Siga-nos

Perfil

Expresso

Livros

Dois novos livros de Gonçalo M. Tavares

Gonçalo M. Tavares prossegue a sua "cartografia da desordem" humana com um livro de histórias interligadas e mais um 'senhor' da série "O Bairro".

José Mário Silva (www.expresso.pt)

Após um ano de rara acalmia, Gonçalo M. Tavares voltou ao seu vertiginoso ritmo de publicação. Com poucas semanas de intervalo, chegaram às livrarias três novas obras (no total são já 29, desde 2001).

Primeiro surgiu "Uma Viagem à Índia" (Caminho), portentosa antiepopeia decalcada da estrutura de "Os Lusíadas", livro ambicioso (mais de 400 páginas de fragmentos, divididos por dez cantos) e muito arriscado (medir-se com Camões, o vate da pátria, não é para todos), de escrita fulgurante e belíssima, um verdadeiro triunfo literário que o confirma, se dúvidas houvesse, como o grande escritor português do século XXI.

Depois, como se aquele monumento não bastasse, eis que surgem, de rajada, mais dois opus: "Matteo Perdeu o Emprego" e "O Senhor Eliot e as Conferências".

Situações caricatas ou absurdas

"Matteo Perdeu o Emprego" compõe-se de duas partes. A primeira é um conjunto de 25 contos muito curtos, em que personagens com nomes judaicos - retirados de um trabalho do fotógrafo Daniel Blaufuks - vivem situações caricatas ou absurdas.

Temos Cohen, académico cheio de tiques que sofre de copropraxia (repetição de gestos obscenos) e de um compreensível ostracismo social; temos Goldstein, um cego fascinado pelas substâncias raras (como o escândio) e pela tabela periódica, ao ponto de pedir ao seu amante para a tatuar, em Braille, nas suas costas; temos Helsel, cujo "hobby estúpido" consiste na recolha e armazenamento de baratas vivas num armazém rigorosamente monitorizado; ou Kashine, um rapaz de 16 anos que escreve "não" em tudo o que pode, lançando o caos à sua volta - porque basta acrescentar o não onde estava o sim "para dar início ao inferno, ao desassossego".

Há também rotundas reais e imaginárias, um labirinto perigoso e uma "barca da razão" que é só um navio dos loucos adiado.

Cada história encadeia-se na seguinte por via de um pormenor comum, um qualquer ponto de contacto, criando uma espécie de estafeta narrativa em que cada personagem passa o testemunho à personagem seguinte (cujo nome é assinalado a negrito, para vincar a transmissão). Aparentemente, o livro obedece a uma lógica circular e a uma ordem alfabética.

A personagem Matteo

Quando chegamos a Matteo, a "personagem central" (única com direito a uma história mais desenvolvida, em 12 capítulos) e suposto fim da linha, ele acaba por encontrar um tal Nedermeyer que assistiu, uma hora antes, ao atropelamento da primeira personagem, Aaronson.

Este aparente círculo pode, contudo, não passar de uma elipse. É pelo menos o que sugere o autor na segunda parte do livro, um brilhante posfácio que funciona como exegese do que acabámos de ler.

Olhando para os seus próprios contos como se fossem de outro, Gonçalo M. Tavares estabelece nexos, esmiúça ideias, relaciona conceitos, generaliza. À nossa perceção inicial das histórias contrapõe a sua leitura, que desmonta os próprios fundamentos em que assenta a obra ("o alfabeto como hierarquia", por exemplo, um "elemento aleatório que dá uma ordem que nos parece sensata" e que pode, afinal, ser apenas gratuita).

Numa destas notas finais, Gonçalo M. Tavares assume: "Há, de facto, aqui, como em qualquer romance ou obra de ficção, um sistema de ligações." Ligações que se estabelecem não só dentro de cada livro mas também entre livros. Justamente o que acontece entre "Matteo..." e "O Senhor Eliot...".

Protagonista do décimo volume da série 'O Bairro', o senhor Eliot profere numa sala quase às moscas, a convite do senhor Manganelli, uma série de seis conferências (mais uma fantasma) em que pretende explicar um só verso de vários poetas: começa com Cecília Meireles e continua com René Char, Sylvia Plath, Marin Sorescu, W.H. Auden, Joseph Brodsky e Paul Celan.

Mas chamar-lhe "explicação de um verso" induz em erro. Porque o senhor Eliot não explica nada. O que ele faz é: 1) desmontar grosseiramente os versos até ao ponto em que deixam de fazer sentido, um exercício sofístico com qualquer coisa de cruel; 2) dar-se ao luxo, ó heresia suprema, de os corrigir. As conferências não são análises, são autópsias. E o bisturi utilizado é o da racionalidade mais estrita, o instrumento cortante que expurga o que há de ambíguo, e por isso de radicalmente poético, na poesia.

O pensamento do senhor Eliot, no fundo, é antipoético. Basta ver o que acontece na segunda conferência, em que o trabalho sobre o verso de René Char limita-se ao acrescento de um "não". Um "não" que sabota e dissolve o sentido, como o "não" de Kashine em "Matteo Perdeu o Emprego".

E exemplo concreto do tal "sistema de ligações" que atravessa a proliferante obra de Gonçalo M. Tavares.

Matteo Perdeu o Emprego

Gonçalo M. Tavares

Porto Editora, 2010, 210 págs., €15,50

O Senhor Eliot e as Conferências

Gonçalo M. Tavares

Caminho, 2010, 74 págs., €13,90

 

Texto publicado na revista Atual de 11 de dezembro de 2010