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“O nome Astolfi tem hoje muita força”

tiago miranda

É uma arquiteta e designer com alma de artista, uma portuguesa com sangue brasileiro e apelido italiano. Aos 44 anos, a sua assinatura está por todo o lado, das montras da Hermès e dos restaurantes do grupo Avillez à loja da Claus Porto e da Padaria Portuguesa no Príncipe Real. Agora, quer conquistar o mundo

Nelson Marques

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Houve um tempo em que Joana Astolfi queria transformar o lixo em luxo. Era assim em 2009, quando abriu o primeiro ateliê em Lisboa, depois de acabar o curso de arquitetura no Reino Unido e de se tornar a primeira portuguesa a frequentar a Fabrica (o centro de pesquisa criativa da Benetton, em Treviso), e os clientes lhe entravam na pequena sala de 17 metros quadrados no Bairro Alto para que desse vida nova a objetos velhos. Mas quanto mais a palavra recycling (ela abusa das expressões em inglês porque foi educada em escolas internacionais e viveu 12 anos fora do país) se tornava gasta, mais ela sentia necessidade de se reinventar. Hoje, a sua assinatura ajuda a vender malas e outras peças da Hermès, mobiliário nórdico, vestidos da dupla Storytailors, sabonetes históricos ou os pratos do mais recente restaurante Cantinho do Avillez, no Parque das Nações. Em cada trabalho, seja um espaço ou um objeto, constrói a sua história em cima de histórias que interpreta. É também assim com o seu percurso: não é possível explicá-lo sem olhar para a história dos seus pais para perceber de onde ela veio. Foi por aí que começámos esta conversa de mais de duas horas, na sua casa, no Príncipe Real, em Lisboa.

É filha de um arquiteto e de uma galerista de arte. Como é que esta herança moldou o seu percurso?
Os meus pais estão juntos há 40 e tal anos, são uma grande dupla mas são muito diferentes. A minha mãe é mais intelectual, o meu pai é mais emotivo. Ela é o meu pilar, muito coruja. Ele sempre foi a minha inspiração. O meu pai é brasileiro, carioca, a minha mãe é portuguesa. Eu passava as tardes entre o ateliê do meu pai e a galeria da minha mãe, foram dois mundos que estiveram sempre muito presentes na minha vida. Cresci em Cascais numa casa sempre cheia de gente, fazíamos churrascos, ouvíamos bossa nova, apareciam por lá arquitetos, artistas da galeria da minha mãe — o Justino Alves, o Bual, o Cargaleiro, a Maluda — e também muitos estrangeiros. Cresci rodeada de adultos. Desenhar e pintar eram a minha forma de estar sozinha, porque não tinha irmãos. Davam-me um bloco e uns lápis de cor e ficava entretida horas a fio. Mesmo em casa dos amigos dos meus pais, tinha uma gaveta onde punha as minhas coisas.

O seu pai perdeu a ligação ao Brasil?
Não, mas saiu com 28 anos para ir trabalhar para Acra, a capital do Gana. Construiu escolas, habitação social, igrejas, ganhou tanto dinheiro em seis anos que depois foi viajar pelo mundo com uma mala de verão e outra de inverno. Essas malas que ele carregou estão cheias de histórias. Passámos tardes inteiras a ver os milhares de slides dessas viagens. Depois, veio para Lisboa para fazer um hotel, o Alfa [hoje Hotel Corinthia]. Foi nessa altura que se apaixonou por Cascais e pela minha mãe.

De onde vem o apelido Astolfi?
Da minha avó Nena, mãe do meu pai, italiana. Foi com os pais para o Brasil quando tinha três anos, durante a guerra. Eu era muito ligada a ela. A família Astolfi é especial, tem um castelo em Bolonha. Adoro Itália e identifico-me muito. Sinto-me mais italiana do que brasileira ou portuguesa.

Mas só lá viveu dois anos.
Fui a Itália várias vezes com os meus pais e desde logo senti essa ligação às texturas, aos cheiros, à comida, à língua, ao clima, às praias, a tudo. Aquela cultura ficou-me no sangue. Senti this is where I belong. Este verão vou pegar na Duna, a minha filha [de três anos] e vamos as duas para Ostuni, uma cidadezinha em Puglia. Itália é o meu refúgio. Roma era a cidade onde gostaria de viver se não vivesse em Lisboa. Mas Lisboa é onde ainda quero viver. É uma cidade fantástica. Tem um ritmo com o qual me identifico, não é muito acelerado.

