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Saborosos, como pede a época

Gregor Schuster

Escrevo hoje sobre alguns livros, direta ou indiretamente relacionados com o tema gastronomia (vinhos e comidas). Escolhi três, dois versando os nossos generosos mais famosos — Porto e Madeira — e outro, bem curioso, que funciona como guia de tascas de Lisboa. O livro de António Barreto aborda o Douro — rio, região, gentes e vinho — e é muito mais do que um livro sobre o vinho do Porto. Funciona como uma nova edição de um outro, sobre o mesmo tema, que o autor escreveu há 20 anos. Foi agora muito enriquecido, não só com a atualização do texto como também com as fotografias que o autor tirou ao longo dos últimos 40 anos.

A abordagem é sobretudo sociológica e é o sentir das gentes habituadas ao clima agreste, a forma como o rio e os seus trabalhos moldam as gentes e as relações pessoais, o peso que o vinho tem na economia, no comportamento, nas hierarquias sociais e nas relações de trabalho. Sendo a nossa região mais falada e estudada, o livro de Barreto — grande em todos os sentidos (ao ponto de ser difícil de transportar) — resulta num trabalho de grande nível, tal como de grande nível já tinham sido os programas que sobre a região também fez para televisão.

O acervo fotográfico sobre a região é imenso e, sobretudo com as fotos de Domingos Alvão, dos anos 30 e 40, não há livro que não fique mais rico ao incorporar este espólio incrível. Menos falado é o vinho da Madeira e os escritos sobre ele são em muito menor número. Por esta razão ganha uma nova dimensão o livro agora lançado, da autoria de Richard Mayson. O autor, inglês, tem uma longa tradição de ligação a Portugal; já escreveu muitos livros sobre os vinhos portugueses, é produtor no Alentejo (serra de São Mamede), fala português e, ironia do destino (ou não) casou com Katrina, a filha de Richard Blandy, da Madeira Wine Company. O interesse pelos vinhos da Madeira, esse, começou há 35 anos. Apesar de escrito em inglês — é uma limitação, diga-se — e de apenas estar disponível (para já) nas instalações da Madeira Wine, no Funchal, o livro faz-nos entrar nos segredos deste vinho que teima em dizer-nos que é eterno. Às vezes esquecemo-nos, mas é erro nosso.

Além de toda a informação histórica e técnica sobre este generoso, Mason ainda nos contempla com inúmeras notas de provas dos vinhos que foi provando, alguns provavelmente difíceis de encontrar, a não ser em leilão. Muita informação, muita segurança, um bom auxiliar para melhor apreciarmos este vinho de deuses. Caindo na real (em jeito sambístico) o guia das tascas de Lisboa é um precioso auxiliar que até podemos oferecer a estrangeiros, já que é bilingue. Aqui é feito um levantamento bem curioso de muitas tascas da capital (todas fotografadas). Não há quem não tenha uma tasca que elege como sua, onde o conceito inglês de confort food ganha dimensão. O leitor conhecerá muitas, mas vai ver que aqui encontra muitas outras que desconhecia. Sirva-se.