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Elena Soarez: “Esforçámo-nos para que a direita e a esquerda odeiem a série”

Alexandre Loureiro/Getty Images

Pegou na investigação da ‘Operação Lava-Jato’ e criou “O Mecanismo”, uma série que coassina com José Padilha. Lula da Silva foi uma das personalidades que não gostou do que viu e já ameaçou processar a Netflix por causa da produção brasileira. Dilma Rousseff acusa-a de propagar “fake news”

Agora já está tudo pronto, mas gostava que me falasse do início. Como é que este projeto começou?
Foi com um convite do José Padilha, que lera o livro do jornalista brasileiro Vladimir Netto, que tinha feito uma pesquisa bastante extensa sobre a ‘Lava-Jato’. Já sendo um assunto do interesse do José, ele ofereceu o projeto à Netflix, que acabara de fazer o “Narcos”. Então, a Netflix entrou no projeto, e o José chamou-me para escrever.

Foi aí que começou esta aventura de pegar no livro e, a partir da realidade, construir uma ficção televisiva. Demorou muito a conseguir adaptar a história ou foi algo rápido?
Só não foi mais demorado porque não podia. Tive muito pouco tempo, por isso foi bem difícil em alguns aspetos. A investigação, em si, é ingrata do ponto de vista narrativo, porque vai abrindo, tem um desenho em leque... A investigação começa a ser feita a um pequeno grupo de ‘doleiros’, passa para diretores de estatais, depois para empreiteiros e em seguida para políticos, que são quase todos.

Como é que se consegue lidar com tantas personagens?
É verdade que essa gente toda não cabe na tela. Então, para fazer com que essas personagens caibam dentro de uma estrutura narrativa possível, faço uma série de simplificações e reduções, com o objetivo de construir uma estrutura narrativa. Todo o meu esforço é servir o drama, servir a dramaturgia. O grande desafio foi conseguir um equilíbrio entre ficção e realidade, entre política e entretenimento.

Como se equilibram os pratos da balança? Não é perigoso estar a mexer num caso que ainda não está encerrado?
Por um lado, temos uma certa margem de segurança, porque a primeira temporada acaba na sétima parte da investigação, e só para dar uma ideia a investigação encerrou agora a sua 49ª fase. A série termina com a prisão dos empreiteiros, e há bastante tempo que isso está acontecendo, com factos consolidados. Por esse lado, estou mais ou menos coberta. O que não impede que de vez em quando apanhe um susto.

Um susto? Com algo que foge ao que esperava?
Sim, por vezes acontece alguma coisa fora dos scripts. Uma personagem da vida real comporta-se de uma forma que nega o que eu construí, mas enfim... Por outro lado, o que acontece é que, se eu estivesse contando essa história passado muito tempo, estaria a fazê-lo do ponto de vista dos vitoriosos. Porque a versão que fica na história é sempre a dos vencedores. Mas aqui é uma história que ainda não acabou, que está viva e que eu sou obrigada a contar de todos os lados, com todas as vozes. Embora as evidências se amontoem na direção de que tudo o que aconteceu não pode ser ignorado, não pode ser negado, ainda está tudo em aberto.

Como é que a sociedade brasileira reagiu quando soube que estavam a preparar uma série como esta?
Imagino que com bastante expectativa. Foi uma história que tomou o país de assalto. Realmente, virou um drama encenado nas nossas vidas. Famílias e amigos brigaram. Foi um assunto que inflamou a população. É muito diferente da situação do golpe militar, em que tínhamos a sociedade civil versus os militares. A investigação da ‘Lava-Jato’ racha a sociedade civil, que se divide em duas narrativas, a da direita e a da esquerda. Ambas apaixonadas, ideológicas e quase religiosas. É um assunto que está mexendo muito com os brasileiros, pelo que imagino que deva suscitar o interesse na série.

E como acha que a esquerda e a direita brasileiras vão reagir a “O Mecanismo”?
Esforçámo-nos para que a direita e a esquerda odeiem a série. E odiarão, porque queremos justamente retirar-nos desse debate ideológico. Queremos mostrar que “O Mecanismo” é um mecanismo que rege as práticas do Brasil desde sempre, que não é monopólio de nenhum governo, seja de direita ou de esquerda. É uma perversa associação entre capital e poder e que se retroalimenta, financiando interesses privados em detrimento de interesses públicos, em detrimento do bem comum. Então, quem está sendo lesado somos todos nós, que estamos pagando os impostos. Gostaríamos de apresentar este assunto como uma questão técnica em vez de religiosa, como vejo nos debates políticos.

O que mais a surpreendeu em toda a história?
Passámos por situações muito traumáticas recentemente, mas acredito que a perda da ilusão é o lado bom. É melhor saber do que não saber. Um momento especialmente dramático foi a votação de impeachment da Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, porque ali fomos confrontados com as ideias dos nossos representantes. Foi brutal, parecia um teatro dos horrores com os nossos representantes. Foi um espelho muito cruel que nos foi apresentado. Para mim, foi um momento dramático. Outro momento estarrecedor foi justamente aquele telefonema entre o Lula e a Dilma. Lembra-se?

Sim, sim.
Pois então... Nesse telefonema, e num tom absolutamente comezinho, quotidiano e íntimo, o Lula e a Dilma estão negociando uma coisa louca: ele pede a sua própria nomeação. Aquilo também foi muito traumático, porque em algum momento todos acreditámos na proposta do Partido dos Trabalhadores, parecia que finalmente estávamos a viver um momento diferente. Foi duro perceber que não, mas é assim que a gente cresce.

É nestes momentos de quebra que a criatividade também cresce ou sente-se condicionada no seu trabalho?
Não, não. Estamos num bom momento, e acho que a realidade brasileira tem-nos servido com um excesso de histórias. A dificuldade atualmente é filtrá-las, porque são tantas… Nesse momento de crise, mais do que nunca, fazemos a nossa parte na área do entretenimento. A realidade brasileira está cheia de histórias para contar.

Está preparada para o impacto internacional da série?
Claramente que não, porque nunca passei por isso, mas, embora seja profundamente brasileiro e local, o assunto da corrupção pode assumir outras modalidades noutras culturas. Mas é algo mais ou menos universal, as pessoas podem ligar-se a ele. Tenho esperança de que a série seja um produto a que o público reaja bem.