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Um “Arquétipo” e um “Esboço para Paraísos” na “Sodade” de quem “Somos”

"Somos" é o espetáculo de abertura da 5.ª edição do Vaudeville Rendez-Vous

Sylvain Frappat

O circo contemporâneo chega às cidades de Braga, Guimarães e Vila Nova de Famalicão com 10 espetáculos inseridos na programação do Festival Internacional Vaudeville Rendez-Vous, a realizar-se entre 25 e 28 de julho

Os mais ortodoxos dizem não se tratar de circo. E talvez a razão não os abandone completamente, porque é do cruzamento artístico com o teatro, a dança ou a poesia que nasce o circo contemporâneo, uma linguagem híbrida de novas técnicas, marcada pela exploração de novos padrões estéticos. O corpo é transformado em aparato, uma máquina de possibilidades, como uma obra aberta a novos códigos.

A quinta edição do Festival Internacional Vaudeville Rendez-Vous está de regresso às cidades de Braga, Guimarães e Vila Nova de Famalicão, tendo sido esta última a servir de berço, em 2014, para o nascimento do evento. O certame, concebido pela companhia Teatro da Didascália, deu à luz uma nova forma de potenciar e apresentar as práticas circenses mais disruptivas, com um vincada influência francesa, expoente máximo de novo circo.

A programação deste ano conta com 10 espetáculos - dos quais três são coproduções em estreia absoluta e quatro podem ser vistos pela primeira vez em Portugal -, num total de 21 apresentações. Outras atividades somam-se à dezena de propostas artísticas do Vaudeville Rendez-Vous, como a realização de um showcase, ações de formação em parceria com o Instituto Nacional de Artes do Circo (INAC), uma bolsa de criação e um debate que tem como charneira a nova vaga de criadores nacionais de circo contemporâneo. A iniciativa paralela intitulada “Visite Também” serve para fomentar a ligação do festival aos espaços museológicos e ao património dos três municípios.

Traça-se, assim, um mapa mundi de várias latitudes artísticas, numa autêntica cimeira circense, com companhias que vão desde a Colômbia até ao Camboja. "Tentamos sempre navegar por várias geografias criativas e espelhar aquilo que é a diversidade do circo, com as linguagens ligadas à acrobacia, ao malabarismo e, este ano, com dois espetáculos de funambulismo, algo que nunca tinha acontecido", explica Bruno Martins, diretor do festival, em declarações ao Expresso.

“O circo contemporâneo repentinamente tornou-se viral”

"É fundamental na nossa visão que o festival acrescente e valorize continuamente o repertório nacional. Até porque está numa região onde o circo contemporâneo repentinamente se tornou viral", assegura Bruno Martins.

Mas qual o motivo por detrás deste sucesso? Tem a ver, defende o responsável, com o facto de o evento ter sido “importante para mostrar ao grande público e mesmo aos agentes políticos o que é esta linguagem híbrida que faltava desenvolver em Portugal”. O programador e ator de 30 anos frisa que “o território foi observando isso e foi dando importância a esta prática artística nas várias casas de programação”, dando como exemplos a Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, o Centro Cultural Vila Flor ou Theatro Circo. O cartaz proporciona uma oferta cultural inteiramente gratuita, distribuída por vários espaços públicos e equipamentos culturais das três cidades.

“Somos” é o título do espetáculo de abertura, dos colombianos El Nucleo, no qual a dupla de acrobatas radicados na Europa salta ao encontro do significado da palavra “liberdade”, espelhando de forma muito física e direta questões relacionadas com as comunidades sociais, de pertença étnica ou de alianças religiosas. Trata-se de um encontro com a solidão, em busca do lugar que ocupamos no mundo. Esta é uma estreia nacional, apresentada no dia 25, pelas 22h, no Rossio da Sé de Braga e levada dois dias depois até à Praça D. Maria II, em Famalicão.

Outra das performances debutantes no nosso país é “Boat - Transe Poétique”, a partir do poema “Le Bateau Ivre”, de Arthur Rimbaud, revisitado artisticamente pela companhia francesa Hors Surface, de malas feitas para Famalicão, onde se apresenta no dia 26, pelas 19h. A obra é reposta no dia 28, às 11h, no Largo Condessa de Juncal, em Guimarães.

Sébastien Cormier

O coletivo Cirque Rouages chega ao nosso país no dia 28 com “Sodade”, espetáculo de encerramento mostrado no Jardim do Paço dos Bosques, em Guimarães, pelas 22h. A criação assume-se como uma fábula “em torno de um cabo infinito”, como se lê no texto de apresentação, onde quatro corpos vão evoluir “como ondas de um tempo passado que retorna e continua incessantemente”.

Destaque ainda para as três coproduções, encomendadas para o Vaudeville Rendez-Vous, “Arquétipo - Acto III - Imortal” da companhia portuguesa Radar 360º, “Kadok” e o “Esboço para Paraísos” traçado por jovens artistas de circo do INAC, dispostos a “redefinir, imaginar e trair a ideia de paraíso”.

A edição de 2017 contou com a presença de mais de 13 mil espectadores. A programação completa e outras informações úteis podem ser consultadas AQUI.