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Santa Rita Pintor. A exposição que faz falta

Na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, a nota dominante das conferências em homenagem a Santa Rita Pintor tocou a necessidade de expor a sua obra de forma sistemática

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

Retrato de Santa Rita, em Paris, num dos ateliers do 14, Cité Falguière, provavelmente fotografado por Emmerico Nunes ou Eduardo Viana. Surge pela primeira vez no catálogo da exposição do centenário do nascimento de Amadeo de Souza-Cardoso, na Gulbenkian

Retrato de Santa Rita, em Paris, num dos ateliers do 14, Cité Falguière, provavelmente fotografado por Emmerico Nunes ou Eduardo Viana. Surge pela primeira vez no catálogo da exposição do centenário do nascimento de Amadeo de Souza-Cardoso, na Gulbenkian

A 3 de maio, quinta-feira, teve início o ciclo de conferências dedicado a Santa Rita Pintor que pretende celebrar a vida e, sobretudo, a obra de um dos arautos do modernismo português. Por ocasião do centenário da sua morte, que passou a 29 de abril, as palestras versaram a figura tida como enigmática do pintor que acompanhou Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Almada Negreiros na revista Orpheu mas que, ao contrário dos seus pares, não deixou obra. Ou não será bem assim?

Se a história diz que Santa Rita, na hora da morte, pediu a um dos irmãos para queimar a sua obra, isso não indicia que ela não terá existido. Depois das apresentações por parte de Fernando Rosa Dias, estudioso e professor na Faculdade de Belas Artes de Lisboa além de principal dinamizador desta homenagem, João Macdonald sublinhou o que havia escrito em artigo publicado na Revista do Expresso de 28 de abril. O editor da revista “Up”, que se apresta a publicar uma biografia de Santa Rita Pintor a chegar às livrarias ainda este ano com chancela da Abysmo, anunciou ter já referenciado 53 obras de Santa Rita Pintor, sendo conhecidos os originais ou reproduções de uma trintena.

“Cabeça” é hoje aceite como sendo um retrato de Augusto de Santa Rita, irmão do pintor. Faz parte da exposição permanente do Museu do Chiado, encontrando-se até 8 de maio no Museu Rainha Sofia, em Madrid, no âmbito da exposição “Pessoa. Toda a arte é uma forma de literatura”

“Cabeça” é hoje aceite como sendo um retrato de Augusto de Santa Rita, irmão do pintor. Faz parte da exposição permanente do Museu do Chiado, encontrando-se até 8 de maio no Museu Rainha Sofia, em Madrid, no âmbito da exposição “Pessoa. Toda a arte é uma forma de literatura”

Ou seja, além de “Cabeça” (que hoje se aceita ser um retrato de Augusto Santa Rita, irmão do pintor), que faz parte do espólio do Museu Nacional de Arte Contemporânea, de “Orfeu nos Infernos”, dos desenhos que se encontram no acervo da Fundação Calouste Gulbenkian (um dos quais não deve ser atribuído a Santa Rita, segundo artigo de Diogo de Macedo na revista “Aventura”) e dos trabalhos de índole escolar e académica presentes na Academia de Belas Artes (e alguns deles expostos nesta ocasião) há um vasto número de obras assinadas por Santa Rita mas que se encontram em coleções particulares ou das quais não se conhece o paradeiro.

Auto-retratos de Santa Rita, datados de 1911 e que hoje fazem parte da coleção da Fundação Calouste Gulbenkian. Diogo de Macedo disputou a autoria de um deles

Auto-retratos de Santa Rita, datados de 1911 e que hoje fazem parte da coleção da Fundação Calouste Gulbenkian. Diogo de Macedo disputou a autoria de um deles

O jornalista, que tem vindo a estudar aturadamente Santa Rita, identificou quadros transacionados desde a década de 1980 pela Galeria Cordeiros ou em leilões da Cabral Moncada e do Palácio do Correio Velho (com valores à volta dos €7500 e €10000) que destroem a tese de que Santa Rita era um pintor que afinal não pintava. Um desses óleos, que se encontra presentemente à venda, colocado no mercado pela Galeria Cordeiros no Porto, tinha caráter inédito até ser apresentado no artigo da Revista do Expresso.

Óleo atualmente à venda na Galeria Cordeiro, no Porto, inédito até à publicação a 28 de abril de 2018 na Revista do Expresso

Óleo atualmente à venda na Galeria Cordeiro, no Porto, inédito até à publicação a 28 de abril de 2018 na Revista do Expresso

A essas obras, a historiadora de arte e diretora do Museu do Neo-Realismo Raquel Henriques da Silva, viria ainda a acrescentar duas outras, que estão na posse de Isabel Silveira Godinho, ex-diretora do Palácio Nacional da Ajuda, que representam uma jarra com flores e uma paisagem. Raquel Henriques da Silva sublinhou por isso a necessidade de confrontar tudo o que está dito sobre Santa Rita Pintor, enaltecendo os trabalhos já publicados por historiadores de arte como José Augusto-França, Rui Mário Gonçalves e Joaquim Matos Chaves, autor da única biografia de Santa Rita que chegou aos escaparates há quase vinte anos (“Santa Rita – vida e obra”, Quimera, 1989).

