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Cultura

O país frágil

“Anjo Branco”, espetáculo apresentado na edição de 2017 do FITEI, um dos festivais que ficava sem apoio

d.r.

No que poderia ser um arranque, com a devida vénia, ao estilo assertivo de José Pacheco Pereira, aí vai uma pergunta, ela própria já constituída por todo um enunciado: querem um exemplo, entre milhares, da visão umbiguista de um certo país ensimesmado na ideia da profunda relevância de tudo quanto acontece na capital, por acreditar genuinamente que só o que acontece na capital é verdadeiramente relevante?

Veja-se o tratamento mediático dado à recente morte de Manuel Reis, empresário da noite lisboeta, dono das discotecas Lux e Frágil. Houve chamadas de primeira página, longas páginas em jornais de referência e resmas de colunistas a tentarem convencer-nos – a nós, os que não somos de Lisboa, nunca fomos ao Lux ou ao Frágil, e porventura nem sabíamos da existência de uma personagem da noite chamada Manuel Reis – de como as nossas vidas na verdade nunca foram bem vidas, porque só quem viveu as gloriosas noites daquelas discotecas viveu a vida e fez avançar o mundo.

O Festival Internacional de Teatro de Marionetas também ficou em perigo

O Festival Internacional de Teatro de Marionetas também ficou em perigo

FOTO REINOUT-HIEL

Sem desmerecer a importância relativa do que possa ter acontecido naqueles espaços noturnos, e sem diminuir o papel que possa ter desempenhado o empresário agora falecido, esta apetência de colunistas e editorialistas, na sua esmagadora maioria residentes em Lisboa (Et voilá!), para confundirem a esquina em que se movimentam com as largas e multifacetadas avenidas que constituem um país ou o mundo, tem ramificações em múltiplos setores. Mais que um estado de alma, é um estado de negação.

Embora seja já longa e enriquecida a cada instante com novas informações, evoluções ou até novas disponibilidades financeiras, a polémica à volta dos financiamentos quadrianuais da DG Artes é um dos mais recentes e evidentes sintomas dessa necessidade de uma reinvenção do olhar. Para que a perspetiva não seja deformada por um ponto de observação condicionado por um fatal afunilamento. Há mais país. Há mais mundo.

Companhias de teatro do Norte e Centro ficaram em risco com as decisões da DG Artes

Companhias de teatro do Norte e Centro ficaram em risco com as decisões da DG Artes

FOTO JOÃO TUNA

O deserto pode ser uma criação dos nossos preconceitos. Sobretudo quando se acredita viver num oásis rodeado de universos estranhos e descartáveis.
Os montantes de apoios de início disponibilizados para a região Norte são apenas explicáveis à luz de uma completa indiferença, ou desconhecimento, do que possa ser, nestas geografias, a produção cultural, bem como as suas necessidades.

O Norte não pode deixar de sair prejudicado quando, além de centros tão relevantes como Braga, Guimarães ou Famalicão, inclui a Área Metropolitana do Porto (AMP) que, em população e produção cultural, é comparável com a Área Metropolitana de Lisboa (AML). Porém, a AML é individualizada para a distribuição do bolo global, e não integrada, de forma similar à AMP, num conjunto mais vasto como seria o Sul, por exemplo. Tudo isto faz com que, por definição, o Norte saia sempre prejudicado devido aos critérios definidos.

Como bem o expressaram os agentes culturais reunidos esta semana no Teatro Municipal Rivoli, no Porto, a distribuição de verbas para a Região Norte deveria, no mínimo, acompanhar o investimento “per capita” da AML. Nem isso acontece, mas sucedem outras barbaridades noutras latitudes, como seria deixar sem qualquer apoio as companhias de teatro de Coimbra.

Começa a ser consensual a ideia de que os critérios dos concursos estão mal definidos em múltiplos aspetos. Desde logo por colocarem ao mesmo nível, ou seja, em concorrência, o que é diferente, como o são as estruturas de programação, as unidades de criação e os festivais. Outra das incongruências resulta da possibilidade de projetos municipais, escondidos sob o manto de cooperativas ou associações, poderem concorrer em igualdade de circunstâncias com as companhias independentes.

Projetos comunitários, como “Romani”, dinamizado pelo Ballet Teatro, ficam em causa

Projetos comunitários, como “Romani”, dinamizado pelo Ballet Teatro, ficam em causa

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

O debate continua aceso. As verbas disponibilizadas para a cultura em Portugal estão muito abaixo dos mínimos exigíveis. Portugal ocupa os últimos lugares entre 21 países da União Europeia. Nos anos da governação PSD/CDS atingiram-se mínimos históricos. Daí não poder deixar de ser entendido como do domínio da performance artística a preocupação agora manifestada pelos representantes daqueles dois partidos com os apoios à cultura em Portugal. Dado o histórico acumulado, seria, até, muito interessante perguntar diretamente a Rui Rio o que pensa de toda esta polémica.

De Norte a Sul houve uma onda de indignação alimentada pelos agentes culturais. Como todas as ondas, tem um ponto de energia máxima, e depois esvai-se na areia. Não é apenas uma fatalidade. É a realidade de um país prisioneiro do cisma do défice, o que não lhe permite libertar mais recursos para áreas sensíveis, e enredado nas suas próprias fragilidades.