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O medo e a sombra

d.r.

Caixões como residência, fascínio pelo sangue, voos noturnos, medos diurnos, arrepios e literatura. Tudo começou há 120 anos

Reinaldo Serrano

Num tempo em que os super-heróis têm cada vez mais e maior protagonismo no cinema e na televisão, depois de idolatrados como figuras de proa no universo da banda desenhada, achei por bem encetar uma espécie de regresso às origens, quando os heróis eram outros e, por mais estranho que hoje possa parecer, mais inspirados em obras literárias de fôlego do que em talento saído de pranchas e de argumentos de escala limitada. É com este pressuposto que proponho uma viagem breve ao fantástico universo... dos vampiros; e, por causa dele, à revisitação obrigatória de Bram Stoker.

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Remonta ao ano longínquo de 1897 o início da construção do vampiro como mito literário e figura de culto, pois que a 28 de maio do referido ano Abraham “Bram” Stoker deu a conhecer as missivas de Jonathan Harker e, através delas, o sinistro Conde Drácula. A obra narra os misteriosos e arrepiantes eventos ocorridos entre 3 maio e 6 de novembro, aquando da viagem de um jovem advogado ao encontro do nobre que habita no castelo com o seu nome algures nos Cárpatos. A visita mais não é o que o início de uma sucessão de estranhos acontecimentos, cada vez mais assustadores à medida que os dias passam e as noites prevalecem.

O livro teve tanto sucesso de crítica quanto de relativa indiferença do público vitoriano, pese embora grandes autores da época -- como Conan Doyle -- tenham assinalado com admiração a publicação de “Drácula”. Análises posteriores tentaram validar a tese segundo a qual a figura do conde sobrenatural teria sido inspirada pela figura real de Vlad III, monarca cuja crueldade para com os seus inimigos lhe granjeou a duvidosa alcunha de O Empalador. Verdade ou mito, a narrativa de Bram Stoker marcou de forma indelével o estilo gótico na literatura e fez do autor, um enorme contista e poeta irlandês ironicamente negligenciado na sua restante obra pela fama alcançada por “Drácula”, um dos nomes maiores do universo das letras.

Destas à tela foi a distância de uma primeira (e muito livre) adaptação: em 1922 estreava “Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens” (“Nosferatu, o Vampiro”), realizado pelo alemão Friedrich Wilhelm Murnau.

O filme tornou-se um clássico do género do Horror e, entre os seus trunfos, está a música de Ernst Lubich e a interpretação de Max Schreck como Conde Orlok, um equivalente de Drácula nesta que terá sido a adaptação inaugural do romance de Bram Stoker.

Entre o chamado grande público, o primeiro grande sucesso comercial de “Drácula” aconteceu em 1931, quando o norte-americano Tod Browning realizou o filme com o título homónimo do conde.

A película foi igualmente a rampa de lançamento para Bela Lugosi, o intratável ator húngaro que deu ao personagem de Stoker uma nova dimensão, constituindo a epítome para os filmes que haviam de suceder a esta produção que é um marco na história do cinema. Este, viu em “Drácula” um manancial de adaptações e derivações que preencheram durante décadas o grande ecrã, desde logo graças ao extenso trabalho da britânica Hammer que, em 1958, lançou o muito respeitável Christopher Lee como novel conde-morcego.

Dar um salto no tempo é chegar a 1979, quando o britânico John Badham (que, entre outros, realizou “War Games”) atribuiu a Frank Langella o papel de Drácula, numa curiosa, se bem que datada, versão do romance original.

Mais original ainda o longo episódio da série televisiva dos anos 80 e 90 que teve Sherlock Holmes como protagonista. Em “The Last Vampyre” (1994), Jeremy Brett (muito provavelmente o melhor Sherlock de sempre) encontra no grande Roy Marsden um digno adversário na arte de contracenar nesta história que traz para o mundo mais prosaico da ciência a figura do vampiro.

Por último, permito-me sublinhar uma produção russa (que na verdade são duas) surgidas pela mão do mesmo realizador no curto espaço de dois anos: em 2004 Timur Bekmambetov dirigiu “Guardiões da Noite” e em 2006 “Guardiões de Dia”. Ambos são bons exemplos de uma “atualização” do conceito vampírico exemplarmente transposta para o tempo presente. Os filmes passaram pelo nosso mercado com alguma discrição mas Holywwod não dorme e, dois anos depois de “Guardiões do Dia”, já o jovem realizador cazaque dava cartas com “Wanted” e, mais tarde, com o alucinante (ou será alucinado?) “Diário Secreto de Um Caçador de Vampiros”, enigmático título português para o bem mais esclarecedor “Abraham Lincoln:

A minha sugestão: concentremo-nos nos dois filmes produzidos na Rússia (ainda hoje particularmente interessantes) e esqueçamos as outras aventuras de um realizador que parece ter sido “corrompido” pelos altos orçamentos da América.

Claro que, para os mais puristas em relação à obra de Bram Stoker, o Drácula de Francis Ford Coppola (1992) e a soberba interpretação de Gary Oldman podem considerar-se como a derradeira adaptação da novela do século XIX, pese embora o “overacting” de Anthony Hopkins torne algumas cenas demasiadamente caricaturais.

O derradeiro sublinhado prende-se com a leitura, e a viva sugestão para os que não têm impedimentos de ler em inglês: chama-se “The Vampire Book - The Encyclopedia of the Undead”. Escrita por John Gordon Melton, fundador do Instituto para o Estudo da Religião Americana, é considerada por muitos como a melhor obra sobre a temática dos vampiros, dissecados em fascinantes entradas que preenchem as mais de 900 páginas de um livro completíssimo para todos os que queiram... completar o conhecimento sobre as mordeduras mais célebres da História.