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Cultura

O bélico e belo desconforto de ir ao teatro ver o fundo

Susana Neves

“A Minha Existência Involuntária na Terra” é a peça que inaugura o último quadrimestre da temporada cultural do Teatro São João. O desconforto dá as boas-vindas ao público com um espetáculo que deambula pelo imaginário de Pirandello, apresentando a ruína como possibilidade de reconstrução

Ir ao teatro ver o fundo. É este o convite. Sinta-se desconfortável para se sentar. A cortina abre e deixa ver o abismo. A ruína está diante dos olhos, em palco, transformado num espaço de indefinição, varrido por guerras interiores. O belo é substituído pelo bélico. Há uma sensação de claustrofobia, enquanto o teatro, virado do avesso, caminha com o pensamento inquietante. Tudo acontece a um ritmo frenético, vertiginosamente futurista, enquanto bandeiras fascistas italianas são agitadas.

A arte é exaltada em cena como um manifesto, num espetáculo rendilhado dramaturgicamente com textos de Pirandello, Marinetti, Walter Benjamin, Robert Musil, Cesare Pavese e Philip K. Dick. Um anjo, o filósofo Diógenes e uma “planta beckettiana” dialogam com o público e com o nada. Assim pode ser apresentada a peça “A Minha Existência Involuntária na Terra”, a nova criação da encenadora Renata Portas e da companhia Público Reservado, em estreia absoluta no Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, entre esta quarta-feira e domingo.

Num tempo pós-moderno em que a sociedade vive na penumbra deixada pelo crepúsculo das ideologias, o espaço cénico transforma-se num lugar de confrontação e interrogação, onde o teatro se entrecruza com a filosofia, a filologia e os ideais mais extremos. Escava-se a linguagem numa procura de significados, enquanto as convenções éticas e estéticas implodem em palco, onde se ergue a desfragmentação da identidade.

Tudo é colocado em causa pelas três “figuras” - como lhes chama Renata Portas, para evitar falar em personagens -, interpretadas por Jaime Monsanto, João Tarrafa e Pedro Manana, aos quais se junta o artista plástico Carlos Dias, responsável por pintar, em cena, três telas ao longo do espetáculo. “Agradava-me a ideia de não saber o que vai acontecer, porque ele pinta três telas diferentes todas as noites. É muito bonito assistir ao gesto de criar, sem se saber o que vai sair dali”, explica a encenadora, relativamente a uma peça pincelada pela pungência do futurismo.

O pintor Carlos Dias junta-se ao elenco, para pintar, em palco, três telas durante o espetáculo, num diálogo interartístico com as ideias inquietantes esboçadas em cena.

O pintor Carlos Dias junta-se ao elenco, para pintar, em palco, três telas durante o espetáculo, num diálogo interartístico com as ideias inquietantes esboçadas em cena.

Susana Neves

“Gosto de radicais. É daquelas coisas que não se deve dizer, mas é verdade. É preciso compreender a barbárie. Por muito que nos custe, existe um vasto leque de autores e de coisas que nós amamos edificadas sobre ideias completamente tenebrosas. É preciso olhar de frente para isso”, frisa Renata Portas, para quem o desconforto criado ao longo das 2h30 da peça é encarado como algo positivo. “Entrar numa sala de teatro é uma espécie de rapto ou de prisão voluntária. Eu, enquanto espectadora, gosto de sair com um lastro e ligeiramente desconfortável. Prefiro sair incomodada de um espetáculo, em vez de sair contentinha”.

Um "banquete literário” com a sombra de Beckett

“A Minha Existência Involuntária na Terra” é o título da autobiografia do dramaturgo italiano Luigi Pirandello, não se tratando de uma peça documental, mas de um exercício intertextual. O escritor Jorge Palinhos descreve-a como um “banquete literário”, onde os escritos de outros autores e da própria encenadora “são reunidos para conversarem com os textos de outros pessimistas como ele, para contemplarem as aparências e delas desdenharem, sabendo que nada é mais absurdo do que uma coisa querer parecer o que não é”.

A peça, maturada nos últimos dois anos, é “mais um Beckett que não é um Beckett”, como descreve Renata Portas. O autor irlandês é “a sombra maior neste espetáculo”, considera a responsável artística, por ter sido “um dos primeiros a assumir que estar vivo não é mais do que falar para empurrar a morte”. Foi também, complementa, “o primeiro de nós a saber que no final só temos sopro, porque já nem a linguagem nos chega”.

O espetáculo é para maiores de 16 anos e estreia-se esta quarta-feira, às 21h, o mesmo horário em que será levado à cena na quinta e sexta-feira. Durante o fim de semana, “A Minha Existência Involuntária na Terra” pode ser vista no sábado pelas 19h e no domingo às 16h.