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O tempo dos crioulos na cidade da Praia

Jupiter & Okwess

Cristiano Barbosa

Com um programa ambicioso, marcado pela homenagem a Bulimundo e Os Tubarões, arranca esta quinta-feira na cidade da Praia, em Cabo Verde, a décima edição do Kriol Jazz Festival

Valdemar Cruz

Valdemar Cruz

em Cabo Verde

Jornalista

Não é um festival de jazz convencional. Não é apenas um encontro das chamadas “músicas do mundo”. Não é tão só uma mostra da muita e excelente música feita em Cabo Verde e, no entanto, acaba por ser tudo isso, de uma só vez, ou fragmentado nas diferentes propostas de um festival cujo objetivo é celebrar a crioulidade. É o que acontecerá a partir desta quinta-feira em alguns espaços da cidade da Praia, em Cabo Verde, com mais uma edição do Kriol Jazz Festival.

Até o próximo sábado, a presença da música no quotidiano das ruas da capital de Cabo Verde impõe-se como uma outra forma de magia com sabor a África. Pela sucessão de concertos já apresentados ao longo da semana no âmbito do AME-Atlantic Music Expo, uma iniciativa que congrega programadores de festivais de todo o mundo a quem se apresentam, em curtos concertos, artistas das mais diversas latitudes, percebe-se a entrega, a paixão por sonoridades que, apesar de próximas, no sentido em que remetem para memórias ancestrais, estão afinal distantes, se o que conta é a pobreza de uma “playlist” de uma rádio ocidental, ou os comuns destaques da imprensa generalista.

José (Djô) da Silva, o produtor musical que é em simultâneo o criador e principal dinamizador do Kriol, assume hoje a proposta lançada há dez anos, quando pela primeira vez levantou os alicerces de um encontro da crioulidade. O objetivo era, então, e continua a ser hoje, criar uma festa a partir da vivência dos crioulos espalhados pelo mundo.

A Praça Luís de Camões recebe esta quinta-feira a Marcha de Alfama e Os Tubarões & Bulimundo. Sexta-feira sobem ao palco Mário Lúcio (Cabo Verde), Nathalie Natiembé (Reunião), o guitarrista Stanley Jordan e o Thunder Duo (EUA/Hungria), com Seu Jorge a assegurar o fim de festa e a provocar uma imparável correria em demanda de bilhetes de acesso a um recinto de lotação muito limitada.

Sábado, último dia do certame, será tempo para Sara Tavares, Ayo, uma cantora nascida na Alemanha com ascendência nigeriana e romena, a Kriol Band, um projeto em estreia nascido no âmbito do próprio festival e que congrega músicos de múltiplas origens, além do nigeriano Bantu.

Djô Silva fala da importância de mostrar em Cabo Verde os dois laços da crioulidade, constituídos pela mistura do africano com o europeu. Daí a importância de colocar em palco artistas originários de várias partes do mundo, de Cuba a Martinica, das ilhas Reunião à Argélia, com passagem pelos EUA, Brasil e até China. “Apareceu agora uma zona da China que se reivindica da crioulidade”, diz Djô.

O importante é o conceito de mistura de povos, traduzido em mistura de músicas e experiências culturais.

Uma lança em África

Carlos Seixas, diretor artístico do Festival Músicas do Mundo, de Sines, também presente na Praia, fala do Kriol como “literalmente uma lança em África, com uma qualidade e nomes que surpreendem”. Recorda que já por cá passaram nomes como Esperanza Spalding, mas também Richard Bona, Jowee Omici, Sara Tavares, Bonga, Ismael Ló ou Manu Dibango.

O festival beneficia de possuir uma localização geográfica estratégica, com a proximidade da Europa e das Américas, além de África. Consegue, além do mais, prossegue Seixas, “uma ligação bem feita entra um jazz mainstream e nomes não tanto ligados ao jazz e que surpreendem bastante, a maioria oriundos do circuito da chamada ‘world music’”.

A colocação do termo “jazz” no nome do festival gerou de início alguma controvérsia, reconhecida por Djô da Silva. Uns consideravam que havia pouco espaço para a música caboverdiana, enquanto outros sustentavam que havia pouco jazz. Poucos perceberam, naqueles primeiros momentos, o alcance muito mais vasto da palavra. Como refere Djô, “é um festival de jazz porque o conceito de jazz é o de construir uma música livre dentro de um ritmo. Porque é que um caboverdiano não pode estar livre dentro de uma morna ou de uma coladeira? Então, se isso acontece, é jazz”.

A estreia da Kriol Band

Em todo o caso, o Kriol faz questão de ter sempre no programa alguém bem integrado no circuito internacional do jazz, como é o caso, desta vez, do guitarrista Stanley Jordan. Não deixa, por isso, de passar pela experiência da mistura. Vai encontrar-se com percussionistas da Hungria.

Uma das grandes novidades desta décima edição do Kriol é a apresentação de uma criação própria. A Kriol Band vai integrar músicos escolhidos em diferentes países, como Cuba, Martinica, Cabo Verde, Senegal ou Haiti. Se resultar bem, será uma experiência a repetir. Uma das particularidades da formação deste ano é a entrega da bateria a uma jovem baterista cubana, que Djô classifica como “excepcional”.

O Kriol Jazz é um festival internacional a exigir tecnologia e organização ao nível do que de melhor se faz no mundo, embora realizado, como sublinha o programador, “num país pequeno, pobre, com poucos recursos e poucas possibilidades de compra de bilhetes”. A Câmara Municipal da Praia assegura o financiamento de 50% e o resto terá de ser conseguido com patrocinadores. Um dos problemas com que se confronta Djô passa pelos tempos de decisão. A maioria, diz, decide dar ou não apoio a um ou dois meses do festival. “É importante, mas nessa altura já está tudo decidido. Seria fundamental conhecer esses apoios com mais antecedência.”

O que fazem festivais como o Kriol ou o de Sines, em Portugal, é um ato de resistência. Para existirem, mas sobretudo para afirmarem a infinita grandeza da criatividade humana, num mundo que tantos tanto fazem para se tornar desesperadamente minúsculo.