Disse que o seu pai foi uma grande inspiração. Em que sentido?
Tem que ver com a geração dele, a do Rio dos anos 50. Era amigo do Tom Jobim, do Marcelinho, do Chico [Buarque]... Esse pessoal nunca punha o pé na areia, ficava sempre na esplanada. Conviviam no mesmo boteco, onde o Jobim escreveu ‘Garota de Ipanema’. O meu pai lembra-se do momento em que a viram passar e da tarde em que o Tom começou a compor a canção. Se há uma geração que eu gostaria de ter conhecido, é essa. Foi um dos hubs criativos e culturais mais ricos de sempre.

Continuaram a ir ao Rio?
Íamos todos os anos, no verão ou no Natal, até os meus avós morrerem. O meu pai continuava a fazer grandes tertúlias de música com os amigos. Foi diretor de várias escolas de samba, sempre tocou batucada, tinha o seu bombo, os seus djambés, o seu uisquinho. Uma vez partiu o pulso e o médico perguntou-lhe: “Wilson, em que posição é que queres pôr o gesso?” E ele respondeu: “Tem aí um copo?” Encaixou-o na mão e disse: “É assim mesmo.”

Que projetos é que ele fazia?
O ateliê dele, o GTA — Gabinete Técnico de Arquitetura, fazia arquitetura de grande escala, habitação social, hotelaria, não tem nada a ver com o que eu faço. Mas ele influenciou-me muito. Quando tive de escolher o curso, estava muito dividida e ele teve uma conversa comigo. Disse: “Se a tua paixão é igual, faz arquitetura, o curso vai abrir-te muitas portas. A arte há de estar sempre lá, nasceste com ela.” Viajámos para Inglaterra, fomos visitar várias universidades e acabámos por escolher a de Gales, que equilibrava muito bem a parte artística e a parte técnica. Ele não queria que eu fosse logo para Londres, porque era um bocado malandra, tinha esse lado carioca, e ele achava que ia pôr-me no meio da selva. Há muita gente que nem sabe que sou arquiteta.

Hoje quase não faz arquitetura.
Não é verdade, metade do meu tempo é a fazer arquitetura de interiores. No meu estúdio, há um departamento de arquitetura de interiores e outro de artes. Tenho sete arquitetos a trabalhar comigo, fazemos design e remodelação de interiores. Na parte das artes, é onde fazemos as vitrinas e as instalações.

tiago miranda

Vivemos num tempo de produções artísticas híbridas?
Hoje em dia já não há a história do ‘sou arquiteto’, ‘sou marceneiro’, ‘sou artista’, ‘sou designer de produto’. Tudo se cruza. Comecei a sentir essa fusão muito cedo. Fiz arquitetura, mas a minha inspiração sempre foi a arte. O curso na Universidade de Gales abriu-me as portas para tudo: para o design, para desenhar em diferentes escalas, para as artes plásticas, para a fotografia... Tudo isso se reflete no que faço. Tento sempre reinventar-me em cada projeto, mas há uma linguagem que faz parte da minha assinatura e que eu inventei.

Quando?
Sabia que queria criar uma linguagem própria e já estava nesse processo quando saí da universidade. Mas a minha linha de trabalho só se definiu quando regressei da Fabrica, que é um think tank criativo incrível. Foi aí que percebi que do que eu gostava mesmo era de gerar ideias, de criar. Sei que esse é o meu maior talento, não tenho dúvida. Foi a partir daí que a minha vida com o estúdio Joana Astolfi começou. Nessa altura ninguém percebia bem o que é que eu andava a fazer. Quando me perguntavam, respondia: “Sou arquiteta de formação, mas a arte e o design também estão em tudo o que faço.” As pessoas precisam de compartimentar, mas eu sabia que era possível haver um cruzamento entre estas três vertentes que se podiam juntar na construção de uma narrativa própria.

De onde vem essa construção?
Na verdade que encontro num espaço ou num objeto. Cada um tem a sua. Numa ruína, por exemplo, revela-se na materialidade, na patine do tempo que ficou gravada no material. O mesmo acontece com um objeto, como um álbum de fotografias de pessoas que nunca conheci e que me prende a atenção. Gosto de olhar à lupa e vejo tudo: a textura do papel, o envelhecimento, as marcas, o cheiro... Sempre colecionei objetos. Frequentava muito a Feira da Ladra, conhecia os vendedores todos. Quando regressei a Portugal depois de 12 anos fora — em que vivi em 17 casas e, no total, partilhei-as com 58 pessoas — montei o meu primeiro estúdio numa casinha de 17 metros quadrados com tetos em madeira na rua das Salgadeiras, no Bairro Alto. Passava o dia a desenhar rodeada por aquelas peças, muito vintage, bastante bonitas. A porta estava sempre entreaberta e as pessoas paravam, curiosas. De repente, começaram a comprar o que eu fazia e pediam-me para transformar coisas que me traziam. Coisas mortas a que eu dava uma segunda vida. Nessa altura, o recycling ainda era novidade.

Esse trabalho com os objetos de memória esgotou-se?
Está saturadíssimo. Já não posso ouvir a palavra reciclagem. Uma coisa muito importante é perceber o momento e saber o que não se deve fazer quando se torna uma tendência, quando se transforma em moda.

Pensa no passo seguinte?
Claro. Já estou num caminho muito diferente. Há coisas em que já não toco.

Que coisas?
Precisamente essas coisas que ia buscar muito cruas, quase saídas do lixo. Fui sofisticando muito a maneira como trabalho os objetos.

Como é agora?
Com mais encenação e mais layers de informação. A palavra recycling já não entra aqui.

Qual é então a palavra?
Plasticidade. Continua a haver memória, mas há um grande rigor na execução. A narrativa e a vontade de fazer sonhar continuam, esse é sempre o leitmotiv para cada trabalho. Gosto de trabalhar para um cliente e sentir que estou a prestar um serviço. Nunca trabalho a partir do nada.

O seu trabalho está presente em restaurantes do José Avillez e da Padaria Portuguesa, até em unidades turísticas, como a herdade São Lourenço do Barrocal, em Monsaraz. Ter a assinatura Astolfi também se tornou moda?
É verdade, o nome Astolfi tem hoje muita força.

Quando é que isso começou?
Precisamente com um puzzle de objetos vintage que fiz no Cantinho do Avillez. Ele nem me conhecia, mas gostou muito. Desde então, tenho trabalhado com ele.

Como é o processo de trabalho quando intervém num desses espaços?
Geralmente fazem-me o briefing do que querem. No Avillez, havia uma ideia de um espaço um pouco anos 70, cozinha portuguesa, e eu tinha um nicho numa parede para trabalhar. Fui à procura de 500 objetos de cozinha antigos. Mas cada projeto requer uma procura particular. Por exemplo, quando me convidaram para fazer a nova loja da Claus Porto, em Lisboa, uma marca centenária, andei pelas fábricas em Vila do Conde, mergulhei nos arquivos, nas histórias, vi todos os sabonetes e o design de cada época, folheei livros que estão guardados em cofres... É um processo exaustivo, muito meticuloso, para chegar depois a uma ideia que transporte essa história e essa memória, mas que eu transformei noutra coisa.

Essa peça para o Cantinho do Avilez foi uma montra?
Sim. Nunca pensei ter tanta projeção.

Refúgio. A arquiteta e artista em casa no Príncipe Real, em Lisboa, onde vive com o companheiro e a filha Duna, de três anos

Refúgio. A arquiteta e artista em casa no Príncipe Real, em Lisboa, onde vive com o companheiro e a filha Duna, de três anos

tiago miranda

Como é que apareceu o convite para fazer as vitrinas da loja da Hermès no Chiado?
De todos os meus projetos foi o único em que fui eu a ter a iniciativa. Nem sabia quem é que as fazia, só depois soube que eram do Filipe Faísca. Lembro-me de passar e ficar parada a vê-las, faziam-me sonhar. Nessa altura, já tinha feito algumas instalações artísticas, mas nunca vitrinas. Pensei: “Isto era mesmo o que eu gostava.” Um dia, decidi entrar. Não tinha nada a perder, já tinha algum nome no mercado. Por um acaso, o Faísca tinha acabado de sair e estavam à procura de uma pessoa. Acabei por mandar o meu portefólio para Paris e marcaram-me uma reunião. Isto foi em 2014. Em maio, fiz a primeira montra a partir da ideia da metamorfose. É a marca que escolhe o tema para as lojas do mundo inteiro. Esta colaboração foi o ponto de viragem para o estúdio. Éramos três pessoas, hoje somos 17.

