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Quando a noite explodiu na cidade

No Expresso de 23 de novembro de 2013 Ana Soromenho escreveu um texto sobre a história do Bairro Alto, dedicando uma grande parte a Manuel Reis. É essa parte que aqui transcrevemos

Ana Soromenho

15 de junho de 1982. À porta de um restaurante, voltado para a Rua da Atalaia, há um rapaz que observa. Paulo, sobrinho do dono do Bota Alta, acabou de servir às mesas, e são horas de ir para casa. As ruas do Bairro são silenciosas e escuras, mas agora o movimento tomou conta da rua. Aquela gente não pertence ali, parece saída de um cenário. Na realidade estão prestes a entrar num cenário. Na antiga panificadora que ocupa o quarteirão entre a Atalaia e a Travessa da Queimada há um bar que se inaugura. Chama-se Frágil. A noite é de festa. Toda a década será de festa, o Bairro Alto está prestes a explodir e ainda ninguém sabe.
"Esse foi o momento de um território que se abriu a partir do sonho. Num sítio de divertimento, entre copos, fumo e dança surgiu um pensamento novo que contaminará toda a cidade", contará o artista plástico Pedro Cabrita Reis. Mas ainda antes de a pólvora rebentar, houve coisas que foram acontecendo, a cultura urbana e alternativa do pós-25 de abril demorou alguns anos a encontrar o seu lugar.
No final da década de 70, na ressaca da revolução, há pequenos núcleos de jovens desalinhados, provavelmente um grupo de excêntricos, que todos dias se inventa no desejo de ser. Vestem-se com roupas extravagantes, são influenciados pela cultura das grandes cidades europeias, querem ser modernos e sonham tomar conta da cidade.Um bairro central e obscuro é obviamente um lugar para todas as aventuras do mundo.
Cada um, no seu trilho com os seus filmes, irão convergir no mesmo espaço, atraídos pelo charme marginal das ruas antigas e decadentes.
Descreve o arquiteto Manuel Graça Dias: "Lisboa estava fechada. Éramos muito poucos, andávamos ávidos de noite e de sítios diferentes. Íamos jantar ao Alfaia, que tinha balões e empregadas vestidas de minhotas e trasmontanas, uma coisa que se tornava engraçada de tão kitsch. Quando os restaurantes fechavam não havia mais nada. Atravessávamos o Bairro e aquilo impunha respeito." Edgar Pêra, o cineasta, na altura a estudar cinema no Conservatório e a deambular de câmara de vídeo na mão, com o bando de Pedro Ayres de Magalhães e de Rui Pregal da Cunha - parte do núcleo que irá formar os Heróis do Mar - descreve-se assim naqueles anos: "Havia uma aura de aventura, queríamos criar ruturas com um passado muito recente, como cinema instalado e com as bandas de música de intervenção. Andávamos à procura deuma identidade e da nossa revolução".
"Todo esse movimento que aconteceu no início dos anos 80 foi uma coisa geracional", confirma Eduarda Abbondanza diretora da Moda Lisboa. "Havia um grupo de gente de várias idades, que abrangia todas as artes, movimentava-se numa trajetória alternativa e afirmava-se na tentativa de encontrar um espaço comum. Parecia que tudo poderia ser começado. A cultura contemporânea estava por fazer, e nós tínhamos tudo para renovar. Todos queriam fazer coisas novas, todos queriam ser estrelas", conta.

UM HOMEM NA CIDADE

Manuel Reis, algarvio, chega a Lisboa no final dos anos 60 e sente-se logo atraído pelo Bairro Alto. Havia os jornais e o ambiente do Conservatório e de Belas-Artes. Almoça e janta por lá, anda pelas ruas a espreitar. Tudo aquilo lhe parece sedutor. Entretanto vai para África, faz a tropa em Luanda, e regressa em 1972. Viaja. Em Londres percorre a Kings Road, a artéria das lojas de roupa e dos objetos vintage, dos discos em vinil e dos bares punk. Vive uns meses em Paris, frequenta muito o Le Palace, o mítico clube da movida francesa. De novo em Lisboa, aluga um espaço para fazer uma loja que fica pronta em abril de 74 mas só abrirá dois meses depois. A loja não tem nome. Trinta e poucos metros quadrados onde se vende roupa, móveis e objetos dos anos 20. Sempre teve feeling para as coisas antigas e a loja começa a ganhar clientes dos mais variados grupos sociais que vão ao Bairro por causa das peças de Manuel Reis. Entretanto, em 1976, na Travessa da Queimada abre o restaurante Bota Alta, que atrai um bando de outsiders - artistas, gays, músicos e curiosos - que começam a circular pelas ruas a e desalinhar a população tradicional do Bairro. E outras coisas mínimas vão acontecendo: abre um bar com o nome Souk - que tem como mestre de cerimónia o Zé da Guiné, figura de culto que marcara a iconografia e ficará para a história do Bairro (faleceu no dia 1 deste mês) - e ainda outro, o Rock House, onde há matinés dançantes e jovens vestidos de negro a ouvir Joy Divison e New Order. Também abre uma loja com discos importados de Londres e a Cliché com roupa assinada e música alternativa. "Sentia que faltava uma coisa noturna, que pudesse atrair e juntar mais gente", conta Manuel Reis. Um dia aparece-lhe um cliente e Manuel pergunta-lhe se não estava interessado em abrir um bar. O cliente aceita, convida-o para fazer a decoração e para sócio. Reis continua a história: "Gostava muito de dançar, mas não me via como dono de um bar. Falei com amigos, comecei a imaginar o bar que gostaria de fazer." Um sítio para dançar e receber os amigos, que funcionasse como casa. E pensou: "O que é que eu quero para a minha cidade?" Mas os movimentos não marcham sozinhos. "A ideia é sempre juntar pessoas", revela Manuel.

