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O dolorogista

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Os solilóquios furiosos das últimas cem páginas deste romance de Philip Roth são divertidos mas cansativos

ERIC THAYER / Reuters

Os solilóquios furiosos das últimas cem páginas deste romance de Philip Roth são divertidos mas cansativos

Aos 40 anos, Nathan Zuckerman sente-se “profissionalmente bloqueado, fisicamente diminuído, sexualmente desinteressado, intelectualmente inerte, espiritualmente deprimido”. Uma dor intensa afecta-lhe o pescoço, os braços, os ombros. Zuckerman diz-se “tão deformado como Ricardo III”, é um Hans Castorp com menos filosofia. Tenta tudo para ficar melhor. Um colar ortopédico, vitaminas, massagens, ultrassons. Erva, comprimidos, vodca. E um harém de enfermeiras. “Quando está doente, todo o homem quer a mãe; se ela não está por perto, outras mulheres têm de a substituir.” Alter-ego mais frequente de Philip Roth, Zuckerman apareceu em nove livros. “A Lição de Anatomia” (1983) é o terceiro volume dessa autoficção que começou com “The Ghost Writer” (1979) e terminou com “O Fantasma Sai de Cena” (2007). Ao contrário do que acontece nos romances tardios de Roth, neste livro o sofrimento físico não é causado pela idade mas pela ansiedade. Zuckerman, aos 40, é um homem saudável mas com muitas dores, dores morais que se tornaram físicas, e que talvez sejam uma “punição pelo retrato de família que todo o país tomara como sendo o do autor, pelo mau gosto que indignara milhões de pessoas e pelo descaramento que enfurecera a sua própria tribo”. A obra que causou tudo isso, “Carnovsky” [ou seja, “O Complexo de Portnoy” (1969)], era a confissão exasperada de um judeu reprimido, obsessivo, selvagem. Zuckerman ficou famoso, mas os judeus acusaram-no de ser anti-semita, as feministas denunciaram-no como um misógino demente, os críticos repudiaram-no como um caricaturista grosseiro. E diz-se que os seus pais morreram de desgosto.

Zuckerman é um Job moderno, um homem vítima de tribulações das quais se acha inocente. “Dolorogista” inveterado, quer encontrar um significado no sofrimento, mas apenas consegue a intensificação desse sofrimento. Como consolo, e depois de três casamentos fracassados, o romancista acumula amantes: Diana, a estudante promíscua, Gloria, devotada e ousada, Jaga, infeliz e disposta a tudo, e Jenny, a artista. Elas sabem que são pouco mais do que “um orifício”, ou material romanesco, destino comum das personagens femininas de Roth. Zuckerman transforma os seus vícios em histórias, e tem uma forte tendência para a “dessublimação”, para conspurcar tudo aquilo em que toca. Até uma memória afectuosa da mãe e dos seus pertences descamba em gestos degradantes. Cansado da angústia introspectiva, Zuckerman decide estudar medicina, uma profissão útil, que agradaria aos pais. É um regresso a Chicago, uma nostalgia da juventude e da universidade, evocadas de modo sucinto e eficaz. Mas trata-se de uma fantasia inconsequente, porque ninguém se torna médico aos 40. Além de que lidar com verdadeiras doenças é ainda mais intolerável do que suportar o 'mal de vivre'.Zuckerman reage a mais essa adversidade fazendo-se passar por um pornógrafo, em diatribes cómico-grotescas, desesperadas. As últimas cem páginas de “A Lição de Anatomia” são solilóquios furiosos, divertidos mas cansativos. Roth estava zangadíssimo com o crítico Irving Howe, que o tinha arrasado, e responde inventando a personagem de um crítico puritano, moralista, ultrapassado. Também ensaia farsas judaicas: “Honra o teu Finkelstein! Não cometerás Kaufman! Não farás ídolos na forma de Levine! Não invocarás o nome de Katz em vão!” E tenta chocar toda a gente com um festival de obscenidades. Mas “a sua franqueza é uma forma de rebaixar as coisas”. Não é fatal que seja assim: obras-primas como “Pastoral Americana” (1997) e “A Mancha Humana” (2000), menos auto-referenciais, mostram que até Zuckerman é capaz de uma benéfica sublimação.