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Pedro A.H. Paixão vence Prémio Navigator

“Two Painters in a Transit Camp”, 2017, um dos desenhos a concurso e que este ano já estiveram expostos em Bruxelas

Pedro A.H. Paixão

O português vai ter os seus trabalhos expostos no espaço Chiado 8, numa mostra que junta ainda os outros quatro finalistas

Pedro A.H. Paixão é o vencedor da primeira edição do Prémio Navigator Arte em Papel, da Navigator Company, desenvolvido em parceria com o Expresso. Filipa Oliveira, membro do júri e curadora deste projeto, justificou a escolha destacando “a complexidade, a coerência e a qualidade do trabalho” do artista. Esta atribuição representa para Pedro A.H. Paixão “um reconhecimento por parte da comunidade e não apenas dos pares, familiares ou amigos”, como disse ao Expresso, acrescentando que é “tanto um horizonte ignoto de possibilidades como uma ajuda, mais do que bem-vinda, que permite colmatar dificuldades e a precariedade em que muitos artistas vivem”. O artista vencedor tem “consciência, porém, da contingência e características do prémio” e tenta, neste sentido, “apreciá-lo e celebrá-lo na sua dimensão especial e particular”.

Depois de uma primeira etapa que nomeou 15 artistas e de uma segunda, em que se definiu a shortlist de cinco nomes, o júri, constituído, além de Filipa Oliveira, por Maria da Graça Carmona e Costa (presidente da Fundação Carmona e Costa), pelo alemão Anselm Franke (diretor do departamento de artes visuais e cinema da Haus der Kulturen der Welt, em Berlim), pela francesa Elfi Turpin (diretora artística do Centre Rhénan d’Art Contemporain, em Altkirch) e pelo inglês Jonathan Watkins (curador e diretor da Ikon Gallery, em Birmingham), elegeu este artista plástico, editor e professor que confessou ao Expresso “não estar à espera” sequer da nomeação original, até porque sente que dedica “pouco tempo aos modos e lugares que permitiriam estar mais sujeito a nomeações como esta”. E isso, defende, “não é uma lamentação nem um juízo, mas talvez esta nomeação seja prova do contrário”.

Uma das características e objetivos deste prémio, no valor total de 50 mil euros (30 mil dos quais atribuídos ao vencedor e os restantes distribuídos entre os quatro outros finalistas), é o de distinguir alguém em meio de carreira. “É precisamente um reconhecimento importante, numa idade em que as responsabilidades são muitas, sobretudo de quem tem famílias, e cujas opções parecem definitivas e já sem apoios institucionais”, diz Pedro A.H. Paixão. “Para quem se dedica exclusivamente à produção artística, a prova é dura e o preço é o de viver, quotidianamente, entre a vida e a morte”, sublinha. Sobre “o nível” dos restantes artistas que foram seus pares na lista de nomeados reconhece que “é alto”, o que o deixou “muito feliz”, sobretudo por se “encontrar entre eles”. Muitos desconhecia, alguns conhecia e outros são seus amigos, cujo trabalho estima “profundamente”.

Pedro A. H. Paixão vive em Milão desde 2000 mas desloca-se a Portugal “com frequência, sobretudo a Lisboa”, onde cresceu e continuou a desenvolver as suas “mais importantes relações de trabalho” e onde está sediado o espaço que o representa, a Galeria 111. Sobre projetos em curso, “à parte uma grande exposição de carácter antológico a inaugurar a 29 de junho no CIAJG, em Guimarães, que compreende 22 anos de trabalho, com uma série de trabalhos inéditos e trabalhos novos”, está neste momento “a desenvolver um projeto de longa respiração sobre o legado das relações entre a Europa e a África Central, cujos primeiros resultados foram apresentados em março deste ano na galeria belga que representa o seu trabalho, a Irene Laub Gallery, em Bruxelas.

Nasceu em Angola, país que deixou “aos quatro anos, com o advento da guerra civil”, conta, lembrando que parte da sua “família participou ativamente no projeto colonial”. Sentiu, por isso, “recentemente, na preparação da exposição na Bélgica, e pela relação intrínseca deste país com a região, ter chegado a hora de contribuir” com o seu trabalho, “apresentando uma leitura talvez própria, diferente das em uso, isto por sentir ser uma daquelas pessoas que foram impedidas, depois da independência, de ter uma voz, por razões óbvias e em grande medida justamente”, explica. Pedro A. H. Paixão acrescenta que “é tudo, todavia, muito delicado, porque envolve muito sofrimento, violência e injustiças profundas, acumuladas no decorrer dos séculos”.

Vive em Milão mas nasceu em Angola. Diz que chegou a hora de contribuir com uma visão própria e diferente do seu país

Vive em Milão mas nasceu em Angola. Diz que chegou a hora de contribuir com uma visão própria e diferente do seu país

Além de visar distinguir artistas em meio de carreira e de ter uma dimensão internacional —entre a lista de nomeados havia artistas provindos de geografias tão diferentes como a portuguesa, japonesa, colombiana ou belga — o Prémio Navigator Arte em Papel tem como característica fulcral a presença física do papel “enquanto objeto manipulável”, como explicou ao Expresso Filipa Oliveira. Pedro A.H. Paixão revela que vive “rodeado de livros, talvez demasiados” e que “há décadas” os “frequenta quotidianamente”, seja no estudo ou nas edições que faz. “O papel do qual os livros são feitos influi significativamente” sobre sua “vida e emotividade”. Há, como reconhece, livros que não consegue “frequentar, pelas escolhas editoriais feitas”, outros que diz amar e que tornam os seus dias de trabalho “possíveis”.

Esta primeira edição do Prémio Navigator Arte em Papel terá agora uma expressão visível numa mostra que vai ter lugar no espaço Chiado 8, em Lisboa, na qual serão expostas algumas obras dos finalistas. Na exposição, que abrirá as portas a 10 de julho, e ficará ali patente até 14 de setembro, “vamos ver um grupo de trabalhos muito fortes e inspiradores dos cinco finalistas inclusive uma belíssima seleção de trabalhos de Pedro A.H. Paixão”, avança Filipa Oliveira. “Devido ao tempo” que o seu “trabalho exige a ser produzido e pela proximidade entre a data da exposição e a data” em que teve “conhecimento da nomeação, não é possível” a Pedro A.H. Paixão “produzir o trabalho que gostaria de vir a apresentar”. Confessando-se “sem alternativa”, conta ao Expresso que optou “por apresentar alguns trabalhos novos” que mostrou “recentemente em Bruxelas, ainda não vistos em Portugal. Trabalhos em diálogo com outros anteriores, mas significativos, de maneira a oferecer alguns dos mundos” que explora e a que vai “dando voz”.

Textos originalmente publicados no Expresso de 9 de junho de 2018