Quanto tempo demoram a criar uma montra?
Três meses. E quando se acaba um trabalho já se está a pensar no próximo. Depois, desfazer e voltar a fazer outra demora 24 horas, sempre ao domingo. A loja de Lisboa é particularmente complexa, porque são dez montras, dez capítulos de uma história. Neste momento, fomos escolhidos para produzir as montras Hermès no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. A casa tem 32 lojas em aeroportos e esta é a loja-mãe. São quatro montras muito grandes.

O que faz é uma mise en scène da marca a partir dos objetos?
Sim, claramente. A ideia é criar uma história visual. As minhas criações, a nível de craftship e de feitora, têm muita força visual. Depois existe o espaço da cenografia, onde celebro um produto integrando-o num conteúdo narrativo. Com a Hermès, estou sempre à procura desse equilíbrio, não posso deixar que a minha vontade criativa fale mais alto. Às vezes torna-se demasiado conceptual e perde-se a ligação ao produto em si. A diretora de montras a nível mundial, com quem estou sempre em diálogo, e que é uma senhora de 70 anos, maravilhosa, está sempre a puxar-me à terra: “Joana, we have to dream, but not so high.”

Mas já não trabalha muito a linha dos objets trouvé, pois não?
É raríssimo. De vez em quando ainda me chamam porque querem esta linguagem.

Esta parceria com a casa francesa é o passo para a sua internacionalização?
Acho que essa viragem já começou. Acabámos de fazer um projeto grande para a marca de design de mobiliário De La Espada. Chegaram ao meu estúdio através do Tyler Brûlé, da “Monocle”, que já tinha escrito sobre o meu trabalho. Iam apresentar uma nova linha de mobiliário na feira internacional de Estocolmo e queriam um conceito diferente que funcionasse de uma forma disruptiva, não queriam apresentá-la num stand normal. Então, comecei a pensar numa coisa muito experimental: “E se fizéssemos uma performance, como se fosse um teatro?” Ao princípio acharam muito maluco, mas gostaram da ideia e acabámos por fazer essa apresentação num apartamento em Estocolmo, com dois atores que recriavam a vida de um casal, sentados nas cadeiras e nas mesas, contando a história daquelas peças, personalizando-as. Trabalhámos um mês para montar a ideia e levámos as pessoas numa viagem totalmente sensorial. Foi um sucesso tremendo. De tal maneira que, em setembro, vamos repetir em Londres.

Esse lado experiencial de que fala tornou-se uma tendência. Mas a obsessão por provocar sensações novas não é também uma tirania?
Esse é um dos meus maiores desafios, porque estamos a falar de uma coisa um bocado delicada. Para mim não faz sentido criar nada se não for com esse intuito de fazer sonhar. Mas também é verdade que se perde uma coisa simplesmente genuína e como ela é. Gosto muito de me sentar no sofá da casa da minha avô e ver aquele bibelô com aquela rendinha que sempre esteve ali em cima da televisão. Sou feliz assim, não preciso de alterar nada... Tem de haver um equilíbrio, preciso de me sentar no sofá da minha avó, de ir à base, para encontrar a essência do meu trabalho. E a essência do meu trabalho, a minha missão, é oferecer um olhar diferente sobre uma coisa para a qual as pessoas já olharam muitas vezes e criar outra a partir dali, criar uma história, um sonho, uma experiência, ou o que lhe quiser chamar.

A experiência não se esgota?
Se for feita com a verdade dos objetos, não. Por isso é que tem de se manter uma grande parte da simplicidade e saber parar. Saber meter no bolso as coisas que estão a mais e celebrar só uma ideia. Isso é importantíssimo, é um dos pontos recorrentes de debate com a minha equipa. Sei que a saturação pode ser o meu maior inimigo.

