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Mariza: “Carrego a tradição de um povo”

Entre a tradição e a modernidade, Mariza volta aos discos e aos concertos em nome próprio. Na bagagem traz a liberdade de cantar como quer e o que quer

Alexandra Carita

Alexandra Carita

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

C
alma, segura, muito senhora de si e com um sorriso aberto para responder a cada questão, recebeu-nos ao início de uma tarde quente de maio, que dedicou inteira à promoção do seu novo álbum, “Mariza”, e dos concertos que vai dar nos Coliseus de Lisboa e Porto.

Este álbum é um renascer, um abrir de um novo ciclo?
Já não sei se os discos são um renascer ou o abrir de um novo ciclo. Acho que já não é por aí. Os discos marcam momentos cruciais da vida. Quando olho para trás, desde o meu primeiro álbum até agora, todos marcaram momentos muito importantes. E como gosto de cantar as minhas verdades, apesar de não escrever na realidade...

Aqui escreve um tema.
É verdade, pela primeira vez. Mas gosto muito de fazer das palavras dos outros os veículos das minhas emoções, acabo sempre por cantar o que sinto que é a verdade daquilo que vivo no momento, o que sinto, o que me faz feliz, o que me faz triste, as emoções por que estou a passar. É isso que canto em cada disco, e eles marcam momentos na minha vida, canto aquela verdade. Mas depois, quando passa o tempo, há fados que me faz imenso sentido voltar a cantar hoje, porque têm uma fórmula de cantar as palavras que se adaptam a vários sentimentos, a várias fases... e há outros que perderam completamente o sentido. Se os cantar hoje, canto-os por uma brincadeira, não com aquele sentimento profundo, com aquela verdade que é minha e com aquela seriedade que deveria ter.

Este momento é mais triste do que feliz ou mais feliz do que triste?
São fases da vida. O “Fado em Mim” aparece quando eu tinha 20 anos, é uma fase.

Uma fase importante.
Sim. A fase da descoberta, de tentar perceber quem sou, de construção, de tudo isso. Depois, o “Fado Curvo” começa nos meus 30 anos, o “Transparente” nos 34, o concerto em Lisboa vai colmatar aquilo tudo, aparece depois o “Terra”, que é um disco onde já se percebe uma maior maturidade e uma personalidade mais vincada — não é que nos outros discos não existisse, mas ali começa-se a sentir mais, também estou a aproximar-me dos 40 anos. Depois faço o “Fado Tradicional”, porque também sou embaixadora da candidatura do fado a Património da Humanidade com o Carlos do Carmo, e é uma fase em que decido homenagear todas aquelas vozes que me ensinaram a cantar, mesmo sem saberem, porque o fado é uma tradição oral e continua a ser assim, e ainda bem. A seguir há um interregno, grande, uma paragem, e surge o “Mundo”, e percebe-se que há uma doçura, há uma outra fórmula de cantar, uma outra aproximação, existe uma maior vontade de estar mais perto, de chegar mais perto, de sentir mais as pessoas e as emoções. No fundo, quando estou no palco, há uma troca gigante de emoções, que muitas vezes num disco é difícil de acontecer. E de repente chega este disco, que é uma fase completamente diferente, já estou nos 45, já vou a meio do caminho. Os discos marcam fases da idade da vida que num ser humano representam sempre mudanças.

Acabou de fazer um balanço da sua carreira. O que é que ela significa para si? Ainda se sente aquela embaixadora do fado?
Acho que me sentirei sempre embaixadora do fado, porque tenho o privilégio de poder viajar pelo mundo, de cantar em português. Por exemplo, cheguei ontem de uma cidade na Alemanha que se chama Baden-Baden, onde cantei o fado num teatro, onde o único concerto que tinha havido sem ser de música clássica tinha sido de Bob Dylan. Achei engraçado. É um público tão clássico que está ali a ouvir cantar em português, a ouvir fado, a ouvir-me, a tentar perceber. Vou sempre sentir-me embaixadora, porque no fundo carrego a tradição de um povo, de um país.

Trilhou esse caminho de alguma forma...
Foi difícil, mas sim, consegui chegar lá. E hoje é com enorme alegria que ouço as pessoas dizerem “vou ao concerto da”, não dizem vou a um concerto de fado. Isso enche-me de orgulho, porque consegui fazer um público, já tenho pessoas que, quando vão aos concertos, vão em nome daquela cantora e não da música portuguesa. Isso é muito, muito gratificante.

Neste disco é a primeira vez que escreve. Como foi escrever ‘Oração’?
‘Oração’ são palavras muito pessoais. Sempre escrevi, mas nunca tive coragem de mostrar. Como gosto muito de ler poesia e conheço um bocadinho, apesar de não ser uma afincada conhecedora, sempre achei que não tinha o dom da escrita. Então, escrevia para mim, prosa, poesia... Até que neste disco, sem querer, saiu este tema. Quando estou a trabalhar num álbum e escolho os poemas, gosto de escrever, por mais que venham já impressos, gosto de os escrever. É uma forma de chegar a um entendimento mais rápido daquilo que estou a ler. Ao mesmo tempo vou aprendendo aquelas palavras para as poder cantar. Quando enviei os poemas para o Tiago Machado [compositor], eles iam escritos, com anotações — isto podia ser refrão, isto podia ser não sei o quê —, e no meio ia a ‘Oração’. Ele nunca mais me ligava, então liguei eu. E ele vai para o piano e começa a cantar as minhas palavras. Fiquei gelada. Isso não era para musicar, não era esse. Só que depois houve mais gente que ouviu, que gostou e foi ficando. É uma prova de fogo cantar essas palavras em palco.

É autobiográfico?
Muito. A gente só escreve o que nos move, o que tem a ver connosco. E cantá-lo em palco é doloroso, há dias em que penso que aquele não seria o dia para cantar isto.

antónio pedro ferreira

Também decidiu neste disco convidar imensa gente, pessoas do fado, pessoas de fora do fado. Quis combinar gente de várias origens? Como foi esse processo?
É engraçado quando já se tem algum chão e já se pode convidar pessoas pelas quais temos admiração, cuja voz nos acompanhou ou acompanha. Por exemplo, no ‘Trigueirinha’, um fado que ouvia desde a taberna dos meus pais, ouve-se aí nas tabernas todas, um fado conhecidíssimo, queria cantá-lo, mas queria ao mesmo tempo que ele ficasse mais leve, que é aquilo que sinto quando estou nas casas de fado e as pessoas vão cantá-lo, traz sempre um ambiente mais alegre. Queria que as pessoas sentissem isso. Mas, ao mesmo tempo, tive a ideia de convidar vozes que admiro e das quais sou fã para me ajudarem a cantar o tema, mas revertendo todos os royalties para a Casa do Artista. A Casa do Artista é neste momento a instituição que mais faz pelos artistas e não são só pelos artistas: falo dos maquilhadores, do senhor que sobe a escada e põe a iluminação, do que é capaz de chegar lá e varrer o chão do teatro, do cabeleireiro, da costureira, de todas as pessoas que estão envolvidas no meio artístico e que muitas vezes são esquecidas e não têm onde estar, não têm ajuda, não têm nada. A Casa do Artista acolhe, é pequena, precisa de mais ajudas e de ficar maior, porque cada vez mais há artistas a precisar, infelizmente. Então chamei o Ricardo Ribeiro, o Tim, a Mafalda Veiga, a Marisa Liz, a Carolina Deslandes e o meu querido Jorge Palma e fizemos uma festarola, que acho que ficou muito boa de se ouvir.

Há mais duas pessoas, o Jaques Morelenbaum e a Maria da Fé. São os afetos que a movem a convidar estas pessoas?
São. O Jaques porque foi um dos primeiros produtores com quem trabalhei e que me motivou e me ensinou a estar em estúdio. Não sabia estar em estúdio. Para mim, o estúdio era agonizante, odiava. E com ele aprendi a gostar e a perceber a importância de poder estar num laboratório e experimentar, poder apreciar a música no sentido de desnudá-la. Ela vem tão nua e nós ainda podemos desnudá-la mais. É como ter um manequim e começar a fazer o vestido, primeiro põe-se o saiote, depois afina-se o saiote, depois o espartilho, depois as luvas, e vai-se construindo à nossa maneira e com as cores que queremos, que são as sonoridades, com os músicos que queremos... É uma experiência superinteressante e que aprendi com o Morelenbaum, além do carinho que tenho por ele como músico fabuloso. A Maria da Fé porque, quando voltei a cantar fado, foi quem me recebeu na sua casa de fados, fui reaprendendo e ouvindo o que ela tinha para me ensinar. E é muito bom hoje chegar ao Sr. Vinho e estar a olhar para a Maria e perceber que ela não quer cantar mas que a posso desafiar. E acontece. Esse carinho que existe e esse passar de mão na cabeça que sabe tão bem.

