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Os apressadinhos dão-se mal

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Preconceitos e vinho nem sempre ligam bem

O vinho deve ser um prazer para os sentidos e um elemento de convívio. De outra forma nem se percebe para que o quereríamos; não se bebe por obrigação ou dever, nem por crença ou doença. Por esta razão há quem prefira beber com amigos/família do que sozinho. Também me incluo neste grupo e nem me passa pela cabeça abrir um grande vinho para beber a solo.

Passado este ponto há quem tenha preconceitos e adquira vícios e manias em torno do vinho e é sobre isso que quero falar hoje. O primeiro grupo inclui os que acham que… vinho é tinto. E para sustentar tal tese até arranjaram uma justificação sem jeito, de fundo religioso: é a cor do sangue de Cristo! Ainda bem que acreditam, até porque os restantes mortais têm sangue verde e azul, totalmente diferente, portanto.

Depois há os que acham que com queijo se bebe obrigatoriamente tinto. Não é verdade mas os incrédulos só acreditam com uma prova evidente: ponha-se um queijo amanteigado em teste e, lado a lado, um tinto e um branco estagiado em madeira nova. A escolha costuma pender para o lado do branco, sem hesitação. E toda a família dos queijos-creme tipo Camembert ou chèvre ligam claramente melhor com brancos. Guardem-se os tintos para os queijos secos, já que aí podem brilhar. Encontramos também amiúde os tendenciosos, do tipo “detesto vinhos do Alentejo” ou “não suporto a casta Touriga Nacional” ou “odeio vinhos velhos”. Para estes, o preconceito pouco resiste a uma prova cega e é isso mesmo que devemos promover: servir o vinho sem dizer o que é, esperar pelos comentários e só então mostrar que as ideias preconcebidas funcionam mesmo mal nos temas do vinho. Outra ideia infelizmente enraizada é a que afirma que os vinhos brancos não envelhecem e que apenas os tintos merecem guarda.

A prática e a história já trataram deste assunto: há regiões, climas e castas especialmente vocacionadas para a guarda em cave. São os climas mais frescos que, gerando vinhos de boa acidez e pH baixo, produzem tendencialmente vinhos de guarda. E mesmo nos climas quentes é possível encontrar brancos com mais de 20 anos com grande saúde. Não são velhos? Claro que são e dão muito prazer a beber. A razão de amadurecerem melhor ou pior está muito mais relacionada com as características do local de guarda do que propriamente com a região de origem. Por isso me custa ver num restaurante um cliente mandar para trás um branco porque… não é da colheita mais recente. Aqui ainda temos muito que caminhar, até porque a enologia atual procura exatamente fazer brancos que precisam de tempo para crescer.

Recentemente num almoço em que servi um peixe em papelotes com molho de manteiga, resolvi servir vinho Alvarinho com 10 anos de idade. O resultado foi excelente porque alguma perda de fruta fresca no vinho foi compensada com um aroma mais misterioso e maior complexidade. É verdade que o caminho se faz caminhando mas há que tentar. Mente aberta à novidade é o que se pede ao amante do vinho.