Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Kurtz regressa

De Tom Hardy, um silêncio intenso e clássico

A série inglesa “Taboo” é talvez inferior a outras que tenho visto, como “Gomorra” ou “Happy Valley”. É contudo a mais surpreendente. “Happy Valley” é um policial realista estupendo, mas é mais um policial realista. “Gomorra” é um retrato único da pobreza e da máfia italiana. Sei que soará a heresia, mas é talvez superior a “The Wire”. Este é porém um território (máfia) muito pisado. Ao invés, “Taboo” é algo à parte, faz lembrar o fôlego inesperado de “Deadwood”. Não é tão perfeita como “Gomorra” e “Happy Valley”, tem defeitos visíveis a olho nu, mas tem um golpe de asa único e uma banda sonora de Max Richter.

Esta é a série de Tom Hardy. Foi criada por Hardy e é interpretada por Hardy, um ator que parece exterior ao nosso tempo: não precisa de falar muito para transmitir emoção; este silêncio intenso e clássico é refrescante numa época saturada pela verbosidade à Sorkin ou à Tarantino. Hardy interpreta aqui um aventureiro inglês do início do século XIX, James Delaney. Imaginem que Kurtz não morre no coração das trevas e que volta à civilização para espalhar o terror do estado da natureza no coração do estado de direito (Londres). Este Kurtz renascido é Delaney/Hardy. Todos pensavam que Delaney tinha morrido num naufrágio ou nas selvas africanas, mas ele volta dos mortos no dia do funeral do seu pai, um rico proprietário que lhe deixa um pedaço de terra fundamental nas Américas (ponto de partida para a segunda temporada que sairá em breve). A poderosa Companhia das Índias tenta comprar por todos os meios esse pedaço de terra na costa do Pacífico, mas descobre que Delaney está para lá das convenções da civilização, está para lá do dinheiro e dos tabus.

Representando o estado da natureza, Delaney é radicalmente livre e radicalmente violento, até porque está empenhado numa vingança: o pai, Londres, a Companhia e a Inglaterra têm de ser punidos pelo que fizeram aos negros em África e aos índios nas Américas. Não se pense que esta é uma concessão ideológica ao politicamente correto. Em “Taboo”, isto faz sentido histórico e narrativo. Delaney, reencarnação de Kurtz, é um anjo vingador que traz para o Tamisa o horror do Congo.