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Wim Wenders: “Voltei a procurar um amor que quer ir até ao fim do mundo”

A partir de “Submersos”, o seu penúltimo filme em exibição nas salas, o cineasta alemão fala-nos de ecologia e de fé, da guerra do iraque e do jiadismo, de Martin Luther King e de viagens à lua, assim como dos motivos que ainda o levam a acreditar no cinema independente

Pascal Le Segretain/Getty Images

Ao longo da sua longa carreira, há uma coisa que Wim Wenders nunca perdeu: o gosto pela experimentação. “Tenho horror a repetir-me”, contou-nos em setembro do ano passado, enquanto decorria o Festival de Toronto. Veja-se o seu trabalho mais recente: realizou um drama americano rodado a 3D com James Franco (“Tudo Vai Ficar Bem”), adaptou uma peça de Peter Handke com atores europeus e falada em três línguas (“Os Belos Dias de Aranjuez”) e já este ano, em Cannes, apresentou “Papa Francisco: Um Homem de Palavra”, documentário sobre (e com) o sumo pontífice da Igreja Católica, encomendado pelo Vaticano. “Submersos”, filme anterior, adapta uma novela de J. M. Ledgard sobre dois amantes que perderam o rasto um do outro. Ele, James, é um espião escocês capturado por jiadistas na Somália. Ela, Danielle, uma biomatemática em missão científica a procurar no fundo dos oceanos estranhas formas de vida. A uni-los, há um breve passado romântico. E se a história é inverosímil, não deixa de ser pretexto para Wenders olhar para o mundo de hoje.

Acredita no amor incondicional das personagens deste filme?
Não acredito, vivi-o! Continuo a vivê-lo. Acho que já tinha deixado de fazer filmes se isso não me tivesse acontecido. Há no livro uma ideia que é muito perturbadora para mim: a da ligação de duas pessoas que descobrem num espaço muito curto que encontraram o amor das suas vidas. A Alicia interpreta uma mulher da ciência, o James um agente secreto. A história deles tem tudo para não dar certo. Dei-me conta de que nunca seriam credíveis se não mergulhassem de cabeça, porque, no fundo, a pergunta do filme é esta: somos capazes de acreditar nestas personagens? O filme é uma equação difícil. Lida com três tempos, o presente dele, o dela, e o passado que têm em comum. A nível estrutural, é o filme mais complexo que realizei.

Foi importante para si ter duas vedetas no elenco?
Foram as minhas duas primeiras escolhas. Voei para Londres, encontrei-me com Alicia, levei-lhe o argumento, falei-lhe da história. Ela conhecia o meu trabalho e aceitou instantaneamente, no mesmo dia em que o James também aceitou. É verdade que são duas vedetas, mas eu acho que estavam ambos a precisar de uma pausa nas suas carreiras e nos megafilmes em que têm entrado ultimamente.

O que é que o atraiu no livro?
Não foi só a história de amor. Porque essa história toca em assuntos urgentes: o estado do planeta e este conflito tremendo entre o Ocidente e o radicalismo islâmico. Achei corajoso o modo como o livro cruza estes dois mundos. O tempo dele é de medo e de morte, que ele enfrenta todos os dias no seu cativeiro. O tempo dela é o da vida da investigação no barco e o do silêncio das descidas ao abismo do fundo do mar, sem saber o que está a acontecer ao homem que ela ama. Dei por mim a pensar que agora se voltou a falar da conquista do espaço, de uma nova expedição à Lua e até a Marte, quando o fundo do mar do nosso próprio planeta continua a ser um mistério.

A preocupação ecológica com a vida dos oceanos e a violência crescente do radicalismo islâmico têm à partida alguma relação?
No livro de Ledgard têm! E eu sou um bocado insaciável por aquilo que me choca, tenho horror a repetir-me e apaixonei-me por aquelas personagens. Prefiro atirar-me a algo que nunca fiz nem sei como vai acontecer do que a uma história que, se calhar, até já filmei no passado de outra maneira. E havia tanto a explorar aqui: as cenas subaquáticas, a rodagem em África e em lugares onde ninguém nunca filmou... Voltei a procurar um amor que quer ir até ao fim do mundo.

O argumento seguiu o livro à letra?
Não, no livro é muito claro que o espião escocês morre. E morre porque precisa de morrer. A sobrevivência para ele tornar-se-ia uma hipocrisia. Mas não é uma morte desesperada e dramática: ele descobriu algo que lhe permite encarar a morte.

Não é ambígua a relação de James com os seus captores?
É ambígua porque eu não sei como é que se filma a violência. Neste caso, filmo isso pelos olhos de James, que está preso. Seguimos o ponto de vista dele, ou o que ele imaginou naquele momento.

O que é que o filme procura dizer-nos sobre o jiadismo?
A questão é complexa. Não podemos mostrar o lado mais negro e negativo do mundo com as mesmas imagens desse mundo. Toda a gente tem hoje uma opinião ofuscada sobre o radicalismo islâmico. Os refugiados são vistos com suspeita pelo receio de haver jiadistas entre eles e isso está a afetar a capacidade de perceção do problema no Ocidente. Quando, na verdade, o problema começou pelo Ocidente.

Acha que se fala suficientemente disso?
Não sei, mas devia falar-se, porque a mentalidade do terrorismo é comum à nossa civilização. O nazismo no século XX... A Inquisição e o cristianismo, há quatro ou cinco séculos... Queimavam pessoas vivas. Não tinham respeito pela vida. E hoje? Se os milhares de milhões de dólares que foram gastos na Guerra do Iraque tivessem servido para investir nas estruturas daqueles países do Médio Oriente, teríamos muito menos terrorismo. O Ocidente combateu o terrorismo com as suas armas e só o tornou mais forte. Não podemos lutar contra as trevas com mais trevas, nem expulsar o ódio com o ódio, para citar Martin Luther King.

Porque é que as paisagens são tão importantes nos seus filmes, e neste em particular? Filmou nas ilhas Faroé, em África...
A questão é que as paisagens nunca são só pano de fundo nos meus filmes. A regra é: o sítio em que estás é largamente responsável pelo que és. Para mim, as paisagens são sempre personagens. Acontece que eu não conhecia as deste filme. Tive de viajar intensamente em África até descobrir aquele local tão hostil em que, que eu saiba, nenhum outro filme foi rodado, em Djibouti.

Importa-se que os seus filmes deixem de ser vistos num ecrã de cinema?
Eu faço-os para eles serem vistos num ecrã de cinema. Sei que a maioria das pessoas acabará por vê-los em casa, nos computadores e nos tablets. Não as censuro, também aderi à moda.

Tem trabalhado bastante com o 3D nos últimos tempos. “Submersos” podia ter usado essa técnica?
Pensei nisso, quis isso. Mas toda a gente me aconselhou a dar um passo atrás. O 3D tem agora uma reputação de tal modo baixa que é praticamente impossível reunir financiamento para o usar: tornou-se um exclusivo de animações e de blockbusters com super-heróis. Tenho pena de termos chegado a este ponto pois tenho procurado no 3D uma forma de expressão dramática. É também por isso que insisto: os realizadores hoje em dia, e cada vez mais, têm de procurar ser donos dos seus meios de produção.

E em relação ao seu filme com o Papa Francisco?
Foi uma ideia do ministro da comunicação do Vaticano, que é um homem muito cinéfilo. Perguntei-lhes porque é que me tinham escolhido. Responderam-me “porque não?”. E não me colocaram obstáculos quando lhes disse que exigia o final cut.