurt ter morrido de uma forma horrível, há esta mitologia e romantismo que o rodeia, porque ele terá sempre 27 anos. A vida ativa de um artista ou músico não é particularmente longa. O Kurt atingiu o estatuto de ícone porque nunca será velho - sempre será relevante para a sua época e será sempre belo".  

Frances concorda com a descrição feita por um espectador de que "Montage of Heck" é um filme interessante sobre alguém de quem não se gosta: "Para mim, o filme proporciona uma grande quantidade de informação sobre o meu pai e não apenas histórias que foram distorcidas e contadas de dez maneiras diferentes. É uma evidência factual de quem o meu pai era em criança, adolescente, homem, como marido, como artista. Explora cada um dos aspetos de quem era como ser humano".

Na entrevista, Frances afirma que "Kurt chegou ao ponto em que teria de sacrificar quem era em prol da sua arte, porque o mundo assim o exigia". "Penso que isso era uma das causas pelas quais ele sentia que não queria estar aqui e que toda a gente seria mais feliz sem ele." E lamenta o que perdeu: "Na realidade, se ele tivesse vivido, eu teria tido um pai e isso teria sido uma experiência incrível".

Frances diz que o pai "era excecionalmente ambicioso", mas que "tinha uma grande carga em cima dele que excedia a sua ambição". E explica: "Ele queria que o grupo tivesse êxito, mas não queria ser a merda da voz de uma geração". Questionada sobre o que sentiu quando ouviu pela primeira vez um disco dos Nirvana, Frances deu uma resposta surpreendente: "Não gosto assim tanto dos Nirvana, desculpem lá pessoal da Universal. Gosto mais de Mercury Rev, Oasis, Brian Jonestown Massacre. Mais: "A cena grunge não é aquilo que me interessa, mas 'Territorial Pissings' [do álbum Nevermind] é uma grande canção. E 'Dumb' [de In Utero]- choro de cada vez que a ouço. É uma versão depressiva da perceção que o Kurt tinha de si próprio - com drogas, sem drogas, sentindo-se inadequado para ser a voz de uma geração".

Frances pormenoriza uma herança que os genes lhe salvaguardaram. "A voz dele falada é similar à minha, um bocado monótona. A intensidade é similar à forma como eu falo - não sei que merda é esta, eu nem sequer ainda falava quando ele era vivo. É muito estranha a questão dos genes." E conta a o encontro com os membros do grupo. "O Dave [Grohl], o Krist [Novoselic] e o Pat [Smear] vieram visitar-me um dia. Era a primeira vez que estavam juntos depois de muito tempo. Olham para mim e percebe-se  que estão a olhar para um fantasma. O Dave disse 'ela é tão parecida com o Kurt'. Estavam todos a falar entre eles, renascendo velhas histórias que já tinha ouvido um milhão de vezes. Estava sentada numa cadeira, com ar de quem estava muito aborrecida e disseram 'estás a fazer exatamente o que o teu pai teria feito'. Foi uma experiencia cool, tal como estar numa reunião mini dos Nirvana, exceto quando à ausência dele".

Apesar de não estar interessada na música dos Nirvana, não se sentiu bizarra por isso quando era adolescente. "Pelo contrário, tê-lo-ia sentido se tivesse sido uma fã." Frances tinha cerca de 15 anos quando se apercebeu que não podia escapar ao culto - mesmo no carro, ouvia o rádio e lá estava o pai. "A nossa cultura é obcecada com músicos mortos, adoramos pô-los num pedestal. Se Kurt tivesse sido apenas mais um tipo que abandonou a família da maneira mais hedionda possível... mas não era. Ele inspirou gente que o idolatrou, tornou-se o Santo Kurt. Tornou-se ainda maior depois de morrer do que era em vida, o que seria impensável para alguém."

Frances está a começar uma carreira aproximadamente com a mesma idade que o pai tinha quando fez o primeiro álbum dos Nirvana, 22 anos. "A parte mais difícil de tudo o que é criativo é exatamente levantar e fazer. Assim que me levanto da cama e entro no meu estúdio, começo a pintar. Estou ali. E estou a fazê-lo."