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Cannes. Com a alegoria de “Lazzaro Felice”, os camponeses voltaram a ver maravilhas

"Ash Is Purest White", de Jia Zhang-ke

D.R.

A italiana Alice Rohrwacher junta-se a Jia Zhang-ke (“Ash is Purest White”) e a Jafar Panahi (“3 Faces”) no grupo dos filmes a ter em conta

Francisco Ferreira, em Cannes

“Lazzaro, estás enfeitiçado?” Assim começa a terceira-longa-metragem de Alice Rohrwacher. O protagonista é um Lazzaro que o título nos conta ser feliz. É um inocente, belo rapaz que não tem a lepra do Lázaro da Bíblia, mas que todos mantém à distância e de quem troçam porque ele não é capaz de distinguir o Bem do Mal. Passamos a primeira parte de “Lazzaro Felice” numa quinta do centro de Itália chamada L'Inviolata. Não sabemos exatamente onde estamos, nem em que época (talvez na viragem da década de 80 para a de 90, se um obsoleto modelo de telemóvel que se vê mais à frente não engana). Pouco importa isso porque, na dita quinta, propriedade de uma marquesa má como as cobras e conhecida como a “rainha do tabaco” (Nicoletta Braschi), aquele mundo feudal, ainda que fora de tempo, permanece intacto. Ali vivem dezenas de camponeses (54, sabe-se depois), que na L'Inviolata nascem, trabalham e morrem como os seus pais e avós, há gerações e gerações, sem conhecerem escola nem rendimento, só uma magra subsistência. Estamos numa Itália de aristocratas falidos e de santos padroeiros que também são supersticiosos amuletos guardados debaixo dos colchões.

Um dia, Lazzaro, o tonto, o “explorado dos explorados”, ele que olha para o mundo com total abnegação, como cordeiro preparado para o sacrifício, toma-se de amizades pelo filho da marquesa, Tancredi (Luca Chikovani). Lazzaro é a chave secreta deste filme com um pé numa realidade ancestral e outro no conto de fadas. Essa realidade, que “Corpo Celeste” e “O País das Maravilhas” já procuravam, não é apenas vital para Alice Rohrwacher. Há já muito tempo, desde o recém-desaparecido Ermanno Olmi, desde os melhores filmes dos irmãos Taviani, que o cinema italiano perdeu uma ligação à Terra, ao povo, às raízes do seu campesinato. “Lazzaro Felice” volta a tornar essa ligação possível.

E o conto de fadas? De onde vem o milagre que, figurado num lobo (que só pode ser o lobo domesticado do mito de São Francisco), permitirá a Lazzaro renascer depois de cair numa ravina e trespassar o tempo, como fantasma que se translada até à segunda parte do filme, passada na periferia da Turim do presente? Rohrwacher acredita que o espectador consegue acompanhá-la nesse salto e Lazzaro volta-nos a aparecer à frente, reencontrando a Antónia criança que ele conhecera (Alba Rohrwacher, irmã da cineasta) e o vendedor de sucata Ultimo (Sérgi Lopez, o espanhol poliglota, porventura no seu melhor papel), que são uma espécie de Gelsomina e Zampanò hoje possíveis (personagens de “La Strada”). Também reencontra Tancredi, que tem algo de Visconti. E o próprio Lazzaro também tem nele algo de Totó num tempo em que atores como este não existem mais.

É porventura de Totó, de De Sica, também de Fellini, que o conto de fadas aqui chega, tal como de Pasolini vem a influência que leva Alice Rohrwacher a cruzar profissionais e amadores (Lazzaro é interpretado por Adriano Tardiolo, que nunca tinha feito cinema na vida). Rohrwacher não tem de Fellini o mesmo desvario. Nem de Pasolini a mesma crueldade política. A “Lazzaro Felice”, chamou-lhe uma “realíssima fábula”, de novo rodada em película (em super 16mm), com uma primeira parte extraordinária e uma segunda que vinca em demasia que os bons e os maus estão bem separados nos dois lados da trincheira.

Adriano Tardiolo em "Lazzaro Felice", de Alice Rohrwacher

Adriano Tardiolo em "Lazzaro Felice", de Alice Rohrwacher

D.R.

“Ash is Purest White” 20 anos de Jia Zhang-ke

Jia Zhang-ke é um cineasta de saudades? Saudosista – e é curioso pensar nisto agora – é quem o cristalizou na juventude fervilhante e amargurada que virou o século há 20 anos, na altura em que o país começou a abrir-se a um capitalismo destravado (a juventude de “Pickpocket” e de “Plataforma”) e que hoje exclama que o cineasta já não faz filmes assim, como se este estivesse condenado a repetir-se ad eternum. Não está condenado, nem se repete. O cinema de Jia, é um facto, mudou, descobriu uma calma que não é menos inquietante, um silêncio que não é menos ensurdecedor e “Ash is Purest White”, opus 12 desta aventura, filme de maturidade, é prova disso.