Também a versão geralmente aceite da vida de Santa Rita Pintor mereceu alguns reparos. Frequentemente apresentado como alguém estouvado, sobretudo desde que regressou de Paris, em 1914, ele foi, porém, o único dos três principais pintores do primeiro modernismo português a completar os seus estudos académicos, algo que nem Amadeo de Souza Cardoso nem Almada Negreiros ousaram, seguindo provavelmente a ideia de que os estudos “matavam” a arte, muito comum à época.

Um dos trabalhos de academia, possivelmente inédito, que também faz parte do espólio de Rui Carita, descendente dos irmãos Henrique e Francisco Franco

Um dos trabalhos de academia, possivelmente inédito, que também faz parte do espólio de Rui Carita, descendente dos irmãos Henrique e Francisco Franco

Já Luís Leite, sobrinho-neto de Santa Rita, apresentou uma cronologia assente nos testemunhos recolhidos entre a sua família, aliás bem representada no auditório 3.03 da Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Data fundamental no seu percurso terá sido a da morte do pai, em 1905 quando Santa Rita Pintor tinha apenas 15 anos. A ausência de progenitor terá marcado o início de uma existência libertina que seria ainda percorrida pelo regicídio (em 1908, o que não atenuou o seu fervor monárquico), a morte de um avô (1910, que foi Par do Reino e amigo do Rei D. Luís), o conflito com o representante diplomático de Portugal em Paris, João Chagas (1911) e finalmente, o início da Grande Guerra (1914) que o faria regressar a Lisboa.

Luís Leite relataria episódios da boémia que Santa Rita terá levado, entre 1910 e 1914, em Paris, onde viveu hospedado, entre outros sítios, no Hotel de Suez, a expensas da mãe e da herança do pai. Outros pintores portugueses que naquele tempo coincidiram na capital francesa, frequentavam o pátio 14 da Cité Falguière, de Amadeo de Souza-Cardoso, entre eles Domingos Rebelo, Francisco Smith, Manuel Jardim, Emmerico Nunes ou Eduardo Viana. Foi durante esse período que Santa Rita terá conhecido ou mesmo privado com Modigliani, Picasso, Braque ou Picabia e tomado contacto com o Manifesto Futurista de Filippo Marinetti (publicado em 1909, no jornal “Le Figaro”), sendo espectador em algumas sessões. Um texto que Santa Rita se propôs traduzir para português, o que nunca veio a suceder (porém terá possivelmente traduzido outros textos do agitador italiano).

Já em Lisboa, onde chegou com “umas grandes guedelhas”, terá continuado na senda de boémia para escândalo dos frequentadores da Baixa. Em 1916 (segundo texto na imprensa brasileira, e não em 1917 como é comum referir-se) terá rapado cabelo e sobrancelhas, juntamente com Almada e Amadeo, depois de uma jura diante do Ecce Homo ou dos Painéis de São Vicente, no Museu Nacional de Arte Antiga. Noutro incerto dia terá chegado a casa da mãe, já de manhã, com uma porção de terra numa mão e um frasco de éter na outra. Em frente da senhora, comeu de um e bebeu do outro, ainda segundo as memórias do sobrinho-neto.

Retrato de Santa Rita já perto da morte, desenhado pelo seu amigo João Saavedra Machado e publicado pela primeira vez por Henrique Vilhena

Retrato de Santa Rita já perto da morte, desenhado pelo seu amigo João Saavedra Machado e publicado pela primeira vez por Henrique Vilhena

Morreria em 1918, não só da tuberculose que é registada na certidão de óbito e nas biografias mas também atacado pela sífilis. Tinha 28 anos. Na opinião da Raquel Henrique da Silva, não é tão útil rever a sua obra cronologicamente, ensaiando a historiadora uma organização dos seus trabalhos segundo dois polos decisivos na sua formação e influenciadores do seu génio: Mário de Sá Carneiro e Almada Negreiros. Indispensável para essa tal exposição, seria obviamente reunir quadros com paradeiro incerto como “Camponesa”, “Mula”, “Édipo e Antígona”, “O Monstro Quasimódeo”, “Cabeça de Velha”, esboceto de “O Remorso de Nero”, o óleo atualmente à venda no Porto e outros para lá daqueles que se encontram em instituições bem identificadas. Da mesma forma, um maior conhecimento da obra destruída, tema de uma das palestras de sexta-feira (4 de maio) seria também essencial e ajudaria construir, por ausência, um catálogo “raisonné” como começa a ser sugerido.