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Van Gogh num outubro muito distante

"Vue de l’asile et de la Chapelle Saint-Paul de Mausole”, de Van Gogh é a pintura à esquerda na foto

DON EMMERT/AFP/Getty Images

Um quadro de Van Gogh é a jóia da coroa de mais um leilão de arte Impressionista e Moderna, levado a cabo terça-feira pela Christie's, em Nova Iorque. A tela é a única que Vincent teve autorização para pintar ao ar livre nesse ano

Brancusi, Rodin, Chagall, Giacometti, Gauguin, Picasso são alguns dos nomes que esta terça-feira vão a leilão. A Christie's leva a cabo mais uma venda de obras de arte do período Impressionista e Moderno e tem como estrela "Vue de l’asile et de la Chapelle Saint-Paul de Mausole", um óleo sobre tela pintado em 1889 por Van Gogh enquanto este aí se encontrava hospitalizado por sofrer de epilepsia. A leiloeira leva-o à praça com uma estimativa base de 56 milhões de dólares.

O quadro terá sido elaborado numa tarde de outubro em pleno ar livre (apesar de vigiado), depois do pintor ter chegado ao asilo em maio desse mesmo ano. "Mais do que nunca, tenho agora uma vontade furiosa de trabalhar (…) Acho que o trabalho pode contribuir para a minha cura", escreve um mês antes ao seu irmão Theo. Foi com esse espírito que pintou a tela da vista que admirava todas as manhãs a partir da janela do seu quarto, uma capela românica do século XII e a paisagem em seu redor. E esta terá sido a primeira obra a dar por terminada no espaço de três meses.

De nada lhe serviria na altura. Por mais que pintasse. Nunca veria o fruto do seu trabalho ser reconhecido, pois o irmão não lhe vendia os quadros como Vincent pensava que ele fazia. Esta obra em particular, surge na ressaca de um tratamento duro que o tornou recluso do quarto do asilo no sul de França.

Este internamento surge depois do famoso episódio que o levou, a 23 de dezembro de 1888, em Arles, a uma imensa discussão com o amigo Paul Gauguin que ali o fora visitar, terminada com o doloroso corte da parte de cima da sua própria orelha num bordel da cidade francesa.

Toda a tragédia à volta de Vincent van Gogh, de resto, contribuiu para a curiosidade do público que em 1905 foi exposta em Amesterdão, numa grande retrospetiva, no Stedelijk Museum. A mesma que Paul Cassirer, o galerista alemão mais importante da época, visitou. A obra passou a fazer parte de uma exposição itinerante organizada por Cassirer e foi vista em Hamburgo, Berlim, e Dresden. O público alemão adorou-a, bem como os críticos de artes e os historiadores, que descobriram assim um artista contemporâneo de grande monta e que se tornou num ápice uma lenda viva da pintura.

Mas só dois anos depois, em 1907, é que o galerista conseguiu adquirir o quadro à viúva do irmão de Van Gogh, Johanna. A obra só voltou à praça em 1963, pelas mãos da Sotheby's. Foi em Londres. Nessa altura, o famoso negociante de arte Francis Taylor comprou-a para dar à filha, a mais do que célebre atriz Elizabeth Taylor. A atriz estava então a rodar "Cleópatra", ao lado de Richard Burton. O quadro permaneceu na sua casa por mais de 50 anos e até à sua morte, em 2011, data em que voltou a ser vendido.

Quem ficará com ele agora?