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Entre nós e as palavras, o nosso dever de falar das “pulgas da história”

D.R.

A instalação artística "NAU!", do Teatro Experimental do Porto, leva o público até ao lado B da viagem de circum-navegação de Fernão Magalhães. Agita tormentas do imaginário coletivo, vira do avesso a história do expansionismo ultramarino, escrita pelos vencendores sobre os corpos de outros

Quer entrar um jogo? Estamos em 1519 e o navegador português Fernão Magalhães, ao serviço de Espanha, tem a ambição de efetuar a primeira viagem de circum-navegação marítima. Inverta-se, no entanto, a perspetiva. Imagine-se fechado dentro de um pequeno contentor. Uma nau flutua enquanto a esperança afunda. Depois da invasão e do sequestro, ninguém sabe para onde vai.

As memórias do horror, da destruição e da brutalidade - provocadas por quem anunciava oferecer civilização - insurgem-se como adamastores. Homens chegados do desconhecido dizimaram florestas. Profanaram o solo, em busca de metal. Pode parecer a encarnação do mal, mas dizem-lhe que é tudo por bem. Falam de um deus novo, de uma bondade invisível, quando apenas o inferno se abate perante os olhos. O ser humano pode ser cego à dor dos outros, apenas por se assemelharem diferentes. Não há boa esperança para quem tem os pés agrilhoados. A liberdade está perdida, entre a tormenta das cinzas e os destroços das aldeias agora queimadas, onde cabia todo o mundo conhecido. A vida despedaçada teima em remanescer e já não lhe pertence. Imagine-se apenas como carne. A vida não é sua. É do navegador que a apanhar.

Não se assuste. É apenas um jogo de palavras, proposto pelo Teatro Experimental do Porto, montado através da instalação artística “NAU!”, atracada entre este sábado e 29 de julho na Praia do Homem do Leme, construída para fazer com que o público navegue até ao lado B - talvez de barbaridade - da corrida ultramarina. “Escovar a história a contrapêlo”. A expressão pertence ao filósofo alemão Walter Benjamin e serve de mote para uma obra que pretende tornar visível aquilo que fica oculto.

Pilhar para avançar

O objetivo é trazer à tona e virar do avesso a mitificação do expansionismo, tão enraizada no imaginário coletivo português. "A citação de Walter Benjamin é muito feliz. Quando escovamos a contrapêlo saltam pulgas", explica Gonçalo Amorim, diretor artístico do TEP. "Custa utilizar algumas palavras e há sempre uma dificuldade de fazer autocrítica. Mas temos de fazer o esforço de não suavizar os acontecimentos", acrescenta o responsável.

"É importante corrigir a língua", atalha Raquel S, coordenadora da fanzine que acompanha a viagem criativa desta “NAU!”, uma vez que “o poder simbólico é poder social”. A publicação colige fontes documentais e contém um jogo intitulado "Pilhar para Avançar", em que o leitor é colocado no papel do colonizador ou do invasor. “Faz-nos refletir sobre aquilo que estamos dispostos a sacrificar em prol do nosso próprio lucro”, desvenda Raquel.

entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte, violar-nos, tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo

Podemos, se quiser, substituir imperialismo, colonização, chacina, tráfico humano, racismo, intolerância religiosa, ganância e corrupção por termos menos desconfortáveis. Podemos chamar a tudo isto “Descobrimentos”. Assim preferiu Filipe II de Portugal. Assim continuam a preferir os manuais escolares de História - sempre contada pelos vencedores sobre os corpos de outros -, perenizando a narrativa de glorificação do imperialismo nacional.

Podemos, numa terminologia mais contemporânea, apelidar tudo isto de globalização e enveredar pela ideia de que demos “novos mundos ao mundo”. Podemos, 500 anos volvidos, ainda não ser capazes de pedir desculpa. Só não conseguimos apagar os factos e os relatos, manchados de sangue, segregados pela historiografia. "Estamos perante o mais longo império colonial. Não podemos estar sempre a sacudir a água do capote e a dizer que somos melhores do que os outros", frisa Gonçalo Amorim, para quem é “urgente e necessário quebrar o silêncio”.

ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Continua a existir “racismo estrutural, uma espécie de superioridade do homem branco e ocidental, perpetuada na forma como faz comércio e como coloniza economicamente outros países", defende o diretor artístico, fazendo uma viagem metafórica até à atualidade. "É importante democratizar a análise que fazemos da relação entre os homens. É fundamental que perante uma intervenção da troika sejamos capazes de dizer que estamos a ser roubados. Não são pessoas que nos vêm ajudar. O poder simbólico mantém esta ideia de que há uns homens poderosos no norte do mundo, brancos e gordos, que possuem uns bancos e não sei o quê, tiveram uns azares lá na gestão da coisa, e então chegam a Portugal e à Grécia para colocar a malta a contribuir".

“Podemos colocar as correntes nos vossos pés”

Esta “NAU!” não tem nada contra a figura de Fernão Magalhães, asseveram os dois responsáveis, em declarações ao Expresso, mas tenta "não ser didática ou professoral”, navegando para uma “componente artística forte e corrosiva, de forma a espicaçar a reflexão".

Intervenções artísticas, concertos e conferências cabem também numa embarcação de interrogações históricas, promovendo “o debate no espaço público, de forma a convocar as pessoas a pensar", explica Raquel S, lembrando um dos relatos mais inquietantes, escrito pelo italiano Antonio Pigafetta, um dos tripulantes da expedição liderada por Fernão Magalhães.

“A forma que os exploradores arranjaram de capturar e sequestrar [os povos indígenas] foi arranjando um esquema. Deram-lhes presentes, convidaram-nos para entrar nos barcos, encheram-lhe as mãos com oferendas e depois ofereceram-lhes uns grilhões. Eles responderam que não tinham como pegar nas correntes, ao que os exploradores sugeriram: 'podemos colocá-las nos vossos pés'. Aquelas pessoas imaginavam a estar a ser alvo de generosidade e caíram num estratagema. Isso, pessoalmente, tocou-me bastante", confessa a artista de 31 anos.

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca

Mais do que direcionar, a instalação pretende desorientar, levantando perguntas, destapando palavras escondidas como fantasmas. "Continuamos a ter a ideia de que aqueles povos estavam ávidos de civilização e de que queriam que nós chegássemos", nota Gonçalo Amorim. "Não podemos dizer que Vasco da Gama não descobriu o caminho marítimo para a Índia. Mas tem de se dizer que descobriu o caminho apenas para quem, na altura, vivia no ocidente. A intenção era descobrir novos mercados, utilizando o palavreado de agora", enaltece.

Tudo isto serve para dizer que as palavras importam. São feitas daquilo que significamos. O presente é a acumulação do passado que somos capazes de lembrar agora. As palavras podem guardar outras palavras silenciadas dentro delas, aquelas que não queremos ouvir. Porque as palavras têm força. Pesam. Gritam. Podem estar manchadas de sangue. É preciso, por vezes, lavar as palavras. Trocá-las por outras. Porque “entre nós e as palavras” estão “os emparedados”, como escreveu Mário Cesariny. “E entre nós e as palavras”, está “o nosso dever falar”.

A instalação pode ser visitada todos os sábados e domingos até 29 de julho, entre as 11h e as 22h.

n.d.r: os versos em itálico foram extraídos do poema “You Are Welcome to Elsinore”, de Mário Cesariny