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Jessica Knoll: “Fui considerada culpada pela minha violação”

Jessica Knoll foi violada aos 15 anos. Durante anos, ninguém reconheceu o que lhe aconteceu e ela, envergonhada, nunca mais falou do assunto. Aos 28 anos, quando escreveu o bestseller “A Rapariga Mais Sortuda do Mundo” sobre uma rapariga que passa pelo mesmo, ganhou coragem e contou o que aconteceu naquela noite. Ao Expresso, diz que “a vergonha perde o seu poder quando é exposta à luz” e explica porque recusa dar conselhos a outras vítimas

O livro de Jessica Knoll que contém uma revelação dolorosa escondida num título aparentemente contraditório

O livro de Jessica Knoll que contém uma revelação dolorosa escondida num título aparentemente contraditório

A protagonista do bestseller “A Rapariga Mais Sortuda do Mundo”, que chegou recentemente às livrarias portuguesas, chama-se Ani – o nome discreto que escolheu para deixar para trás a versão completa, TifAni FaNelli – e tem 28 anos. Mais factos sobre Ani: tem 28 anos, trabalha numa revista feminina, está prestes a casar e um dos seus grandes objetivos é atingir um estatuto social que lhe permita ultrapassar o passado e a reputação que a perseguem.

Escrevemos isto não para lhe contar a história do livro, mas antes para explicar a história da autora, a norte-americana Jessica Knoll, que partilha um elevado número de semelhanças com a sua protagonista. Como ela, tinha 28 anos quando escreveu o livro; começou a carreira como editora na revista Cosmopolitan; casou cedo, mudou-se para Nova Iorque e, como Ani, escondeu até há pouco tempo a experiência que a traumatizou e enraiveceu durante muitos anos - Jessica Knoll foi violada.

Aconteceu numa festa, quando andava na escola e contava 15 anos. Jessica, longe de imaginar um futuro brilhante e precoce como editora e escritora, tinha uma paixoneta por um colega de escola e foi a uma festa em que ele também marcou presença. Bebeu demasiado, encantou-se com ele, bebeu um pouco mais e ficou inconsciente. Lembra-se de acordar e não reconhecer as costas do rapaz com quem partilhava cama; de se querer convencer que o sangue viria de algum corte com um vidro ou coisa parecida; de se rir das piadas dos rapazes que a violaram para esconder a humilhação, como “carvão quente no peito”. De não saber da roupa interior, de toda a gente na escola lhe chamar devassa e a humilhar, de escreverem insultos no cacifo e de ouvir críticas de professores.

Naquela manhã em que percebeu imediatamente a palavra certa para o que lhe acontecera – Jessica fora violada pelo grupo de rapazes que se aproximara de si, inconsciente e incapaz de consentir, naquela festa – engoliu as palavras que lhe apetecia dizer e dirigiu-se a uma clínica para pedir a pílula do dia seguinte. A médica – “uma mulher”, como enfatiza – respondeu-lhe que “não tinha qualificações” para lhe dizer se o que acontecera fora uma violação.

Como aquela médica, todos os adultos a quem falou do assunto “falharam-lhe” e todos os colegas gozaram-na e alimentaram a reputação que a perseguiu – Jessica, a fácil, a devassa. Pensou durante anos que alcançar um estatuto social diferente, casar cedo e mostrar às pessoas que marcaram o seu passado que não era aquilo que lhe chamavam iria sarar as feridas. Depois de um “confronto alcoolizado” ter chamado violador a um dos rapazes que a violou, pediu-lhe desculpa. Aprendeu a suavizar a voz, a não ofender, a não contar, a não incomodar os outros com o seu sofrimento e a sua dor.

Aconteceu durante 17 anos – durante esse tempo, só um terapeuta lhe disse que fora vítima de uma violação em grupo. “Qual era o objetivo de levantar a voz quando tudo o que ouvia em resposta era o meu eco solitário?” A segunda pessoa foi a sua agente literária: “Mas ela não estava a falar sobre mim. Estava a falar sobre a Ani, a protagonista do meu livro”. Jessica escrevera “A rapariga mais sortuda do mundo” guardando para si o segredo que a assombrava desde a adolescência – a violação que acontece no livro é realista porque se baseia diretamente no terror que Jessica sofreu.

A revelação do caráter biográfico desta dor só aconteceu no ano passado, um ano depois de o livro ter sido lançado nos Estados Unidos, quando decidiu propor um ensaio em que finalmente abria a sua alma à newsletter feminista Lenny Letter. No mesmo dia em que ganhou coragem e fez a proposta, e como por magia ou destino, uma mulher perguntou-lhe num evento de promoção do livro sobre a inspiração para aquela cena numa festa de adolescentes – e, pela primeira vez, Jessica não teve medo de assumir a sua história, “recuperar o controlo da sua narrativa”. Contou a sua história na Lenny Letter. Agora, fala ao Expresso, numa entrevista feita por e-mail, sobre o que sente desde que se libertou – a raiva que faz parte de si, a cultura que nos ensina a envergonhar a vítima, a importância de reencontrar a sua voz e a incapacidade para dar conselhos a quem passa pelo mesmo.

