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As coisas maravilhosas que o vento faz quando há nevoeiro: Vittorio Taviani, 1929-2018

Este texto não é bem um obituário de Vittorio Taviani, o cineasta italiano que morreu este domingo, aos 88 anos, depois de doença prolongada. É um texto sobre um filme dele e do seu irmão Paolo, com quem fez todos, e do seu impacto numa pessoa, eventualmente em mais. "Uma Questão Privada" esteve há uma semana na Festa do Cinema Italiano, em Lisboa, e em pouco mais de hora e meia ensina-nos as coisas maravilhosas que o vento faz quando há nevoeiro

Ana França

Ana França

Jornalista

"Uma Questão Privada" é “de espírito livre”, palavras de Vittorio Taviani, inspirado pelo romance com o mesmo nome de Beppe Fenoglio, editado em 1963 e considerado “o” romance sobre a resistência italiana. Não somos nós que o dizemos, o elogio é de Italo Calvino, ele mesmo autor de um grande livro sobre a guerra civil italiana, "Atalhos num Ninho de Aranhas". Apesar de ser considerado um romance clássico do neorealismo italiano, esse primeiro livro de Calvino está cheio de páginas com descrições etéreas, mágicas, enevoadas, obtusas e, nisso, aproxima-se deste filme realizado em 2017 pelos irmãos Taviani. "Uma Questão Privada" é um filme de guerra na qual os realizadores não mostram qualquer cena de violência. Ela ouve-se, pressupõe-se, adivinha-se, imagina-se mas nunca se vê. É tão mais penetrante por isso. Todo o filme é passado no mesmo lugar, nas montanhas da região de Langhe, em Piemonte, e o passado volta e foge, volta e foge, no ecrã e às personagens. Estamos sempre à volta de Milton (Luca Marinelli), a personagem principal, e há sempre nevoeiro e uivos de vento. Ele frenético, os elementos constantes. Como se ele pudesse lutar contra a fome, a doença, a loucura, a solidão e o fascismo mas não pudesse nada contra aquele nevoeiro que não o deixa ver o caminho, nem contra as nortadas que lhe trazem os olhos turvos e não o deixam ver o inimigo.

Vittorio Taviani (à esquerda) em Cannes, em 1977 com o seu irmão Paolo. Nesse ano receberam a Palma de Ouro por "Pai Patrão"

Vittorio Taviani (à esquerda) em Cannes, em 1977 com o seu irmão Paolo. Nesse ano receberam a Palma de Ouro por "Pai Patrão"

Micheline Pelletier Decaux/Getty

Algumas críticas feitas a este filme dizem que os irmãos Taviani fizeram de um grande romance uma historieta sem profundidade mas como por cá o livro só será editado este ano, preferimos analisar o filme pelo filme e por aquilo que nos faz sentir na cadeira do cinema. Estamos sempre alerta, ali ao lado dos partisanos antifascistas nas suas casernas, à espera das investidas daqueles soldados que, em 1943, já perto do fim da guerra, se mantinham fiéis aos ideais de Mussolini. A guerra civil italiana foi uma guerra esbravejada nas veredas centenárias das vilas do norte de Itália e nas fileiras paralelas de vinhas que as emolduram. Não houve uma grande batalha, dois exércitos rivais com a cavalaria à frente a mirarem-se de longe à espera da ordem de colisão e essa rotina estagnada que também é parte da guerra fica clara no filme que fica bonito nos pequenos gestos de heroísmo. Há aquele em que Giorgio (Lorenzo Richelmy), o grande amigo de Milton, queima uma série de fósforos no braço para ensinar aos jovens partisanos, assustados e impreparados, que sim, é possível suportar a dor da tortura a que de certo serão sujeitos se forem apanhados pelos fascistas. Ou aquele em que, durante quase três minutos, a câmara se foca num soldado fascista apanhado pela Resistência e que, rodeado de inimigos, com duas baquetas improvisadas, finge ser Buddy Rich no auge dos seus poderes sobrenaturais por trás de uma bateria.

Parece infindável aquela cena: um soldado a minutos da ser fuzilado a imitar com a voz a rapidez insana de um solo de bateria com todos os pormenores. O duplo pedal, trrrrrrrrrrr; o prato, tim tim tirim tim tirim, e o tss tss tss dos hit-hat, tudo a acontecer ao mesmo tempo dentro do delírio dele. Milton quer esse soldado mas os seus amigos garantem-lhe que nem os fascistas o querem e que não o vão trocar pelo prisioneiro que Milton quer resgatar. Quando Milton desiste e se mete de novo naqueles caminhos montanhosos à procura de outro soldado qualquer, o devaneio do baterista fascista dá lugar a uma bateria real que se ouve cada vez mais alto até que os tiros que finalmente matam o doido se confundem com o final do solo.

Na trama de "Uma Questão Privada" está numa história de amor que se passa apenas na idealização de Milton, um jovem apaixonado por literatura inglesa que recebe do seu professor o nome do poeta inglês e nunca revela outro. A bela Fulvia (Valentina Bellè), que ouve no seu 78, sem parar, “Over the Rainbow”, enrola cigarros com pétalas de rosa e dá a volta à cabeça de Milton e do seu amigo Giorgio. Foge da guerra para Turim e deixa-os aos dois no meio daquele vento que faz o nevoeiro fazer formas. Sem querer, talvez querendo, os realizadores deixam que essa névoa seja a seda ondulante dos vestidos de Fulvia.

A vida de Vittorio não foi uma vida individual, foi vivida com o seu irmão Paolo e ambos foram salvos pelo cinema. Disseram-no várias vezes: “Para nós ou era o cinema ou a morte”. No currículo têm vários filmes amados pela crítica, como "Pai Patrão", que em 1977 ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Conta a história de uma criança que quer estudar mas não pode porque o pai precisa dele para cuidar do campo e do rebanho de ovelhas. Enervado com a imposição do ensino obrigatório em Itália, o pai diz uma das frases mais marcantes do filme - “A pobreza é que é obrigatória”. De certa forma, o escape do pequeno Gavino - e Gavino é Gavino Ledda, uma pessoa real e esta história é a história dele - não é diferente daquela que Paolo e Vittorio tiveram de encontrar quando eles mesmos eram jovens e queriam estudar numa Itália em guerra.

Em 2012 venceram a categoria de melhor filme em Berlim com "César Deve Morrer", um filme gravado na prisão de Rebibbia em Roma e de cujo elenco fizeram parte membros condenados das máfias napolitana e siciliana. Tem lógica, já que o filme conta a história de um grupo de reclusos a tentar encenar Shakespeare. Ao diário britânico “The Guardian”, os irmãos contaram que “tudo o que não é Shakespeare são histórias reais que os reclusos nos contaram”. Das duas dezenas de filmes que fizeram nunca se dissipa o compromisso com a realidade, com a dureza das vidas comuns que encontramos noutros mestres do cinema italiano. Vittorio foi um deles, menos conhecido que Pasolini, certo, ou Rossellini, que tanto o inspirou, mas ainda assim um deles.