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Cultura

Uma sombria sacralização: A “Colónia Penal” de Genet chega a Portugal

Francisco Vistas, Rocky em “Colónia Penal” (foto de ensaio)

António Pires encena, pela primeira 
vez em Portugal, aquele que 
é um dos textos mais intensamente poéticos de Jean Genet

Há alguns anos, o ator Luís Lima Barreto recebeu um pedido para traduzir “Le Bagne” — “Colónia Penal”, de Jean Genet. Assim fez, com a colaboração de Fátima Ferreira. O projeto não teve continuidade e, mais recentemente, Luís Lima Barreto propôs a António Pires que encenasse a peça, para o Teatro do Bairro. O resultado foi o presente espetáculo, cujas apresentações integram, parcialmente, o Festival de Almada (5 a 17 de julho).

A palavra francesa bagne designa, geralmente, um universo de prisão, trabalhos forçados e, com frequência, degredo, além de conotar uma espécie de sentença de morte, pois era o que acontecia, muitas vezes, aos que eram objeto deste castigo. Jean Genet terá trabalhado no texto entre 1949 e 1964. Durante esse período concebeu também, resultado dessa atividade, um guião cinematográfico (entre 1952 e 1955). Pensa-se que “Colónia Penal” seria uma das suas peças de teatro mais ambiciosas — senão mesmo a mais ambiciosa. Ele próprio teria manifestado essa ideia (e desejo) a alguns amigos, e foi talvez, como sugere Michel Corvin no seu prefácio à obra, esta exigência para consigo mesmo, ou alguma hesitação relativamente aos meios certos para levar a cabo um projeto que abria novas perspetivas de criação, que terá levado Genet, mais do que a desistir, a parar, a suspender a escrita de “Le Bagne”. O certo é que, depois da sua morte, foi necessário organizar os abundantes fragmentos, num todo cuja versão hoje mais utilizada, de Michel Corvin e Albert Dichy, (2002) foi a traduzida para português, e base para o espetáculo de António Pires. “Colónia Penal” pode, sem grande erro, ser chamada ‘poema dramático’, no qual estão presentes muitos, senão todos os elementos típicos do universo de Jean Genet — quer dos romances quer das peças de teatro. A prisão é o centro temático e dramatúrgico da obra, lugar não apenas de confinamento e total isolamento relativamente ao mundo exterior; a prisão é um lugar de castigo e de sofrimento, a última ‘estação’ antes da morte, ou seja, a última etapa de um percurso para o qual a morte é, simultaneamente, um fim material e a passagem para o mundo exemplar das ideias, ou antes, de uma existência superior àquela que a pessoa — o criminoso — tinha quando era ‘apenas’ viva.

Trata-se, evidentemente, de um processo de sacralização negativa, se assim se pode dizer. O instrumento para toda esta operação de transmutação é o crime, a ação que cria o assassino e que confere à vítima um estatuto só possível de obter por quem transcende os limites estritos (e estreitos) de uma existência terrena. E, como é evidente, todo este processo não vive sem uma complexa trama de conflitos e contradições.

Na “Colónia Penal” de Genet, e além da administração e dos guardas, existe um núcleo central, ‘essencial’ — e por uma vez a palavra pode ser utilizada — de prisioneiros, criminosos, uma trindade em torno da qual tudo se organiza, como um verdadeiro, e neste caso, genuinamente e intensamente poético, universo. São Rocky, o tuberculoso, Ferrand o carrasco, e Forlano, o jovem assassino, recém-chegado e logo encarcerado, centro do centro; “Desde que ele chegou, não só a colónia, mas o deserto, o globo terrestre, o globo celeste, os céus […] mudaram de destino”, diz Rocky, numa extraordinária e eloquente passagem. Sobre todo este universo pairam, ainda, a Lua e o Sol, guardiões e figurações da figura tutelar da Morte. Interpretam Luís Lima Barreto, Rafael Fonseca, Francisco Vistas e Christian Martins, entre outros. João Botelho realizou os segmentos filmados que integram o espetáculo.