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FITEI abre o álbum de família para folhear memórias de exílio e resistência

D.R.

O Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica – FITEI chegou aos 40 anos e mantém-se de pé com uma singular capacidade de resistência. Agora abre o álbum de família com o “Livro dos exílios reais e imaginários”, publicado esta terça-feira

Corria o ano de 1977, no Porto. Júlio Cardoso tinha um sonho: criar unificação dentro da diversidade e partir, através do teatro, à descoberta de continentes novos. Juntamente com António Reis e Estrela Novais, reunia-se em casa de João Arnaldo Maia para debater a necessidade de criar um festival de teatro de expressão ibérica, capaz de se interligar com a América Latina e criar pontes artísticas para lá daquilo que se fazia na Península Ibérica. A obra começava a nascer e estava lançada a semente para o FITEI, germinado com muita resistência ao longo de 40 anos.

O tempo passa a voar. Deixa rasto. Tiram-se fotografias. Ficam memórias, e assim se tenta fixar no “Livro dos exílios reais e imaginários” alguns dos momentos mais marcantes. Olha-se o passado para sonhar o futuro. Abre-se um álbum de família, onde se colhem recordações. Como quem colhe uma cereja e puxa, inevitavelmente, outras também.

Quatro décadas, outros tantos diretores: Júlio Cardoso, António Reis, Mário Moutinho e, à conversa com o Expresso, senta-se o atual responsável artístico Gonçalo Amorim, acompanhado por Jorge Louraço Figueira, o homem do leme nesta viagem literária pelos 40 anos de vida do festival mais antigo da Península Ibérica, sedeado na Cooperativa do Povo Portuense. A obra surge da necessidade, sustenta o atual programador, de “fixar e manter vivo um legado que é muito importante”; uma herança marcada por “gerações e gerações de artistas ibero-americanos que passaram pelo festival, todos eles marcantes na sua época”, complementa.

Ao longo das quatro dezenas de edições, o certame assumiu-se como um porto de abrigo para autores e companhias teatrais exiladas, reprimidas nos seus países pelo crivo apertado de regimes conservadores e ditatoriais. O FITEI amplificava, dessa forma, as palavras impossíveis de dizer. Esbateram-se fronteiras para sublinhar a diversidade do teatro ibero-americano, fazendo atracar no Porto companhias de Espanha, Brasil, Cuba, Chile ou Moçambique, o que na opinião do crítico Louraço Figueira permitiu “lançar amarras para novos cais”, de onde chegavam “navios-espetáculo” com um caráter simbolista e surrealista.

Levar o teatro para o palco da rua foi sempre uma das principais bandeiras do FITEI

Levar o teatro para o palco da rua foi sempre uma das principais bandeiras do FITEI

D.R.

Um farol de esperança mesmo quando a coisa estava preta

Novembro de 1978: Portugal ainda afinava as engrenagens de uma sociedade dividida no processo quente do pós-revolução, depois de ter saído das amarras de uma ditadura que durou 48 anos. Estava em marcha a edição inaugural do FITEI, um festival organizado inicialmente pelas companhias Seiva Trupe e Teatro Experimental do Porto, com Júlio Cardoso como timoneiro artístico, função que ocupou até 1987. O mundo é um palco, a rua também, e a cidade abria-se a novas mundividências esteticamente disruptivas.

Um dos primeiros espetáculos a ser levado à cena foi “Zé do Telhado”, interpretado por Maria do Céu Guerra e Mário Viegas, dirigido pelo brasileiro Augusto Boal, artista ligado a movimentos políticos de esquerda. Perseguido no Brasil por uma milícia denominada Comandos de Caça aos Comunistas, Boal foi obrigado a abandonar o seu país em 1971, exilando-se primeiro na Argentina e depois em Portugal, onde ajuda a erguer a companhia “A Barraca”, em Lisboa. Augusto Boal reclamava por notícias do Brasil e, em 1976, o amigo Chico Buarque envia-lhe uma mensagem, em forma de canção, a informá-lo de que a coisa estava “preta”.

Também na primeira edição do FITEI apresentou-se a companhia exilada chilena Teatro de Lautaro, radicada na República Democrática da Alemanha após o golpe militar de 1973 liderado por Augusto Pinochet. O grupo veio ao Porto para trazer a palco “El Ocaso del Centauro”, contando a história da resistência aos conquistadores espanhóis, analogia para falar da luta contra o regime chileno. “O teatro português deve muito da sua modernização aos autores latino-americanos que se exilaram na Europa”, frisa Jorge Louraço Figueira. De Cuba, em 1980, Berta Martinez trazia “Bodas de Sangre”, espetáculo que, dizem, terá merecido uma ovação de mais de quinze minutos por parte do público portuense.

Um festival comunitário e despido de preconceitos estéticos

A poética do corpo foi sempre uma das matrizes, através de peças capazes de desnudar qualquer ideia mais conservadora, com trabalhos de uma grande liberdade sexual e física. Em 1989, a atriz e encenadora brasileira Denise Stoklos liberta no festival a peça “Um orgasmo adulto escapa de um zoo”, com uma presença em palco repleta de magnetismo que deixou marcas indeléveis, até hoje, no público. Em 2015, foi a vez de o encenador Tiago Rodrigues trazer até ao Porto um espetáculo provocante com “Três dedos abaixo do joelho”, no qual transformou os agentes da censura em dramaturgos para levar à cena textos emendados e mutilados pelo lápis azul.

Com uma presença sempre muito marcada no festival estiveram as companhias de países africanos de língua oficial portuguesa, com destaque para os grupos de Moçambique, nomeadamente o Mutumbela Gogo, no qual colaboraram Mia Couto e o escritor sueco Henning Mankell.

O “Livro dos exílios reais e imaginários” é, assim, uma forma de evocar recordações e chegar ao público mais velho do FITEI, mas também de despertar a curiosidade da “malta mais nova” para dar a conhecer um pouco da grandeza do festival, explica Jorge Louraço Figueira. É uma homenagem a uma comunidade criada ao longo dos anos em torno do teatro. Como a “Comunidade” de Luiz Pacheco, também ela com passagem pelo festival em 1989, com encenação de José Carretas.

A publicação da obra, com uma tiragem de 500 exemplares, foi financiada pela Câmara Municipal do Porto, com a autarquia a disponibilizar uma verba de 10 mil euros. O lançamento oficial decorre esta terça-feira, pelas 16h, no Café Rivoli, marcando o arranque da 41.ª edição do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica.