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A liquidação do homem que a todos comprou a amizade nos saldos da ganância

Jose Caldeira

“Timão de Atenas”, obra de William Shakespeare e encenada por Nuno Cardoso, sobe ao palco do Rivoli, no Porto, esta sexta-feira e sábado, assumindo-se como um ensaio sobre a fragilidade das relações humanas, a corrupção, a ingratidão e a misantropia. Um homem julgou poder a todos comprar a amizade, para desse modo ser feliz, mas as voltas que o mundo dá trouxeram-lhe a liquidação total

O espaço-tempo pode ser distorcido e prepare-se para viajar numa cruel curvatura descendente. O fórum ateniense está transformado numa casa de banho pública. Instala-se em palco um ambiente feérico, dominado pela avareza, a luxúria, a hipocrisia e a ingratidão. Os valores morais vão pelo cano abaixo e diluem-se na fossa de uma pólis habitada por uma elite alicerçada nas aparências, num aterro de futilidade, depravação e ganância. Num enredo sem heróis ou vilões, os atores interpretam personagens intemporais que, por sua vez, representam estereótipos sociais. É este o mote para “Timão de Atenas”, uma obra escrita por William Shakespeare em colaboração com Thomas Middleton, encenada por Nuno Cardoso, com uma roupagem contemporânea, pois a atualidade permanece indelével na produção do dramaturgo britânico, baluarte do teatro isabelino.

O espetáculo - onde se deambula criativamente por estéticas burlescas até cenas mais clássicas - conduz o público a uma reflexão sobre a validade e a validação do poder, numa montanha-russa entre o apogeu e o declínio, assumindo-se como um espelho nítido dos estilhaços de uma implacável desumanização, onde a loucura humana fica refletida. O espetáculo da companhia Ao Cabo Teatro pode ser visto, em estreia, entre esta sexta-feira e sábado, no Rivoli.

Timão é um homem abastado, um mecenas respeitado pelas mais altas figuras políticas e culturais atenienses, enchendo os bolsos com ouro de todos os convivas que frequentam os festins no seu palácio. Patrocina políticos, artistas, filósofos e qualquer um que se diga seu amigo. A todos oferece os mais caros presentes, enquanto as contas aos gastos ficam constantemente ausentes.

Jose Caldeira

Mas de que vale o mais nobre metal, quando a integridade humana é feita do papel mais grosseiro? Pode o dinheiro de um homem comprar a amizade de todos os aduladores que lhe ornamentam o ego? O infortúnio bate à porta do excêntrico filantropo, quando as dívidas acumuladas ao longo de uma vida de excessos o conduzem à miséria, vetando-o a uma ruína financeira e psicológica, exilando-se da frivolidade dos prazeres da cidade que sempre exaltou.

Entregue a um abismo pessoal e despojado de uma existência exuberante, o mais respeitável dos homens acaba como um mendigo, num parque de estacionamento, longe da cidade, nas traseiras de uma sociedade que passa a repudiar. Uma “máquina de multibanco maluca” dá-lhe, novamente, toda a fortuna possível, mas já nada pode pagar o vácuo individual de Timão, entregue a uma vida hermética e errante, depois de ter perdido toda felicidade que tentou comprar, alicerçada em amizades mercenárias. Assiste-se, assim, à liquidação total da integridade humana.

“A ideia para trabalhar esta peça surge com a troika e com a crise do início da década”, começa por explicar Nuno Cardoso, após um dos ensaios. “Relaciona-se com os cortes cegos à cultura e com a confrontação que tivemos, como país, com a realidade. Tem que ver com o que isso implicou para a miséria económica, mas também para um certo trauma e uma perda de dignidade”, acrescenta o encenador numa conversa com o Expresso.

“A política é ditada pelo consumismo, por aquilo que o cliente quer”

Mais do que uma tragédia, a peça é uma farsa, um ensaio sobre a fragilidade do poder, sempre ilusório e transitório, como um pássaro que voa de mão em mão e que a nenhum homem deve lealdade.

Depois de ter encenado ‘Ricardo II’ e ‘Coriolano’, Nuno Cardoso regressa a um texto do dramaturgo britânico. “É daquelas peças que não encaixam no legado de Shakespeare e é para essas que eu tendo”, conta o responsável artístico, relativamente a uma obra que considera “extremamente” contemporânea. “A questão da dívida e do consumismo ocupou a totalidade do espectro da nossa vida. Até a própria política é ditada pelo consumismo, por aquilo que o cliente quer e não pelo que o cidadão quer”, frisa Nuno Cardoso, para quem “vivemos na época dos saldos e, ao contrário do que se pensa, o saldo não é um bom negócio, é um endividamento”.

O elenco é composto por Afonso Santos, António Parra, João Melo, Joana Carvalho, Luís Araújo, Margarida Carvalho, Mário Santos, Miguel Loureiro, Pedro Frias, Rodrigo Santos e Sérgio Sá Cunha, atores que acompanham o encenador e diretor da Ao Cabo Teatro há vários anos. “Se não trabalhássemos há tanto tempo juntos, não nos permitiríamos a metade das patetices que aqui acontecem”, finaliza Nuno Cardoso.

A peça, em coprodução com o Teatro Municipal do Porto, pode ser vista esta sexta-feira, pelas 21h30, e no sábado, às 19h, no Rivoli. O espetáculo com 2h20m de duração - dividido em duas partes, com um intervalo pelo meio - viaja depois para o Teatro Aveirense, no dia 21 de abril, ruma até Braga, no dia 27, e será também apresentado no Centro Cultural Vila Flor (5 de maio).