Durante 12 anos esteve fora de Portugal, no Reino Unido, na Alemanha, em Itália. Podia ter-se instalado fora. Era mais fácil lançar o nome aqui?
Talvez, mas também jamais pensei ter um estúdio com 17 pessoas.

Tinha 18 anos quando foi estudar arquitetura para Gales. Como era a sua vida lá?
Era tranquila. Cardiff é uma cidade muito dinâmica e bastante segura, podia andar na rua à hora que quisesse. Nos fins de semana ia para Londres, tinha lá amigos. Depois, no final do terceiro ano de curso, fui para Munique fazer um ano de estágio obrigatório. Adorei essa experiência. Provavelmente, foi o ano mais louco da minha vida. Tinha 20 anos, queria experimentar tudo. Fui exposta a drogas, vivi a fundo, mas soube sempre fazê-lo de forma equilibrada. Foi libertador a todos os níveis. Depois voltei para Cardiff, ainda me faltavam dois anos para acabar o curso. No último, pedi transferência para a Escola de Arquitetura de Bartlett, em Londres. Acabei com distinção, fui a única mulher.

Nessa altura não lhe faltaram convites. Porque é que decidiu recusá-los e ir para o Porto?
Porque o meu pai ficou muito doente, esteve quase a morrer. Parei a minha vida durante um ano só para poder estar perto dele. Tive praticamente que ensiná-lo a falar outra vez. Depois de ele ter feito um transplante hepático já não conseguia andar e tinha dificuldade em raciocinar. Não se lembrava de nada, havia alturas em que não me reconhecia. Então, todos os dias, para o estimular, ia ter com ele com um globo na mão, levava cassetes da Maria Bethânia e de todas as músicas que eu sabia que faziam parte da vida dele, líamos poemas do Vinicius de Moraes. As enfermeiras diziam-me que a minha energia era muito importante para ele.

Só ficou um ano no Porto.
O Porto era maravilhoso, mas já estava tudo visto. Trabalhei com Tiago Dinis, em frente ao ateliê de Siza Vieira. O Tiago era um arquiteto jovem, genial, completamente louco, quase não tinha clientes. Fartei-me de desenhar e de sonhar, mas quando chegava a hora de pagar os salários íamos vender os anéis da avó dele. Ao fim de um ano, disse chega. Entretanto, o meu pai já estava estabilizado e decidi ir para Londres. Comecei à procura de casa, entrei numa agência chamada Finding Places e atendeu-me um homem muito bonito e charmoso. Começámos a falar, disse-lhe que era arquiteta e estava à procura de trabalho. Perguntou-me se tinha portefólio e combinámos tomar o pequeno-almoço no dia seguinte para lho mostrar. Contou-me que comprava espaços para remodelar e precisava de uma arquiteta. Disse-lhe que podia tentar, mas nunca tinha feito um projeto sozinha, nunca tinha coordenado uma obra. Foi assim que comecei. Foi muito intenso, chorei muitas vezes na casa de banho, mas nesses dois anos ganhei muito dinheiro. Vivia num condomínio de luxo na Holland Park Avenue e divertia-me muito. Saíamos, brincávamos, íamos para o Ministry of Sound e para o Club UK, fazíamos after hours, ficávamos dois dias sem dormir, dançávamos em barcos no Tamisa até às 5h da manhã... Fui punk, tinha o cabelo pintado de cor de laranja, fiz tudo aquilo a que tinha direito.

Chegou a ter cinco namorados.
Por aí.

Quase um por dia.
Não, que horror! Quando ia de férias ao Rio tinha lá o meu amigo, cá também tinha um amigo, em Londres também, mas todos sabiam que não queria compromissos. Desfrutei muito dessa liberdade. Depois, cansei-me de Londres e daquele ritmo. Um dia disse ao meu chefe que precisava fazer uma pausa, respirar, ia dois meses a casa e depois voltaria. Cheguei a Cascais, propuseram-me fazer uma casa e já não voltei. As minhas coisas ainda estão em Londres. Na verdade, estão em muitos sítios. Custa-me sempre dizer adeus.