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Jonathan Coe: “Os londrinos queriam ficar na UE e o resto do país não”

Ulf Andersen/GETTY IMAGES

O EXPRESSO entrevistou aquele que é um dos principais romancistas britânicos da atualidade no festival literário de Matosinhos, este ano dedicado às cidades. Coe recorda aquela noite em que a filha o acordou para lhe dar uma má notícia cheia de consequências, cujas razões ele continua a tentar perceber

Luís M. Faria

Jornalista

Nascido em 1961, portanto demasiado tarde para ter vivido a glória e as privações da II Guerra Mundial e do pós-guerra, mas não a lembrança delas, Jonathan Coe tem uma preocupação persistente com a identidade nacional britânica. Porém, enquanto romancista (“Exposição”, "Que Grande Banquete!", "O Rotters Club", "A Vida Privada de Maxwell Sim"), vê-se a si mesmo inserido numa tradição europeia com mais de quatro séculos. Há dois anos, na fatídica noite do referendo sobre o Brexit, ele achava que o Remain ia ganhar à justa contra o Leave - ou seja, que uma curta maioria dos votantes britânicos acabariam por manter o país dentro da União Europeia. Quando se foi deitar às duas da manhã era isso que os comentadores previam. Às sete da manhã uma das suas filhas, visivelmente perturbada, acordou-o para lhe dar a má notícia. Como o voto rural foi largamente pró-Brexit, começámos por aí a nossa conversa com Coe. Foi há dias no LeV (Literatura em Viagem), o festival anual de literatura em Matosinhos, que este ano teve por temas cinco cidades - Nova Iorque, Rio, Paris, Jerusalém e a própria Matosinhos.

A oposição entre campo e cidade foi decisiva para o desfecho do referendo?
Acho que sim. Continua-se à procura das razões por que as pessoas votaram no Brexit, mas realmente o que deu a vitória ao campo do Leave foi uma coligação informal de diferentes grupos de interesse. Havia os obcecados com a soberania nacional, os que viram uma oportunidade para manter os emigrantes fora do país... Ainda se discute qual foi o fator determinante. Em termos gerais, as pessoas mais velhas tenderam a votar pelo Brexit, tal como as pessoas que não frequentaram a universidade. Idem os ingleses, ao contrário dos irlandeses e dos escoceses. Os londrinos queriam ficar na UE e o resto do país não. E há uma divisão entre cidade e campo. A União Europeia é uma ideia – uma ideia poderosa de cooperação entre povos. Talvez haja mais recetividade a essa ideia quando se vive em contacto estreito com outras pessoas, em especial pessoas de países e backgrounds diferentes. Dá-nos um sentido de que precisamos de cooperar. Esse sentido não será tão poderoso fora das grandes cidades, nas províncias.

Um elemento de ressentimento, também?
Eu diria que sim. Os media, seja a imprensa ou os audiovisuais, através dos quais as pessoas recebem a maior parte da sua informação, são vistos como metropolitanos, como tendo uma visão do mundo centrada em Londres. Há um ressentimento entre o campo e as cidades e um ressentimento entre as províncias e Londres, sem dúvida.

Pelo mundo fora, o voto nos autocratas, gente como Erdogan, Orban e Putin, parece ser sempre mais forte no campo. É por falta de informação ou por algum motivo mais profundo?
Pode ter a ver com falta de informação, ou com simples distância física em relação ao centro do poder. Um sentido de estar à parte do lugar onde se tomam as decisões. De que as pessoas que vivem nas cidades não entendem as suas preocupações e o seu modo de vida. E talvez seja verdade.

Não sendo originalmente de Londres, como vê isso?
Vivi os 20 primeiros anos da minha vida nos subúrbios. Quando estava a crescer, tinha uma mentalidade bastante suburbana. Sentia um desejo de me mudar para Londres, para ter a experiência da vida numa grande cidade, o que acabei por fazer. Com 20 anos nos subúrbios e mais de 30 na cidade, não sinto uma grande lealdade em relação a nenhum desses lugares. Compreendo um pouco ambas as mentalidades, mas não me alinho com nenhuma.

O que tem de especial viver nas cidades?
Conforme disse antes, obriga-nos a viver em proximidade com outras pessoas e a habituarmo-nos ao tipo de compromissos que isso implica. Por exemplo, não temos tanto espaço. É um paradoxo. Em Londres podemos viver muito próximo dos vizinhos e não lhes falar. Não significa que não simpatizemos e não tenhamos coisas em comum com eles. Hoje em dia Londres é um sítio muito cosmopolita. Outro dia tivemos um encontro no nosso prédio e estavam pessoas de Beirute, de Itália, de Paris, da Irlanda. É um melting pot.

