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Quando a música muda (literalmente) a vida

Isaac Brekken/Getty

Falecido no fim de semana aos 78 anos, o criador de El Sistema tinha duas paixões: a música e a justiça social. Ao ligar as duas, criou algo de extraordinário

Luís M. Faria

Jornalista

A morte de José António Abreu, o economista e músico venezuelano que se tornou conhecido como fundador da iniciativa inovadora chamada El Sistema, aconteceu num momento de crise generalizada que não pode deixar de ter efeitos sobre ela. Terça-feira, o seu diretor executivo, falando à Associated Press, reconheceu que a extensão do problema. Só na Orquestra Sinfónica Simão Bolívar, a estrela do sistema, 42 por cento dos músicos partiram nos últimos seis meses. E há muitos outros problemas, Mas para já o momento é de homenagens, na Venezuela e fora dela.

A título de exemplo, citemos a de Simon Rattle, maestro da Orquestra Filarmónica de Berlim: “O que Abreu e El Sistema fizeram foi dar esperança, através da música, a centenas de milhares de vidas que de outra forma se teriam perdido para a droga e a violência”. O produto mais famoso do Sistema é um outro maestro de classe internacional, Gustavo Dudamel. Porém, o seu maior feito de Abreu foi oferecer a perspetiva de uma existência diferente a milhares de jovens que de outro ficariam restritos ao estreito horizonte dos meios sociais em que nasceram.

Há anos, numa entrevista à Deutsche Welle, Abreu explicou o objetivo que o tinha levado ao aparecimento do Sistema: “Promover a educação musical na Venezuela criando uma plataforma para educar crianças e mostrar aos jovens como podem trabalhar juntos como uma comunidade para criar música. Atualmente, temos 350 mil crianças e jovens em todo o sistema. Eles podem tornar-se modelos não apenas nas suas próprias casas, mas também na vizinhança e mesmo na comunidade inteira”.

Noutra entrevista, resumiu: “O mero facto de se conseguir sentar um rapaz para tocar num ensaio, quando ele podia estar na esquina a fumar marijuana, já é importante”.

Músico a vida toda

A iniciativa de Abreu teve início em 1975 numa garagem, com apenas 11 músicos. Para Abreu, de certa forma, foi um regresso. Ele tinha estudado música desde pequeno - piano, orgão, cravo - e até ganhara prémios. Mas desviara-se para a economia, por necessidades da vida. Adquiriu proeminência nesse campo e chegou a deputado nos anos 60 (mais tarde, em 1988, quando o Sistema já lhe tinha dado notoriedade, tornar-se-ia Ministro da Cultura). Mas a sua ambição foi sempre outra.

Conforme alguém explicou décadas depois, ele não era um economista que a partir de certa idade resolveu dedicar-se à música. Toda a vida foi músico. Mas era um músico que também dispunha de outro tipo de instrumentos para realizar a sua visão: conhecimentos de economia e gestão e relações pessoais de alto nível. Bem como uma capacidade praticamente infinita de convencer - havia quem dissesse manipular - os poderes instituídos para lhe darem apoio.

Governos de esquerda, em especial o de Hugo Chavez, tratavam-no como um tesouro nacional e financiavam liberalmente El Sistema, no qual viam um símbolo do país mais igual que tentavam criar. Mas Abreu dizia que não queria ser político - pelo menos no sentido convencional, partidário, do termo. Só o era na medida em que tinha preocupações de justiça social, o que não era de somenos num país com pobreza endémica e persistente, apesar da extraordinária riqueza em recursos nacionais.

Quatro horas por dia

O foco de Abreu era a situação dos jovens de meios desfavorecidos, as suas possibilidades e expetativas de vida. E era sempre em função disso que ele justificava a sua obra: “Penso que é importante porque espalha ideias que constituem o fundamento do nosso projeto - solidariedade, ação social através da música e compreensão entre os povos”.

El Sistema assenta numa rede de 'núcleos', espalhados pelo país, geralmente em bairros pobres (e hoje em dia noutros países onde o Sistema se estendeu) onde a partir dos 3 anos uma criança pode aprender e tocar música. As aulas têm lugar à tarde, depois do horário escolar, e são gratuitas. Quatro horas diárias, mais algumas ao fim de semana, permitem criar as bases para a excelência musical que caracteriza o Sistema.

Como qualquer iniciativa que cresce rapidamente, o Sistema começou a ser alvo de críticas, e o seu líder também. Ao longo dos anos, atacaram-no por ser próximo do governo, e por ser ele próprio autocrata. Uma crítica rejeitada por Marshall Marcus, um educador de arte: “Pode ser uma autocracia, mas permitiu a milhares de pessoas florescerem”, disse ele à Associated Press.

Tendo passado parte da sua juventude na Venezuela, Marcus ficou tão convencido que criou em 2012 uma rede e agrupamentos musicais de jovens oriundos de 25 países. O nome: Sistema Europe. Em Portugal, o sistema inspirou a iniciativa Orquestra Geração, atualmente com 16 centros em cidades como Lisboa, Loures, Amadora, Amarante e Gondomar onde são aplicados os mesmos princípios de ligação entre educação musical e inclusão social.

Elias Jaua, ministro da Educação venezuelano, disse agora: “Obrigado ao Maestro José António Abreu pelo seu belo legado aos rapazes, raparigas e jovens da Venezuela”. Não é só a Venezuela que agradece. Entre os agradecimentos que assumiram a forma de prémios internacionais, e foram bastantes, refira-se o IMC-UNESCO International Music Prize, em 1993, e o Prémio Príncipe das Astúrias, em 2008.

Para continuar essa excelência em tempos difíceis, não vai ser fácil. Mendez resume: “Temos de nos multiplicar em milhares de Abreus”.