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O Mosteiro renascido

Maqueta do novo edifício concebido por Álvaro Siza

D.R.

Há longos anos afastado do olhar do comum dos mortais, o Mosteiro de Leça do Balio regressa à vida com uma exposição destinada a explorar a sua ligação ao caminho de Santiago e com a proposta de um novo edifício da autoria de Álvaro Siza

Já foi apenas uma ruína, esteve longuíssimos anos votado ao abandono, chegou a ser dado como perdido, mais eis que, não das cinzas, mas das memórias do tempo, renasce o Mosteiro de Leça do Balio. Para este primeiro contacto e abertura pública apresenta a exposição “Monasterium Km 234”, constituída por vários núcleos, mas muito virada para uma abordagem das ancestrais ligações ao caminho de Santiago.

O projeto de toda a intervenção neste núcleo foi apresentado esta quarta-feira numa ação carregada de notícias, como a de que ao lado do Mosteiro vai nascer um edifício, para já chamado “Marco”, desenhado por Álvaro Siza. Pretende ser um espaço ecuménico, destinado à reflexão, ou apenas à fruição do tempo e do espaço ali construído com rara sensibilidade, tanto quanto é possível perceber pela maqueta já exposta na Sala do Capítulo associada ao Mosteiro.

Beleza e harmonia com a paisagem natural e com o edificado é também o que procura o arquiteto paisagista Sidónio Pardal, responsável pelo projeto dos novos jardins do Mosteiro, num espaço total de intervenção de 3,4 hectares.

O historiador Joel Cleto, curador da exposição e de todo o projeto da Quinta do Mosteiro, sublinha a importância da obra proposta por Siza, acompanhada de uma escultura ao caminheiro. Num edifício em que, à semelhança das catedrais góticas, há um muito particular trabalhar da luz natural, vai impor-se ao olhar exterior uma estrutura toda ela construída em betão branco. O chão interior será em saibro amarelo.

Pedro Pinto, presidente da Lionesa, proprietária do Mosteiro, admite que até 2020 tudo possa estar concluído. Não quer comprometer-se com valores previsíveis das obras, desde logo porque, refere, “o projeto não está fechado. Podem ser 10 milhões de euros, mas também podem ser mais. A exposição dura até final do ano para permitir uma interação com a comunidade e, de fora para dentro, pode vir, por exemplo, a ideia do nome a dar ao edifício de Siza”.

“Marco” é o modo como para já é nomeado. E será, de facto, um marco importante na revitalização de uma estrutura que passará a ter como público preferencial os alunos das escolas, até pelas imensas lições vivas de história que é possível ali dar a partir das próprias histórias contidas, não apenas na exposição como nas paredes do Mosteiro.

O Mosteiro de Leça do Balio, onde se inscreve a Igreja de Santa Maria de Leça do Balio, terá sido construído onde existiu um templo romano dedicado a Júpiter.

Os primeiros documentos relativos ao Mosteiro, cujas reproduções podem ser vistas na exposição, remontam a 1003 e falam não da vida quotidiana, do modo como se relacionavam as pessoas, mas de impostos.

No século XII, D. Afonso Henriques doou o couto de Leça à Ordem Soberana e Militar de S. João de Jerusalém, de Rodes e de Malta. Pela sua natureza hospitalária, foi, ao longo de séculos, local de passagem obrigatória de peregrinos em direção a Santiago de Compostela.

É essa memória que agora pretende ser recuperada, com a criação de novas estruturas e novas condições para que possa tornar-se uma referência no âmbito do caminho português de Santiago.

De resto, o "Km 234" incluído no título da exposição refere-se precisamente à distância entre o Mosteiro e Santiago de Compostela: 234 quilómetros. Não por acaso, todo o primeiro núcleo expositivo faz uma curiosa e bem documentada introdução a todo a mitologia criada à volta do apóstolo Tiago.