Em Inglaterra, como provavelmente noutros países, o sentimento anti-emigrante é mais forte onde há menos emigrantes. Acho que viver ao lado de pessoas nos habitua a elas. Tão simples como isso.

Quanto à mítica resistência cultural do campo, ao desejo de manter a Inglaterra como sempre foi...
Acho que existe. As pessoas do campo e das províncias ficam muito zangadas quando sugerimos isso. Negam que sejam motivadas por nostalgia ou alguma visão pré-lapso de uma Inglaterra monocultural. Dizem que não é verdade. Mas há uma grande corrente de nostalgia em muitos desses lugares. Em boa parte é nostalgia da II Guerra Mundial. O que as pessoas veem como o espírito de guerra que esse episódio trouxe à luz. Nunca deixa de me espantar até que ponto a Inglaterra ainda pensa nesse período. Com uma espécie de enlevo, o que é um bocado estranho quando se considera a realidade.

É por terem ganho a guerra, ou também por a imprensa popular repetir constantemente essa história?
Ambas as coisas. Tornou-se parte da nossa mitologia nacional. Claro que para as pessoas mais novas não tem o mesmo significado. Quanto mais não seja pela demografia, a Inglaterra vai mudar.

Imediatamente antes do referendo, fui a um mercado de agricultores a uns cem quilómetros de Cardiff, em Gales. Várias pessoas diziam coisas do género: não os vencemos na guerra para os termos agora a mandar em nós a partir de Bruxelas.
Sim, esse é um sentimento bastante forte. Embora eu ache que não encontramos muita gente em Londres a dizer isso. Apesar de Londres ter sofrido o Blitz.

Outra coisa de que um agricultor se queixava é que no hospital onde ele ia, um hospital público, agora também havia sinais em polaco. Isso indignava-o. E também se queixava de ter de esperar duas semanas por uma consulta, o que em Portugal seria o paraíso.
(risos) Como sabemos, o NHS (serviço nacional de saúde) tem muitos funcionários de países da UE. As candidaturas de outros países da UE desceram 95 ou 96 por cento o ano passado. Portanto a crise no NHS, que já existe, vai ficar muito pior. Vai haver grandes faltas de pessoal qualificado.

Acha que se deu o caso de os partidários um dos lados, mesmo não sendo a maioria, se importarem mais com o assunto do que as pessoas do outro lado?
Por ser difícil ter paixão pelo status quo?

Por exemplo.
Sim, acho que aconteceu. Todos os argumentos a favor de ficar na UE eram económicos, e as pessoas costumam desconfiar das previsões económicas, pois muitas vezes estão erradas. Os sinais económicos para o Reino Unido após o voto do Brexit não são particularmente bons, mas agora ainda acreditam fortemente no Brexit que nunca se tratou de benefícios a curto prazo. Eles serão vistos em 20, 30 ou 40 anos. É difícil...

Quem sabe o que acontecerá em dez anos, quanto mais 20.
Exatamente.

Falando em literatura, ela ainda parece ser largamente nacional, não? Acha que existe uma literatura europeia que não o seja apenas, literalmente, por ser obra de europeus? Há algum escritor que considere essencialmente europeu, por oposição a checo ou francês ou o que quer que seja?
Sempre achei que o romance europeu existe, que começa com o Dom Quixote. O romance inglês é parte dessa tradição. Podemos traçar uma linha direta, passando por Henry Fielding, até ao mainstream da literatura britânica. Os romancistas britânicos são europeus, e eu próprio certamente me vejo assim. Aliás, os meus livros neste momento são mais populares em França e na Itália do que no Reino Unido.

Mas isso também acontece com alguns escritores americanos.
É verdade, é verdade. Mas ainda me atenho a uma ideia de literatura europeia. Há escritores escoceses, por exemplo, que pensam o mesmo, vendo-se como parte dessa corrente.

Uma corrente europeia, distinta da americana, com elementos comuns?
Sim. Para mim, é uma certa veia de ironia no modo de ver o mundo. E autorreflexão. Talvez até autocrítica. Atravessa o romance europeu, com frequência sob a forma de paródia. Ou de experimentação formal, se olharmos para Calvino, Umberto Eco, pessoas assim. É a tradição em que me sinto confortável.