Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Atravessámos o inferno com o céu ao lado

Da última vez que encontrámos Beyoncé, ela tinha raiva e cantava por todas as mulheres que tinham raiva e isso era refrescante. Agora parece que encontrou a paz e canta-a ao lado do marido, Jay-Z, num trabalho conjunto que se chama “tudo é amor”. Estes são os “The Carters” (cuja metade mais forte, e Jay-Z que nos desculpe, continua a ser ela)

“Everything is Love”, The Carters: a capa do disco de Beyoncé e Jay-Z

“Everything is Love”, The Carters: a capa do disco de Beyoncé e Jay-Z

Partindo da estação lisboeta do Cais do Sodré, onde se cruzam metros, comboios e barcos, é preciso andar uns minutos – parando para levantar dinheiro primeiro, por precaução – até se chegar à porta que, nas noites de que lhe vamos falar, está sempre concorrida. Atravessando-a, entra-se num mundo que é em partes iguais suor, alegria, triunfo e raiva. A quem anda distraído, talvez pareçam palavras demasiado fortes para descrever uma festa que tem por única premissa pôr Beyoncé a tocar durante cerca de seis horas, de três em três meses. Mas há muito que Beyoncé deixou de ser só Beyoncé, estrela pop previsível e por isso aborrecida, e passou a ser Beyoncé, símbolo de coisas importantes e catalisadora de noites de suor, alegria, triunfo e raiva.

As festas em que se ouve exclusivamente Beyoncé (chamam-se Beyoncé Fest, encontram-se no Facebook, são periódicas e também as há no Porto, em Braga e em Coimbra) misturam um pouco de toda a discografia dela e não é preciso muitas repetições, porque ela já cá anda há tantos anos (as Destiny’s Child também entram nesta equação) que domina com facilidade uma noite quente no Cais do Sodré. Mas desde o lançamento de “Lemonade” (2016) – o último disco de Beyoncé, o que revelou coisas sobre ela, que já cá anda há tantos anos, que precisávamos mesmo de saber – que a estas festas se juntaram a raiva e o triunfo. Quando passa a particularmente dura “Don’t Hurt Yourself”, em que Beyoncé aponta todas as armas a Jay-Z, o marido que a traiu, há um coro de vozes que se ergue com emoção e ali estão as traições todas juntas e as dores todas juntas, e é isso que é bonito numa festa em que se ouve só Beyoncé.

É por isso, e entramos finalmente na novidade que serve de pretexto a este texto, que interessa perceber como será aceite numa festa destas o disco novo que Beyoncé nos traz, agora com Jay-Z ao lado. Assinam “the Carters” – o apelido dele e dos três filhos em comum, dois deles nascidos já depois da revolução que foi “Lemonade”. E chamam ao trabalho conjunto “Everything is love”. E tudo isto, mesmo antes de se colocar a primeira canção a correr, dá-nos pistas sobre o ponto em que voltamos a encontrar Beyoncé – e o que sentirão agora aqueles fãs que se encontram para proclamar “when you lie to me, you lie to yourself” e rematam com “you’re gonna lose your wife”, cheios de raiva e carregando dentro de si todas as traições do mundo.

Beyoncé já não tem raiva. Quem prestou atenção à história de “Lemonade”, que mais do que um disco é uma crónica e uma exploração, sabe que o desfecho seria este. Na reta final de “Lemonade”, disco em que Beyoncé explora as fases da depressão, cada uma com uma canção (há apatia, negação, por aí fora), também se abre caminho à reconciliação. Em “Sandcastles”, Jay-Z aparece a beijar-lhe os pés. “All Night” é a declaração de que “o amor foi mais forte do que o orgulho”, épica, alegre, definitiva. E depois de “All Night” – e do disco em nome próprio de Jay-Z, “4:44”, em que o rapper confirma as traições – chega este “Everything is love”, como que para encerrar uma trilogia e dar-nos a nós também a sensação de resolução.

“Summer” é logo o primeiro sinal disso mesmo. É suave, é romântica, é doce, não guarda espaço para ressentimentos, corre como uma brisa na praia – daquelas que aliviam o bafo do calor – e é uma espécie de declaração de intenções: “Nunca estivemos tão longe da costa / Talvez nunca mais lá voltemos”. E, sobretudo, depois da voz de água doce de Beyoncé e dos coros que a aconchegam, há umas frases perdidas de Damian Marley que se ouvem no final e dizem assim: “O amor é universal, o amor expressa-se como uma forma de perdão e compaixão pelo outro”. Estamos entendidos.

Avancemos então, porque “Everything is love” será a história deles – voltarão a contá-la, crua e sem retoques – mas passa assim a ser uma história de unidade, de poder, de força e de superação. “Apeshit”, a primeira que conhecemos graças àquele videoclipe em que eles conquistam o Louvre, mostra que este será um disco sobretudo de hip hop. O ritmo é completamente diferente, acelera de uma forma que já não terá retorno, e Beyoncé mostra que também domina o rap se quiser, ofuscando o rapper da relação. É nesta que anuncia: “Não acredito que chegámos aqui / É por isto que estamos gratos”.

Precisamente por isto ser um disco fundamentalmente de hip hop inclui o seu quinhão de gabarolice. Logo em “Apeshit”, Jay-Z anuncia que recusou atuar no Superbowl (“vocês precisam de mim, eu não preciso de vocês”) e a seguir, em “Boss”, Beyoncé declara: “Os meus tetranetos já são ricos / São muitas crianças negras para a vossa lista da Forbes”. E faz lembrar “Lemonade”, porque “Lemonade” era fascinante porque era um disco político de uma estrela pop e era um disco em que a raiva de Beyoncé se transformava na raiva de todas as mulheres, sobretudo das negras. Em “Formation”, ela declarava precisamente que gosta da filha com “cabelo afro” e “narinas à Jackson 5”, proclamando-se como “o próximo Bill Gates negro” (são versos que se cantam com muita vontade nas festas em que só se ouve Beyoncé, naturalmente).

getty

A política, enredada por vezes nessa gabarolice própria do hip hop e noutras só no talento de Beyoncé, que se destaca claramente como voz principal da dupla, é constante e isso é um alívio para quem se apaixonou por “Lemonade”. Em “Nice”, Jay-Z diz não ter medo “da morte” nem “da cadeia” e pergunta: “É outra vez altura de me lembrarem que sou negro?”. Junta-se Beyoncé: “Se eu quisesse saber dos meus números de streaming, teria posto o Lemonade no Spotify”. Assim se cria mais uma daquelas canções que têm de ser ouvidas em passeios com phones nos ouvidos e arrogância no passo, numa bolha própria, tomando a confiança deles como nossa também.

O cúmulo de todos estes elementos é talvez “713”, que se chama assim porque este é o código postal do lugar onde Beyoncé cresceu, em Houston, Texas, e em que eles anunciam que “não há forma de parar este amor”, contam essa história de amor em detalhe e lembram que “a América é uma filha da mãe para nós, prende-nos, dispara sobre nós”. Jay-Z remata com um agradecimento: “Rainha negra, salvaste-nos, salvaste-nos, salvaste-nos”, assim mesmo, três vezes, pode ser que consiga convencer aqueles que se juntam em salas de suor para gritar versos impotentes por Beyoncé.

“Black Effect” tem referências a Martin Luther King e Malcolm X, fala de “amor pela humanidade” e de novo lembra Trayvon Martin, um dos jovens que se tornaram depois de mortos símbolos do “Black Lives Matter”. Já que temos apostado nos paralelismos, lembremos que era a mãe dele que aparecia no videoclipe de “Forward”, uma canção inserida em “Lemonade” mas que só é cantada pela dor de James Blake, sem Beyoncé.

getty

A viagem termina com “Lovehappy” – o novo hino feliz, poderá ser uma “All Night” 2.0 – e a sintonia deles, a energia ali concentrada, o título literal. Ele declara-se “feliz e apaixonado” e explica que “para a ter de volta teve de suar”, que os outros conseguem fazer as pazes com as mulheres oferecendo “uma mala” mas ele precisou de “mudar o tempo” (até porque, convenhamos, é casado com Beyoncé e isso não é dizer pouco). Ela aparece e, como é costume, rouba-lhe o palco: “Fizeste-me algumas coisas / Mas o amor é mais profundo do que a tua dor e acredito que podes mudar / Os altos e baixos valem a pena (…) Por vezes achei que nunca veríamos a luz / Atravessámos o inferno com o céu ao lado”.

Se Jay-Z não mudar, Beyoncé, que não saberá que de três em três meses dezenas de fãs portugueses se juntam dentro de quatro paredes quentes com luzes frenéticas e um ambiente de absoluta solidariedade para a cantar, poderá dirigir-se àquelas festas para recrutar uma verdadeira tropa de combate. Os fãs até podem gritar com “Lemonade” e sentir a revolta que aquele disco traz aos que o compreendem, mas “Everything is love” tem argumentos justos – falamos do disco, não do marido em penitência – e por isso merece a sua oportunidade – de novo, o disco, porque quanto ao marido em penitência só Beyoncé poderá decidir.