“Ash is Purest White” acompanha três períodos da vida de uma mulher, de 2001 a 2017. Ela chama-se Qiao, está apaixonada por Bin, pequeno gangster de uma casa de jogo. Passa cinco anos de cadeia por ele, mas o amor é ingrato: quando sai em liberdade, Bin não está à sua espera. Dez anos depois, novo encontro: ela com a vida refeita, ele com a vida destruída, dois corpos gastos e sem desejo mas umbilicalmente ligados a um amor sacrificial que não deu certo - é a mais complexa relação sentimental alguma vez escrita e filmada pelo autor. O período do filme, grosso modo (Jia rodou a primeira longa em 1997), é o período da vida profissional do cineasta e o da transformação da China que ele fixou.

Não há aqui autobiografia, apenas sinais dela: a heroína é interpretada magnificamente por Zhao Tao, mulher do cineasta (até à data, não há papel feminino que a supere no concurso); a ação começa e acaba em Datong, em Shanxi, região natal de Jia. O que há é uma perceção inexorável do destino, de um tempo que passou (é a esse tempo que se referem as cinzas do título) sem que se tivessem cumprido os desejos idealizados pela juventude dos primeiros filmes e, isso sim, é de uma tristeza irremediável.

Panahi: a ilusão e o bric-à-brac

A diplomacia saiu furada: Cannes não conseguiu trazer Jafar Panahi do Irão, que o condenou a prisão domiciliária. Não consta que “3 Faces” tenha chegado à Croisette numa pen escondida num bolo tal como aconteceu com “Isto Não É um Filme” em 2011, meses depois de ter saído a sentença. Entretanto, ele já fez “Closed Curtain” (Melhor Argumento em Berlim 2013) e “Táxi” (Urso de Ouro no mesmo festival, 2015). Esta prisão, convém dizê-lo, não o impede de ter uma liberdade de movimentos assinalável: em “3 Faces” não só se deslocou ao Azerbaijão Ocidental, região iraniana do extremo noroeste do país como levou consigo Behnaz Jafari, célebre atriz conhecida em todo o território pelo cinema e pelas novelas da TV. Na ficção de “3 Faces”, que o engenhoso Panahi, assim como quem põe sal na comida, sempre poder ter realmente acontecido (ele faz de si próprio, ela também), Behnaz Jafari recebe no telemóvel um vídeo misterioso de uma adolescente que filmou o seu próprio suicídio. No vídeo, conta a rapariga azeri que, querendo ser atriz, prestou provas e até foi aceite numa escola de atores em Teerão mas que o sonho foi proibido pela família pobre e conservadora, levando-a a meter uma corda ao pescoço.

Behnaz Jafari não está convencida da veracidade do vídeo e pede ajuda ao cineasta Panahi para saber se se trata de uma fraude. A miúda, de facto, desapareceu de casa. Incrédulos, atriz e realizador fazem-se então à estrada até à remota aldeia da aluna e é lá que 'o terceiro rosto' do título aparece, personagem que nunca conheceremos (só a vemos ao longe) e de quem se diz na aldeia ter sido atriz famosa nos tempos do Xá, caída em desgraça com a Revolução Iraniana de 1979. Panahi tem uma subtileza e uma capacidade invulgar para inventar situações detetivescas a partir de episódios comuns do quotidiano e “3 Faces” não abandona esta linha. Um engenho de bric-à-brac a construir fachadas e um prazer a desmoroná-las. Todo o seu cinema está baseado nessa sugestão, que aqui é dirigida para uma reflexão da condição feminina no seu país. Há outra coisa em “3 Faces” que perturba porque Panahi parece estar neste filme a sublinhar ostensivamente Kiarostami (de quem foi assistente): há um jipe e uma sepultura com uma pessoa viva que se deita lá dentro, como em “O Sabor da Cereja”, campos-contracampos no carro, como em “Ten”, o confronto de citadinos e aldeões, como em “O Tempo Levar-nos-á”. Os pontos em comum não ficam por aqui. Se foi homenagem, tornou-se demasiado evidente.

Alice Rohrwacher, Jia Zhang-ke, Jafar Panahi: todos já fizeram melhor do que aquilo que mostraram este ano em Cannes, sente-se que o grande filme do festival (salvo o de Godard) ainda não apareceu, mas se o palmarés passar por aqui no próximo sábado não ficará mal servido.