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Cultura

Coliseu do Porto fará obras de 6 milhões se…

O Coliseu precisa de uma grande intervenção nas infraestrututas

João Octávio/Coliseu do Porto

A cumprir 75 anos de existência, a emblemática sala de espetáculos portuense passa a incluir no nome a referência a uma seguradora e quer fechar para obras durante um ano, mas a única certeza é a de que não há ainda qualquer certeza quanto à capacidade de concretização das obras anunciadas

Não é ainda o estoicismo contido no célebre poema “Se”, escrito em 1895 por Rudyard Kipling, mas anda lá próximo. À solenidade com que foi convocada para a manhã de hoje uma conferência de imprensa destinada a anunciar “o futuro do Coliseu”, correspondeu uma deambulação semântica à volta do nome da casa e a certeza de que não há ainda certeza nenhuma quanto à concretização dos projetos anunciados de realização de obras avaliadas em €6 milhões.

Está tudo dependente de vários imponderáveis. O mais importante de todos é a constatação de que o plano só será viável com a intervenção da Empresa Municipal de Cultura do Porto (EMCP). Problema 1: a Empresa Municipal de Cultura do Porto ainda não existe. Problema 2: O tribunal de Contas rejeitou a proposta de criação da EMCP, destinada a assegurar a gestão e programação de equipamentos culturais municipais da cidade com, entre outros argumentos, a afirmação de que não seria sustentável do ponto de vista económico. Problema 3: A autarquia dirigida por Rui Moreira recorreu da decisão, mas ninguém tem a mais leve ideia sobre quanto tempo passará até haver uma apreciação do recurso. Problema 4: Como a Câmara está proibida por lei de fazer qualquer investimento numa estrutura privada como o Coliseu, terá de negociar um trespasse de atividade que, por sua vez, levanta mais dois problemas. Problema 5: Esta transferência terá de ser aprovada pela Associação Amigos do Coliseu, que tem uma Assembleia Geral convocada para o próximo dia 9 de abril. Não deverá ser uma questão problemática, uma vez que os acionistas de referência (Câmara do Porto, Área Metropolitana do Porto e Ministério da Cultura) estão de acordo na aprovação da proposta em discussão. Problema 6: Como se fosse pescadinha de rabo na boca, voltamos ao princípio. O novo modelo de gestão capaz de permitir a intervenção da CMP só é possível com a tal EMCP que ainda não existe e foi chumbada pelo Tribunal de Contas.

A Rui Moreira olha para tudo isto com um misto de tranquilidade e confiança no tempo. Instado várias vezes a explicar como se contornariam aqueles obstáculos, o presidente da Câmara, para lá de sublinhar que não era aquele o local e o momento para falar das incidências da criação da Empresa Municipal de Cultura, insistiu na sua capacidade de navegar com o tempo e tirar partido do tempo que passa.

É uma jogada não isenta de perigo, a ser verdade, como afirmou Eduardo Paz Barroso, presidente da instituição, que o Coliseu já não corre o risco de ser vendido. Mas corre o risco de fechar, e fechar é deixar de existir”. Defende que o atual modelo de gestão se esgotou. A associação criada para preservar a sala “e a função para a qual foi sonhada e construída” quando os anteriores proprietários, a seguradora AXA, a quiseram vender a uma seita religiosa, “é capaz de gerir, é capaz de manter, e continuará a fazê-lo, mas não é capaz – e isso compreende-se – de gerar os recursos supletivos para fazer obras estruturais”.

Estão em causa, numa projeção por alto, mais de seis milhões de euros. Será necessário fechar a sala durante um ano, pelo menos. Rui Moreira sustenta que “não é possível, nem no Porto nem em qualquer outra parte do Mundo, viabilizar no setor cultural investimentos como os que aqui são necessários”, a não ser que haja investimento público.

Ageas entra já com €900 mil

A CMP está disponível e conta com a participação privada, que está de alguma forma assegurada. O grupo segurador Ageas, representado por Steven Braekeveldt, CEO da Ageas Portugal, e maior acionista privado do Coliseu, assegura um apoio passível de chegar aos 1,8 milhões de euros em seis anos. Garantidos estão os primeiros €900 mil, a dividir pelos próximos três anos. A principal contrapartida é a inclusão do nome da seguradora na comunicação do Coliseu. Assim, enquanto durar este acordo, passará a vigorar a designação comercial “Coliseu Porto Ageas”.

O que parece simples gerou uma inusitada e intensa discussão semântica, com os presidentes da Câmara e do Coliseu a não querem, num primeiro momento, dar uma resposta taxativa sobre qual passaria a ser a designação da sala em resultado da assinatura deste acordo. Não por acaso, a própria seguradora acabou por emitir um comunicado a anunciar a alteração do nome, que só muito a custo, e de forma definitiva, acabou por ser verbalizada por aqueles dois responsáveis já numa fase de conversa informal com os jornalistas.

O apoio da Ageas é da maior importância, disse Rui Moreira. Porém, está longe de conseguir resolver os problemas das obras, tanto mais que o Coliseu tem vindo a sofrer algumas alterações nas fontes de financiamento até aqui existentes.

Então, o Coliseu do Porto quer investir mais de €6 milhões em obras indispensáveis. Só que, e disse-o o próprio Rui Moreira, “não está tudo feito para que isso possa acontecer. Falta que a Associação dos amigos do Coliseu concorde e avalize, em Assembleia geral, esta solução que a direção apoia e da qual foi também empreendedora”. E falta ainda “encontrar um modelo de gestão que permita à Câmara intervir e investir, o que neste momento não pode acontecer, por razões estritamente legais que são conhecidas".

Já dizia Rudyard Kipling, Prémio Nobel da Literatura em 1907, na sua construção poética á volta do “se”: "Se podes esperar sem perderes a esperança…”.