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Joaquin Phoenix: “Pensei em Jesus apenas como um homem, nada mais”

É um dos atores mais intensos da sua geração e faz de Cristo em “Maria Madalena”, de Garth Davis, um filme que olha para o Novo Testamento segundo um ponto de vista feminista

Ser convidado para encarnar Jesus na tela parece uma tarefa impossível e em simultâneo irrecusável. Como é que se preparou para um papel assim?
É verdade que é difícil interpretar um ícone da cultura ocidental, qualquer ator fica apavorado com a ideia, ficamos perante um vulto que nos esmaga, mas depois comecei a pensar que as coisas não são assim tão complicadas. Quando fiz de Johnny Cash [em “Walk the Line”, de James Mangold, 2005] debati-me com o mesmo problema. Começamos sempre com a matéria que existe, com as coisas que vêm de fora. Pensei em Jesus apenas como um homem, nada mais. Pensei nele como um confronto entre a carne e o espírito, sem iconoclastia. A minha composição vem dessa relação humana. Julguei que, se a humanidade da personagem fosse forte, o papel resultaria.

Os outros Cristos — e são tantos — da história do cinema ajudaram-no?
Nem por isso, não fui por aí. Quando um ator chega ao set tem sempre de começar do zero como se a personagem estivesse a ser feita pela primeira vez. O meu papel mais difícil é sempre o próximo que tenho de fazer. Pensei que Cristo podia ser apenas um homem que queria continuar a viver, sem pensar nas expectativas que uma personagem como esta sempre carrega. Para um ator, é impossível interpretarmos as expectativas dos outros. Por outro lado, acho que nunca passou pela cabeça das pessoas que seguem o meu trabalho que um dia eu poderia fazer este papel. Daí concluo que este Cristo é apenas meu.

E é um Cristo único, metido consigo próprio, bastante silencioso, sem sorrisos. Foi o guião que o levou a compor a personagem assim?
Eu acho que “Maria Madalena” é um filme espiritual, está muito longe dos épicos bíblicos e espetaculares do passado. E eu gostei desta ideia: afinal — e é a Bíblia que o diz — o reino de Deus é interior, está dentro de nós, e também eu lido muito com a interioridade no meu trabalho. É por isso que eu digo que este Cristo é meu, no sentido em que não é uma personagem feita para agradar. Mas a mim, agradou. Ou melhor, fui descobrindo o que ele era ao fazer o filme, nos ambientes em que filmámos [em aldeias do sul de Itália], na sua relação com as outras personagens. “Maria Madalena” sai um bocado dos cânones do cinema e da narrativa crística porque a Paixão é aqui contada pelos olhos dela, pela personagem da Rooney [que é a namorada atual de Joaquin]. Ora, isso permitiu-me humanizar muito mais a personagem.

Já fez algumas pausas no seu percurso mas está agora a trabalhar bastante: filmou com Lynne Ramsay [“You Were Never Really Here”], foi de novo dirigido por Gus van Sant no filme biográfico “Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot”, agora aparece a fazer de Cristo em “Maria Madalena”. É uma fase positiva?
É uma fase sortuda, tive a chance de trabalhar com gente fabulosa no ano passado. É verdade que parei dois anos entre “Irrational Man” [de Woody Allen] e o filme da Lynne, mas não foi por nada de especial, os projetos que me vieram parar à mão entretanto não me agradaram, só isso. Há alturas em que imponho essas paragens. E digo a mim próprio: “Agora não vais ler absolutamente nada durante seis meses.”

O que é que faz nesse tempo?
Limito-me a viver, leio outras coisas. Ou fico em casa a inventar as minhas próprias cenas, os meus guiões imaginários, até aparecer a vontade de querer voltar a fazer alguma coisa. Felizmente, posso dar-me a esse luxo. Quando eu faço um filme agora é porque há algo em mim que me diz que eu não o posso recusar.

“Maria Madalena” vem defender que ela não era a mulher adúltera que o Papa Gregório I assim ‘proclamou’ em 599 d.C., mas sim uma mulher que acompanhou Cristo na última fase da sua vida; o 13º apóstolo. Conhecia esta história, esta versão alternativa, antes de fazer o filme?
Não conhecia e acho essa versão bastante radical e controversa. Muitos estudiosos dizem que a história de Maria Madalena foi completamente adulterada nos Evangelhos, levando a Igreja Católica a rever a sua posição. Tudo isto é fascinante. E contudo é inegável a importância e o efeito que ela teve na vida de Cristo. A presença dela na morte e na ressurreição de Cristo diz muito da mulher corajosa e destemida: ela estava lá. Foi testemunha. Maria Madalena também nos diz muito da complicada relação da Igreja Católica com as mulheres. Os dois maiores exemplos femininos do Novo Testamento, se pensarmos bem, são Maria, a virgem, e Maria Madalena, a prostituta. E porque é que a história teve que ser contada assim? A um nível subconsciente isto afeta-nos. Afeta a fé de quem a tem. Ora, este filme vem alterar esta perspetiva e tirar Maria Madalena do preconceito masculino que a aprisionou ao longo de séculos.

Não é curioso que “Maria Madalena”, que é um filme feminista, apareça agora numa altura em que o sexismo e o abuso sexual são temas amplamente discutidos em Hollywood?
Sim, e é incrível como ainda temos de lidar com essa questão no século XXI. Tudo aquilo que aconteceu nos últimos meses em Hollywood deixa-nos numa posição de desconforto pela humanidade, é uma coisa que dá pena. Como é possível ter acontecido aquilo? Felizmente, o debate passou para a esfera pública. É como diz Maria Madalena no filme, num momento em que fala com Pedro: “Eu não preciso da tua aprovação para falar e dizer aquilo que para mim é a verdade.” No fundo, este é o filme de uma mulher que vai ter de lutar pela sua independência.

Qual é a sua relação com a religião?
Os meus pais acreditam em Deus, mas nunca foram religiosos nem nos educaram assim. Não sou católico nem protestante, nada disso. Devo ter entrado numa igreja duas ou três vezes na vida. Sou metade judeu, pela minha mãe. Mas ela acredita em Jesus, na ligação espiritual enriquecedora dessa narrativa.

No que é que acredita?
Gostava de saber expressar-me melhor neste momento sobre isso. É uma grande questão. Não sei se conseguirei responder mas, nesta fase da minha vida, estou muito interessado na ideia do perdão. Ao longo de toda a minha vida, sempre achei que saber perdoar significava absolver alguém e isso para mim era intolerável, inaceitável. Hoje julgo que perdoar é algo que vem de nós. Algo que tem a capacidade de nos transformar. E isso comove-me. Fazer um filme como “Maria Madalena” ajudou-me a encarar isto. É um filme que nos diz que podemos ter acesso a uma iluminação em qualquer momento das nossas vidas e que, ao mesmo tempo, nos obriga a pensar no modo como nos relacionamos com os outros.

O Expresso viajou a convite da NOS