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A singular mulher plural

“Lulu”, por Nuno M. Cardoso, é o manifesto insurgente de uma mulher livre na sua sexualidade contra um sistema patriarcal capitalista

Entre a ascensão 
e o declínio, “Lulu” é uma odisseia por Berlim, Paris 
e Londres, como uma ode 
à potência de uma mulher que viveu à frente dos seus dias, superando o tempo, desafiando barreiras

Entre a ascensão 
e o declínio, “Lulu” é uma odisseia por Berlim, Paris 
e Londres, como uma ode 
à potência de uma mulher que viveu à frente dos seus dias, superando o tempo, desafiando barreiras

A liberdade não é uma conquista, é uma batalha incessante, como uma fome insaciável, nunca servil ou subordinada. A independência é funambulista, na tensão constante de quem desafia o atraso social do tempo através de um pensamento que supera os horizontes visíveis. Assume-se como a defrontação da vertigem, a exposição à queda, pois só quem sabe cair pode aprender a saltar os muros erguidos pela moralidade castradora e pelos dogmas instituídos. Só aqueles que se afundam podem emergir. Ou sucumbir no poço da ousadia.

Assim é “Lulu”, o mais recente espetáculo de Nuno M. Cardoso, integrado no FITEI-Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica. Tem nome feminino, uma força sem género e é singularmente plural — motivo pelo qual a protagonista é interpretada, em diferentes momentos, por duas atrizes (Vera Kolodzig e Catarina Gomes) e a bailarina Sara Garcia.

Por vezes é chamada de Nelli, Eva ou Mignon. Em certas ocasiões, pode ser uma esposa domesticada, enquanto noutras pode comportar-se de forma infiel e devassa. Ora sujeito ora objeto de prazer. Sempre femme fatale e nua de preconceitos. Pode ser vista na faustosa alta burguesia berlinense ou nas lúgubres ruas londrinas a vender o corpo, destapando sem pudor “aquilo que cada um de nós é nas suas múltiplas facetas”, explica o encenador, culminando uma trilogia em que mergulhou na dramaturgia germânica, depois de “Gretchen” (2003), de Goethe, e “Emilia Galotti” (2009), de Lessing.

Mais do que figura de palco, Lulu pertence ao subpalco, onde uma existência resplandecente se afunila num buraco negro de opressão, imaginado por Frank Wedekind em “Espírito da Terra” e “A Caixa de Pandora”, passível de ser qualquer mulher em confrontação com um sistema patriarcal e capitalista, sustentado por relações amordaçantes, exercidas verticalmente pelo homem. “Lulu” é o símbolo de uma potência feminina indomável, transbordante através da exaltação do corpo.

Cai o pano e assiste-se de forma poeticamente crua ao encontro do realismo trágico com a fantasia. Trata-se de um “conto de fadas para adultos”, físico e brutal, no qual uma mulher sexualmente livre, despojada do selo da virtude aos 12 anos, desafia as matrizes sociais.

A peça, tecida a partir da tradução de Aires Graça, transporta o público na odisseia da protagonista por Berlim, Paris, desembocando em Londres, no bairro de Whitechapel, onde no final do século XIX mais de um milhar de mulheres se prostituíam. “Fala-se do comércio carnal, do sexo, do prazer e da companhia em troca de uns tostões para a sobrevivência”, desvela Nuno M. Cardoso, despindo o ser humano de todos os laços de fraternidade, em que “as pessoas não se conhecem” e “não sabem como são por dentro”.

Impossível de esbater é a ligação do encenador com o diretor artístico do Teatro Nacional São João, Nuno Carinhas, responsável pela cenografia e figurinos nesta próxima produção da instituição. Com mais de um século, “Lulu” não perde a contemporaneidade. “A realidade mantém o texto, terrivelmente e lamentavelmente, atual. Continuamos a ter abusos de poder e faltas de respeito [em relação às mulheres]”, conclui Nuno M. Cardoso.

Lulu

A partir de Frank Wedekind

Teatro Carlos Alberto, Porto, 
de 13 a 30