Já falou de sonoridades. O disco tem várias, tem tradição e tem modernidade. Como foi fazer este cruzamento entre clássicos e modernos, digamos assim?
Tenho aí um fado, que é o ‘Refúgio’, com letra do Helder Moutinho, que ouvi cantado pela Celeste Rodrigues, a quem pedi para o gravar e gravei. Temos um fado fado, um tradicional, mas depois temos uma música como o ‘Quem Me Dera’, o single do álbum, que não tem nada a ver. É uma canção interessante por ser escrita por um artista lusófono, Matias Damásio, angolano, África de expressão portuguesa. É importante sobretudo perceber que África também está no meu mundo e que esta canção, apesar de parecer uma coisa mais pop, tem uma letra tão intensa que nos pode reverter completamente para o mundo do fado. As pessoas sentem amor de várias maneiras. Aquela canção tem um sentido para mim, mas acredito que as pessoas que a ouvem a sentem como um fado. Há várias formas de sentir, ninguém sente igual.

antónio pedro ferreira

É uma descoberta fazer um disco?
É como disse, como se tivesse um manequim e fosse pondo as luvas, depois se mudasse a cor das luvas, o tamanho... Aquilo vai mudando até me sentir confortável. Obviamente que, se tivesse de cantar outro disco dos meus, qualquer um, cantaria de outra maneira e se calhar teria outros instrumentos que não aqueles. Mas neste momento os instrumentos que me souberam bem utilizar são os que estão lá. E não é com intenção de ser mais africano, mais lusófono, mais brasileiro ou mais português. É aquilo que sinto quando estou na construção da música e quando a estou a cantar.

Ainda é um disco de fado. Isso é importante para si?
O que é importante para mim é que a música seja boa. Obviamente que vou sempre ter o rótulo de cantora de fado. E obviamente que a guitarra portuguesa não pode deixar de lá estar. É um dos meus instrumentos de eleição, adoro, é o instrumento com o qual mais me identifico. Quando estou a cantar, seja uma canção, seja um fado tradicional, e a guitarra portuguesa está lá, estou sempre à espera de que ela ande ao meu lado, porque é isso que a guitarra faz. Anda ao lado e responde. E há um diálogo entre mim e ela. Preciso desse diálogo. Mas se me disserem que isso assim já não é fado, respondo que é aquilo que as pessoas quiserem, desde que a música seja boa. É isso que tento fazer. Música boa, de qualidade, com bons músicos, com bons produtores, com bons arranjos, em bons estúdios. E tentando, o máximo possível, trazer a minha verdade ao de cima num disco.

Sente-se hoje uma mulher mais livre para cantar?
Então não sinto! Se fosse entre o “Fado em Mim” e o “Fado Curvo” dizia que não. Ainda estava a tentar perceber tudo o que me rodeava e tinha aquelas pressões da editora — “tem de gravar”. Hoje não.

Nem se preocupa com o que o público espera de si?
Também não. Tenho uma conduta muito própria. Há pessoas que dizem que sou fria, há outras que dizem que sou distante, há pessoas que me conhecem que dizem que sou uma querida. Sou uma pessoa normal, como todas as outras. Há dias em que acordo bem-disposta, outros em que acordo maldisposta. Às vezes a vida está maravilhosa, outras vezes não. A única coisa que faz com que seja diferente é a minha profissão, que faz com que apareça mais na casa das pessoas do que a maioria dos outros. Não tento ser diferente, sou eu mesma. E vou explicar porquê. Para que o meu filho amanhã sinta orgulho da mãe dele.