Quando foi a primeira vez que teve consciência e reconheceu o que lhe tinha acontecido naquela festa?
Soube no momento em que abri os meus olhos de manhã que tinha sido horrivelmente abusada. Tive medo de usar a palavra violação ao pé de outras pessoas durante muito tempo, por temer as consequências sociais, mas sempre soube que o que me tinha acontecido era uma violação.

Foi um alívio usar finalmente a palavra violação – e ouvir outros a usá-la também?
Foi um alívio ouvir pessoas que leram o livro a definirem o que acontece a Ani como violação, ou violação em grupo. O que lhe aconteceu foi o que me aconteceu a mim, mas tive medo de reclamar a experiência como minha porque, quando eu estava na escola, fui considerada culpada pelo que me aconteceu. Ninguém usou, alguma vez, a palavra violação, só a palavra ‘devassa’. 17 anos depois, quando escrevi uma cena inspirada no que me aconteceu e ouvi pessoas a chamarem-lhe o que era – violação –, senti-me encorajada a chegar-me à frente e dizer a verdade, porque já ninguém me estava a culpar.

No momento em que lhe perguntaram sobre se havia uma experiência real por trás daquela descrição, o que é que lhe passou pela cabeça?
Eu tinha acabado de propor a ideia à Lenny Letter e de a discutir com a minha terapeuta, que me encorajou fortemente a fazê-lo. Por acaso tinha um evento sobre o livro nessa tarde e, quando me perguntaram sobre isso, percebi que já não tinha de evitar a pergunta porque já tinha decidido escrever sobre isso. Foi embaraçoso e desconfortável – todas as novas experiências tendem a sê-lo e partilhar esta parte de mim foi uma nova experiência – mas também foi um momento de orgulho para mim.

Sente que desde então a sua vida mudou? Sente-se mais em paz?
Partilhar a minha história não teve tanto que ver com encontrar paz, mas com encontrar a minha voz. Eu pareço uma pessoa forte e independente, mas olhando para trás na minha vida consigo indicar tantas vezes que os meus chamados amigos e entes queridos se aproveitaram de mim porque nunca aprendi a estabelecer limites. Estou a aprender a fazer isso agora, em vez de proteger outras pessoas da minha dor e sofrimento. Eu não falava do que aconteceu porque isso deixava os outros desconfortáveis ou perturbados. Estou a aprender a pôr as minhas necessidades emocionais primeiro.

No livro descreve o sentimento de angústia e as insónias que assombram a protagonista, Ani. É um retrato do que sentiu na vida real?
Eu não tenho insónias, como a minha personagem. Mas algo que temos em comum é a nossa raiva. A nossa raiva vem da experiência de as nossas vozes nos terem sido roubadas. Trabalhei duramente no ano passado para reclamar a minha voz e escrever o ensaio foi uma parte desse esforço.

Como Ani, tentou encontrar algum tipo de estatuto social que permitisse deixar a sua vida antiga para trás?
Como a Ani, eu construí-me no exterior - e quando isso não me fez feliz, tive uma epifania: pensei em como podia a minha vida parecer tão perfeita enquanto eu me sentia tão infeliz e agora percebo que é porque nunca tinha enfrentado o meu trauma. Eu nunca me permiti sentir o que tinha de sentir para poder seguir em frente e começar a reconstruir a minha vida. Estou a fazer isso agora, 17 anos depois.

Foi difícil escrever sobre a violação de Ani e de alguma forma reviver a experiência?
O oposto. Foi terapêutico.

d.r.

Depois daquela noite, sentiu culpa? Atribui esses sentimentos a uma cultura que culpa a vítima?
Senti vergonha. E a vergonha multiplicou-se quando o livro saiu e eu me senti demasiado desconfortável para me apresentar como uma sobrevivente de violação. É parte da razão pela qual tive de o fazer – a vergonha perde o seu poder quando é exposta à luz.

Hoje sente raiva em relação aos atacantes e aos que não reconheceram que precisava de ajuda?
Sempre me senti zangada e ainda estou zangada, mas a diferença é que já não me sinto impotente. Quando estava na escola, sentia-me completa e absolutamente impotente e ainda me dói lembrar-me da rapariga que era.

O que diria a uma rapariga que passa pelo mesmo e precisa de um conselho?
Estou cansada de responder a esta pergunta, porque não há uma boa resposta. É manter a cabeça erguida, coisa que fiz, ou dizer a uma figura de autoridade, coisa que também fiz, e todos os adultos a quem pedi ajuda me falharam. Ao dar conselhos a jovens vítimas de violação parece que ponho o ónus nelas, sobre o que devem fazer em relação à sua própria horrível violação. Preferia que concentrássemos a nossa atenção em dar conselhos a homens jovens. A começar cedo, devíamos dizer-lhes: não violem e isto é uma violação. Não abusem e isto é abuso. Não façam bullying e atormentem e assediem mulheres que revelam as suas histórias e isto é fazer bullying e atormentar e assediar mulheres. Esse é o único conselho que tenho para dar.