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Paulo Nozolino: “Entre vós estão cínicos, invejosos e inimigos. Se tivessem coragem sairiam neste momento da sala”

Paulo Nozolino durante a inauguração de uma das suas últimas exposições em Lisboa, em 2011

ANA BAIÃO

No lançamento do segundo volume da coleção Ph., dedicada à fotografia portuguesa, Paulo Nozolino foi contundente relativamente ao estado da arte em Portugal. Crónica anunciada da perda de inocência

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

No salão da Biblioteca da Imprensa Nacional, ao fim da tarde de terça-feira, ouviram-se as homenagens e dedicatórias que fazem parte destas ocasiões. Afinal, tratava-se do lançamento do segundo volume de uma das iniciativas mais jovens da Imprensa Nacional Casa da Moeda. A coleção Ph., que se propõe fixar a obra dos mais importantes fotógrafos portugueses, teve o seu primeiro volume publicado em novembro de 2017. A honra do pontapé de saída coube a Jorge Molder.

O segundo livro foi ontem apresentado à sociedade e ocupa-se do corpo de trabalho de Paulo Nozolino. Foi o último a usar da palavra, sem papas na língua: "Em 1982, Robert Delpire convence o então ministro da Cultura, Jack Lang, a fazer uma coleção de fotografia popular, de bolso, a baixo preço: o Photo Poche. 36 anos depois, um jovem editor, Cláudio Garrudo, convence a Imprensa Nacional a fazer o mesmo. 36 anos depois. É o tempo do nosso atraso e é escusado pensar que mais vale tarde do que nunca".

Cláudio Garrudo, o editor, tinha falado antes, explicando o objecto e a periodicidade desta coleção - dois volumes por ano. Ainda antes, Duarte Azinheira, diretor de publicações da INCM, tinha relevado a importância destes livros, comercializados a um preço módico, €19, no vasto contexto do trabalho que é próprio da Imprensa Nacional e onde não é descabido "devolver a obra aos seus autores". Sérgio Mah, que colaborou com Paulo Nozolino na escolha das fotografias e produziu um dos textos presentes no livro, recorreu às memórias desses dias, em que juntos abriram caixas e mais caixas para selecionar o que se lhes afigurou importante. Já Rui Nunes, autor do segundo texto deste segundo volume da coleção Ph., sublinhou a importância da fotografia de Paulo Nozolino para dar a ver aquilo que está entre fragmentos.

A intervenção mais demolidora, seria, no entanto, do próprio Paulo Nozolino, a encerrar a sessão. Desde o início até ao fim teceu críticas ferozes ao estado da cultura em Portugal e ao da fotografia em geral. "A fotografia é agora um lugar comum, uma prática chinesamente democrática graças ao telemóvel. A voracidade de fazer imagens e de as disseminar criou um novo problema. A mediocridade e a banalização de tudo o que nos rodeia. Niepce ficaria estupefacto, se fosse vivo. O que demorou quase dois séculos a ser consolidado, foi destruído em apenas dez anos", disse referindo-se ao Instagram e às redes sociais sem nunca as citar.

Das suas palavras ficam ainda dois sinais de esperança: no livro ("o único meio de preservar a memória") e na promessa de continuar a trabalhar ("a fotografia é a minha maneira de lutar contra a desmemória, a minha maneira de estar vivo e a única coisa que tenho para dar"). O livro em causa é também isso mesmo: um repositório das viagens e das memórias de um fotógrafo. "Viajei muito, ironicamente, com passaportes provenientes desta casa. Tive a sorte de ter podido construir a minha obra com tempo. De ter visitado lugares intactos, ainda não destruídos por hordas de turistas selvagens que graças às companhias low cost agora circulam pelo mundo. Foi um privilégio tocar nas colunas da Acrópole e nas pedras das Pirâmides de Gizé. Foi uma dádiva ter estado um dia inteiro em Auschwitz sem ver ninguém, ou caminhar livremente pelas areias do Wadi Rum. Parece que estou a falar de um tempo antigo, mas não. Foi só há 20 anos. As minhas fotografias são o testemunho disso. Das viagens que fiz, dos sítios que visitei, das pessoas que conheci. Toquei, vi e fotografei o sagrado. Continuo a fazê-lo", foi a forma pungente de dizer o que o tem movido ao longo de uma carreira que conta 45 anos.

Quase meio século depois, é sem qualquer sobressalto que se aceita confundir esse testemunho com a história mais recente da fotografia em Portugal: "Quando voltei de Londres, em 1978, a fotografia era inexistente em Portugal, com excepção de um ou dois notórios fotógrafos de domingo. Foram precisos muitos anos, outros tantos de exílio em Paris, para conseguir impor a fotografia. Não estive só nessa luta".

Ontem soube-se que essa luta vai continuar.