ENCONTROS

Em 1979, Fernando Fernandes estava na Costa da Caparica com o restaurante O Pátio Alentejano.
Manuel Reis frequentava-o. Desafia Fernando a abrir um restaurante no Bairro. Em março de 1981 é inaugurado na Rua da Atalaia, com o sócio José Miranda, o Pap'Açorda. "Na época a especialidade da casa eram bifinhos de natas e champignons e o Manuel achava que fazia falta uma proposta de boa cozinha portuguesa, servida num ambiente diferente", conta Fernando. "Açordas, pastéis de massa tenra e peixe frito eram coisas de cervejarias", ali eram servidos com talheres de prata. A combinação era inusitada, o sucesso foi imediato. Toda a gente queria experimentar e ver. Reis idealizara um restaurante entre a tasca e o luxo, e o Papa'Açorda abre logo em festa e com mailing list com mais de 200 convidados.
"Isto era absolutamente inédito", confere Fernando Fernandes. Também absolutamente inédito era o restaurante que ocupava uma antiga taberna, com um balcão longilíneo e as paredes de mármore rosa e com três lustres enormes a ocupar a sala. "A decoração foi do Manuel, com materiais baratos e muita imaginação", diz Fernando. Este será sempre o modo de produção de Manuel Reis que no futuro irá organizar os mais variados acontecimentos - desfiles de moda, exposições de design, festas e mais festas - e intervir em muitos espaços.
No ano seguinte abre o Frágil. O espaço é estranho e marca diferença com a sua cortina de veludo vermelha que tinha habitado o restaurante da Torre Eiffel, um espelho dourado imponente, bancos e mesas espalhadas entre os azulejos brancos da antiga padaria: "Era uma decoração inspirada numa ideia entre industrial e o barroco", lembra o ex-dono. Rapidamente se transforma no lugar onde muitas coisas acontecem: pequenas peças de teatro, espetáculos de café-concerto, uma passagem de moda com modelos halterofilistas... "um escândalo", ironiza Manuel Reis. Durante uma semana António Variações, o músico-cabeleireiro instala-se a cortar cabelos aos clientes. A porta abre todos os dias às dez da noite, com porteiras espampanantes, sempre mulheres, a vigiar. Aos fins de semana prolonga-se até às quatro da manhã. "A ideia era um espaço sem constrangimentos, onde as pessoas pudessem encontrar-se, conversar e dançar". Foi inaugural. Ao longo dos anos irá sofrer muitas mutações.

ETERNA É A NOITE

"Morei na Rua da Rosa em 1975, mas nunca tive uma vida de Bairro Alto", conta Pedro Cabrita Reis. Foi ele o primeiro a mudar a decoração do Frágil para a festa de aniversário de 1985. Virou a sala do avesso e iniciou a tradição das mudanças do cenário com artistas convidados. Diz Cabrita Reis: "O Frágil foi a invenção da noite, quando saiu era mal visto e marginal, o Manuel Reis alterou as regras. Fez uma noite de celebração de festa, onírica, hedonista e livre. Foi o lugar do cosmopolitismo possível numa cidade parola, que gostava de imaginar que ali se passavam coisas diferentes." E passavam. Dali começaram a partir cruzamentos e trânsitos que transformaram o perfil cultural da cidade. Conta Miguel Esteves Cardoso: "Toda a gente frequentava o Frágil." Inumera: políticos, jornalistas, gente do cinema, gente da moda, artistas, fotógrafos, noctívagos inveterados, dançarinos insuspeitos, músicos, poetas...
"Era uma placa giratória de conversas, pensamentos e vontade de transformar. Manuel Reis foiumagente provocador que alterou as mentalidades", continua Esteves Cardoso. "Até aí a noite era muito elitista, antidemocrática. E de repente aparece aquele sítio que mistura toda a gente e onde as regras são ao contrário. Não interessa de onde vens. Interessa quem és, o estilo e a atitude que tens". Um lugar de osmoses: "Nós fizemos o Frágil e o Frágil moldou toda aquela geração".

CONTAMINAÇÕES

O Frágil e o Papa'Açorda são os catalisadores que disparam e neste lastro muitas novidades irão surgir. Na Travessa do Poço da Cidade, pouco tempo depois, abre outro restaurante com assinatura, o Casanostra da italiana Paola Porru, técnica de som de cinema, que convida o arquiteto Graça Dias para desenhar o interior. Mesmo em frente, na antiga loja dos móveis Olaio, Manuel Reis abre a Loja da Atalaia, onde se vendem móveis vintage restaurados e se convidam os novos designers para apresentarem peças. Há exposições de objetos de arte e de fotografia. Entretanto, chegam também os novos designers - Mário Matos Ribeiro, Lena Aires, Manuel Alves e Gonçalves. Filipe Faísca - que abrem as suas primeiras lojas. Eduarda Abbondanza, que participou na festa, recorda: "Não tínhamos dinheiro, tínhamos de inventar e criar. Andávamos à procura de espaços, descobríamos coisas incríveis e depois fazíamos tudo com um pequeno núcleo de pessoas e com os artesãos tradicionais do Bairro."