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“Nos próximos anos, media vão ser dominados por quatro ou cinco negócios a partir da costa oeste da América”

d.r.

Do alto dos seus 96 anos de idade, a referencial BBC enfrenta uma “luta pelo futuro”, de acordo com Tony Hall, o diretor-geral do serviço público de televisão e rádio britânico. Toda a indústria criativa britânica está a ser posta à prova, sustenta Hall, num contexto global em que os media “vão ser dominados por quatro, talvez cinco, negócios a partir da costa oeste da América, nos próximos anos”

Luís Proença

Tony Hall fez este diagnóstico na abertura do Annual Plan da BBC e pegou no exemplo da venda da 21st Century Fox à Disney para reforçar o seu ponto de vista sobre os tempos vindouros: “a Fox era demasiado pequena para competir com estes ‘grandes jogadores’.” Hall fez questão de os caracterizar, para melhor entendimento: “são companhias com um extraordinário ‘poder de fogo’ tanto financeiro como técnico e criativo. E nem estamos a pensar ainda nos gigantes dos media chineses.”

O quadro apresentado densifica-se e torna-se mais negro para a indústria criativa britânica quando Tony Hall chega aos números e informa que menos de 40% das empresas independentes de produção sedeadas no Reino Unido são atualmente detidas por capitais britânicos ou europeus quando há apenas dez anos eram 83%.

Há depois a recorrente diferença de escala. As receitas anuais da BBC situam-se nos cerca de 5,6 mil milhões de euros; as receitas da Fox – para manter o exemplo comparativo -, fixaram-se em 2017 acima dos 50 mil milhões. E no caso do serviço público britânico, assinala Hall, o financiamento público tem vindo a decrescer (menos 20% nos últimos oito anos). Até ver, não é o fim do mundo para a BBC. Hall também mostrou a outra face da moeda: no ano passado 70% do consumo audiovisual – linear e ‘on-demand’, no Reino Unido recaiu sobre os canais do serviço público britânico (57% no escalão etário dos 18-34 anos)

d.r.

Para fazer face aos desafios que tem pela frente, a BBC deve reforçar e dar passos mais largos na transformação do “iPlayer”, o serviço ‘on-demand’, incrementando a personalização e a amigabilidade e disponibilizando os conteúdos por maiores períodos de tempo – anunciou o diretor-geral. De modo a batalhar pelos públicos infanto-juvenis nativos digitais, o Plano Anual da British Broadcast Corporation prevê a criação de uma nova aplicação dirigida aos 6-12 anos que disponibilize “um cardápio diário de factos inspiradores, divertidos e fascinantes e que sirva simultaneamente para que os jovens utilizadores carreguem e partilhem os seus esforços criativos, criando comunidades em torno de gostos particulares”.

Na senda da oferta para os mais pequenos, a BBC vai igualmente encomendar a produção de novos programas para jovens para emissão linear e distribuição nas plataformas digitais iPlayer e Instagram. “Last but not the least”, Hall rematou que a BBC “vai ter de trabalhar com outros como nunca o fez até agora”, incluindo as grandes companhias tecnológicas, parceiros de serviço público e até a concorrência comercial, como a Sky.