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A mulher que saltou dos calabouços da PIDE para as redes sociais tem um novo livro

Tem 79 anos e sabe que as redes sociais podem a ajudam a conquistar os mais novos para a História da luta contra a ditadura. Helena Pato e seu amigo computador...

Tiago Miranda

Helena escreveu um livro. Helena foi professora de Matemática. Helena foi cerzideira. Helena combateu a ditadura. Helena escovou tapetes. Helena foi presa pela PIDE. Histórias de combate de muitas Helenas num novo livro de contos memoriais da luta pela liberdade, com prefácio de Maria Teresa Horta e posfácio do ex-Presidente Jorge Sampaio

“Agosto há-de trazer-me sempre péssimas recordações. Salvo as datas dos nascimentos das minhas mulheres queridas, que me surgem nesse mês como flores de deus no deserto, as desgraças e os dias de má sorte familiares, que me aconteceram em Agosto, teimam em não desaparecer das imagens registadas em cartões de memória que armazeno à revelia de mim própria”. Assim começa um dos contos memoriais de “A Noite mais Longa de Todas as Noites”, o novo livro de memórias da luta contra a ditadura, da autoria de Helena Pato, agora publicado pelas Edições Colibri.

“Obra de uma precisão exemplar e simultaneamente de uma beleza límpida no seu veio narrativo, enquanto tessitura de recordações assumidamente pessoais embora arreigadamente políticas”, é como o define a escritora Maria Teresa Horta no prefácio.

Capa do novo livro de Helena Pato. São contos memoriais da luta contra a ditadura com prefácio de Maria Teresa Horta e posfácio do ex-Presidente da República Jorge Sampaio

Capa do novo livro de Helena Pato. São contos memoriais da luta contra a ditadura com prefácio de Maria Teresa Horta e posfácio do ex-Presidente da República Jorge Sampaio

D.R.

Para Jorge Sampaio, “as estórias de Helena Pato valem, primeiro, pela valência pessoal de sabor autobiográfico, de grande despojamento, sobriedade e elegância, e depois por serem o retrato de uma época de resistência contra a ditadura”.

Estes contos memoriais – como lhe preferimos chamar – evocam com ternura e humor facetas duras da resistência ao Estado Novo e da luta pela democracia em Portugal.

Helena, dos calabouços da PIDE para as redes sociais, é a reportagem multimedia com a história do empenho de Helena na criação e gestão da página no Facebook “Antifascistas da Resistência”.

Esta página tem milhares de seguidores, centenas de biografias de mulheres e homens que desempenharam qualquer papel na luta contra o Estado Novo, e dá a conhecer cidadãos anónimos que podem ter dado guarida a alguém que precisava de um abrigo seguro, ou guardado livros dessas.

Neste livro que acaba de chegar às bancas, Helena Pato, consegue fazer humor com momentos de luta que tiveram os seus perigos. Terminamos com mais um cheirinho de “As férias, a PIDE e a GNR”, o conto memorial que escolhemos para iniciar este texto:

“Uma meia hora antes da hora combinada para a chegada do Zé, fui ao portão examinar novamente a rua e descubro uma chusma de GNR. Mesmo em frente, havia vários agentes num jeep e, mais adiante, na curva da descida para Portimão, mais quatro, de pé. Imaginei que a PIDE teria pedido a sua colaboração e que o meu regresso a casa lhes confirmara a nossa presença na vila. Era preciso avisar o Zé: eles que não viessem! Mas como, sem eu ter carro nem conhecidos em Monchique, que dessem uma ajuda descendo a Ferragudo? (o jeito que teria dado um telemóvel!)”

A fugir da PIDE ... com fama de ladra de fruta

“Vi a solução que me permitia avisar o Zé de que a casa estava cercada. Sairia pelas traseiras, correria por aí abaixo, saltando de quinta em quinta, fora dos olhares da GNR, até parar na subida da estrada nacional, longe do centro da vila. Esperaria o carro em que o Zé vinha (...)

Por entre hortas, pomares e plantações, corri disparada, a saltar cercas e muros, e sem olhar aos arranhões nas silvas, nem a quem andava por ali. Subitamente, no silêncio do lindíssimo vale – sem que eu percebesse de onde surgira um camponês – há uma mão que me agarra com toda a força, pelo braço, ao mesmo tempo que uma voz me interpela, aos berros, ameaçadora:
— Ladra de um cabrão, queres a minha fruta ou o meu tomate, ó…?
Perdida de riso, consegui escapulir-me (...)”.

Em “A Noite mais Longa de Todas as Noites”, há mais contos memoriais com muito humor. Apesar de o livro evocar a luta contra o regime do Estado Novo, e descrever momentos desse “tempo de clandestinidade, tão intensamente (...)” – como escreveu Luís Farinha, diretor do Museu do Aljube, num outro posfácio – que nos faz uma visita guiada e viva sobre esses tempos de noites longas.

  • Helena, dos calabouços da PIDE para as redes sociais

    Helena Pato foi presa em junho de 1967. Tinha 28 anos e já era viúva. Alfredo morrera um mês depois de ser detido pela PIDE. O seu 25 de Abril chegou dois dias depois, quando o segundo marido saiu da prisão de Caxias. Foi professora do secundário e sabe que os mais novos querem conhecer a História. Foi esta uma das razões que a levaram a criar a página “Antifascistas da Resistência” no Facebook, que já tem 400 biografias e milhares de seguidores Neste fim de semana em que celebramos a família e nos preparamos para o ano que há de vir, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente