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Portugal Fashion: não importa como começa mas como acaba. E recomeça

Se a moda é cíclica não tem fim. Se não tem fim não tem motivos para recomeçar. Mas começa, e acaba, e volta a começar. O ciclo da moda é assim, como são todos os ciclos que se querem redondos. O ciclo do Portugal Fashion teve início, fim, e novo começo. E isto é ser de certa forma arredondado

O fim. Como conclusão e resultado. Afinal, e no final, todos os fins podem ser começos. De alguma coisa. E de mudança. O Portugal Fashion chegou ao fim, mas pode ter tido um novo início. A alfândega do Porto não foi casa e o Portugal Fashion mudou-se. Porque precisou, porque quis, porque sim. E levou as roupas, os secadores, os pentes, as escovas, os bancos, a música, as pessoas. Levou a moda para o Parque da Cidade, mesmo "à beira de Matosinhos". Ali, bem junto ao mar.

"Um caminho difícil, mas superado", nas palavras de Mónica Neto, assessora de comunicação do Portugal Fashion. "Está a correr muito bem, a julgar pelo feedback recebido por parte de todas as equipas que estão envolvidas na organização, mas também pelas opiniões partilhadas por todos os convidados. Claro que há coisas a melhorar, haverá sempre, mas o balanço é muito positivo".

Foi lá, bem junto ao mar do Atlântico, num enorme espaço apelidado de Cidade da Moda, que desfilaram novos talentos e talentos consagrados divididos por três dias. Foi também lá que se ficou a saber que dois talentos em crescimento, Inês Torcato e David Catalán, que já tínhamos visto em Roma, passaram a desfilar no campeonato dos mais crescidos. Por mérito próprio. Por fim. E porque tudo tem o seu tempo.

O tempo foi, aliás, um dos grandes movimentos desta edição do Portugal Fashion. Mero acaso ou uma escolha concreta e pensada, muitos dos desfiles partiram do tempo que já lá vai, do que ainda vai chegar ou do tempo que é preciso para marcar o ritmo musical, como forma de construir um presente: o da moda.

Num futuro próximo a roupa será assim

Pelos olhos de Ridley Scott, no ano de 1982, nasceu um filme que falava sobre o tempo que ainda se desconhecia. Uma vida futura, distante, longe, lá muito longe de tudo o que poderia ser feito, passado numa cidade de Los Angeles decadente no 2019 que ainda estava (e está) para vir.

Em 2017, "Blade Runner" teve uma nova versão, a '2049', e foi nessa que Buchinho se inspirou para os seus coordenados. No filme e no universo virtual da artista plástica norte-americana, Lilian Schwartz, a quem é mais-do-que-reconhecido o trabalho artístico pioneiro recorrendo a computadores.

Ainda que inspirado pelo filme "Blade Runner", o desfile foi tudo menos decadente. Foi, talvez, a melhor coleção que alguma vez apresentou, numa tentativa de representação da mulher real versus a cibernética. E se não é a primeira vez que está a ler isto, é porque então deve ser mesmo verdade.

Preto de tons diferentes, paleta de laranjas luminosos, brilhos, cinturas marcadas e saias curtas. Assimetrias, movimentos ondulantes, mistura de materiais e padrões gráficos. Tudo para construir uma coleção à imagem de uma mulher forte, confiante e urbana, que usa armadura e habita uma cidade do futuro.

A moda também se veste em compassos

Hugo Costa e a sua reinvenção do punk
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Hugo Costa e a sua reinvenção do punk

Ugo Camera

Hugo Costa e a sua reinvenção do punk
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Hugo Costa e a sua reinvenção do punk

Ugo Camera

Hugo Costa e a sua reinvenção do punk
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Hugo Costa e a sua reinvenção do punk

Ugo Camera

Hugo Costa e a sua reinvenção do punk
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Hugo Costa e a sua reinvenção do punk

Ugo Camera

Hugo Costa e a sua reinvenção do punk
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Hugo Costa e a sua reinvenção do punk

Ugo Camera

Miguel Vieira pegou no rock e criou uma coleção
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Miguel Vieira pegou no rock e criou uma coleção

Ugo Camera

Miguel Vieira pegou no rock e criou uma coleção
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Miguel Vieira pegou no rock e criou uma coleção

Ugo Camera

Miguel Vieira pegou no rock e criou uma coleção
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Miguel Vieira pegou no rock e criou uma coleção

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Miguel Vieira pegou no rock e criou uma coleção
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Miguel Vieira pegou no rock e criou uma coleção

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Miguel Vieira pegou no rock e criou uma coleção
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Miguel Vieira pegou no rock e criou uma coleção

Ugo Camera

Um, dois, um, dois, três, quatro... A música mede-se em tempo. E em compasso. Tudo junto dá o ritmo. As músicas têm durações diferentes, que também é tempo. No Portugal Fashion houve dois designers que olharam para o tempo, da música e da história, e criaram coleções inspiradas em diferentes géneros musicais.

Hugo Costa foi ao punk buscar a ideia de contracultura revolucionária. Aquela que tivemos a oportunidade de ver em Paris em formato de performance e não desfile tradicional. Desta vez, o designer do streetwear e do genderless teve a oportunidade de mostrar a quem assistia o modo como as suas roupas se movimentam.

Com um styling diferente do apresentado na capital francesa, a coleção (A)Way of Punk, que procura questionar os valores tradicionais impostos, e se faz de camisas cortadas pela cintura, baínhas mal acabadas e até casacos desconstruídos, numa mistura de tecidos clássicos e tecnológicos, mostrou de forma definitiva que o punk não morreu, nem morrerá tão cedo.

Debaixo das pedras do rock saiu a coleção de Miguel Vieira. A celebrar este ano 30 anos de carreira, o designer fez desfilar silhuetas clássicas, peças sobrepostas, cinturas marcadas e ombros volumosos. Tudo como se os homens e as mulheres fiéis seguidores do estilo 'rockeiro' mandassem fazer a roupa num alfaiate.

Estilo elegante, lantejoulas, malhas, estampados de gira-discos e microfones no interior dos casacos, tecidos plissados e laminados. E pêlo falso. Fatos de corte clássico, blusões oversized, tachas na roupa e nos sapatos, e algumas assimetrias. Se o preto não pode fugir a uma coleção sua, houve "olho" para o azul marinho, verde seco e alguns pormenores em dourado.

Sob o olhar atento de Paula Rego

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Ao fundo há uma voz que se vai misturando com o som da máquina de escrever. A sala está escura, pouco habitual para um desfile de moda. A máquina de escrever continua a ecoar pela sala. A mesma voz fala em inglês e português. É Paula Rego no documentário realizado pelo filho Nick Willing: "Paula Rego, Histórias e Segredos".

É, aliás, Paula Rego que enche a sala mal as luzes se acendem. Não a pintora, mas a representação do seu trabalho, que serviu de ponto de partida e inspiração para a coleção "Studio" que Nuno Baltazar apresentou no Portugal Fashion, e que dá início a celebração de 20 anos de carreira.

"Mulher Cão", "A Dança", "O Anjo", "O Baile". Pontos de partida e de chegada para uma série de coordenados com tule, de ombros vincados e silhuetas marcadas. Vestidos com apontamentos metálicos e fatos de homem cortados com a exatidão firme de um grande pintor.

Baltazar quis puxar o mundo de Paula Rego para dentro da cabeça. O seu método de trabalho, a essência das coisas dela que agora também são dele. O mundo positivamente "perturbado" em que os dois vivem. O criar e oferecer. O entregar o trabalho feito para que outros o usem, essa expressão máxima de um artista. Paula sorriu, mesmo não estando ali.

No fim volta-se sempre ao início

Diogo Miranda
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Diogo Miranda

Ugo Camera

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Luís Onofre
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Luís Onofre

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Também a celebrar aniversário de carreira estava Luís Onofre, o eterno homem a quem todas as mulheres gostavam de ter como amigo e que "atinge" os 18 anos este ano. Para celebrar em grande a maioridade, Onofre viajou dos anos 50 aos 70, do rock ao Velho Oeste, e ofereceu o preto e o vermelho como cores predominantes para a próxima estação fria. Stilettos, botas over the knee, mules e sabrinas. Tecidos como o veludo, requintados a pinça com cristais Swarovski.

O fim. De três dias no Porto dedicados à moda. Do último dia de Portugal Fashion. O início. Da valorização feminina. De uma imagem de força, de uma mulher imponente, confiante e de silhueta algo austera. Sim, os fins podem dar início a alguma coisa, como está escrito no primeiro parágrafo deste texto.

O fim em Diogo Miranda foi uma homenagem à mulheres. Volume, mangas 3D em tafetá de seda e e tecidos técnicos. Linhas retas, assimetrias e decotes profundos, em cores como o vermelho, o preto, branco pérola, castanho e o azul.

O fim do texto; até ao próximo início.