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Os três amigos

A Pluma Caprichosa de 23 junho 2001

Clara Ferreira ALves

É uma velha amizade.

Em 1980, o Fernando andava a estudar economia e ajudava o irmão num restaurante na Costa da Caparica, com o nome de Pátio Alentejano. O dito Pátio foi para o Fernando a sua estrada de Damasco, era aquilo que queria fazer com o resto da vida. Montar, entreter, servir, um restaurante. A economia foi à vida dela e o Fernando foi à vida dele, tendo entretanto encontrado o segundo amigo da história, o Zé.

O Zé era guia turístico e viajava muito para o estrangeiro e queria mudar de vida. Ele conhecia o terceiro amigo, o Manel, que, ao saber a ambição do Fernando lhes sugeriu que se abeirassem da cidade e viajassem até ao Bairro Alto para, em boa vizinhança, comprarem e tomarem conta de um restaurante.

O Manuel tinha uma loja de antiguidades no dito Bairro Alto, que por esse tempo não era o Bairro Alto que viria a ser. Era mais um lugar de tascas e tabernas, de mulheres de esquina e homens de vadiagem, de mercearias esconsas e gatos de rua. O Bairro Alto ainda não fundara a moda do Bairro Alto.

Os três amigos deambularam pelas ruas e descobriram uma tasca na Rua da Atalaia, que lhes pareceu apetitosa, com um preço indigesto. Dois mil contos o trespasse, contado. Eles tinham quinhentos. Tratou-se de apurar a nota, e os dois, o Fernando e o Zé, sócios no projecto sugerido pelo Manel, chegaram a vender uns tarecos na Feira da Ladra para apurar o dito capital.

Instalaram-se, e outro amigo, arquitecto, que aqui entra na história, deu-lhes o nome do restaurante. Pap'Açorda. A ideia era servir boa comida portuguesa, bom cabrito frito, bom peixe frito, boas açordas, com bons vinhos na lista. E iguarias.

Em Março de 81, abriram a porta, e os clientes nunca mais pararam de entrar, até hoje. Fazem bicha, e aguardam estoicamente a mesinha de sexta à noite, ou de sábado, quando cometeram a imprudência de não marcar. O terceiro amigo, o Manel, homem de visão, resolveu abrir um bar com o nome Frágil em Junho do ano seguinte. Os prodigiosos anos 80 estavam a começar, e os três amigos estavam no centro do bairro que se iria tornar o epicentro do terramoto nocturno que abalou a capital.

Tal como em Madrid, a movida ganhava velocidade em Lisboa, e o Frágil e o Papa, seguidos por outros bares e restaurantes menos famosos ou mais modestos, eram a locomotiva. Para quem viveu os verdes anos na década de 80, o Frágil e o Papa não eram um bar e um restaurante, eram uma casa de família e de amigos. Chegando cedo, para jantar no Papa, ou chegando tarde, para beber e conversar e ouvir música no Frágil, os dois lugares eram a atracção do bairro e o centro da festa.

Toda, toda a gente por lá passava, e toda a gente se conhecia. As paredes ouviam inocentes enredos e sonhos de grandeza. Nesse tempo doirado, toda a gente tinha um filme, um livro, uma peça, um quadro, uma produção, um projecto, obra por fazer. Embora parecessem essencialmente dedicar-se a esvaziar garrafas e copos e a comer à bruta nos dias em que havia dinheiro para comer, um pequeno mundo artístico e intelectual por ali desfilava em liberdade e felicidade, composto de várias gerações. Havia os mestres e havia os discípulos, os que já tinham feito e os que iam fazer, os que tinham talento e os que tinham talento nenhum. E havia os outros todos, os seus amigos e inimigos, cortes e fidalguias adjacentes. Sem um tostão, muita desta gente vivia de noite e vestia de preto, um bando de corvos amáveis e ambiciosos.

Sair à noite era ir ao Frágil, e o Manuel tinha, com os seus dois amigos, a visão de um Bairro Alto cheio daquela gente, mais boémio e menos fadista, mais típico mas que escapasse ao «very typical not expensive» dos turistas.

Um Bairro Alto cosmopolita que fosse como os bairros antigos de outras cidades. Um Bairro Alto mistura de Village, de Bastilha, de Marais, de Trastevere, de Camden Town ou Notting Hill. Os estilistas e outros restaurantes, como o Casanostra, chegaram mas, esgotada a década, o bairro nunca chegou a ser o que prometia, ficando pelo caminho, entre o pobretanas e o bebedolas. O Papa por lá ficou, o Manel decidiu vender o Frágil, e toda a gente que por lá tinha passado se deu conta que tinha envelhecido e o sono era necessidade superior à vigília. O bando de corvos entrara, também, no «museu» da cultura portuguesa contemporânea, e dava-se ares de respeitável.

Os três amigos decidiram abrir umas coisas junto ao Tejo, quando a visão da Expo, que Mega Ferreira, outro visionário, andara a vender pelo mundo e pela pátria, começava a prometer um rio devolvido à cidade e uma Lisboa oriental diferente e recuperada. A Administração do Porto de Lisboa resolveu abrir as mãos e, de Cabo Ruivo ao Terreiro do Paço, a cidade rasgou-se, no meio das dificuldades do costume. A zona ribeirinha ganhou vida, e os três amigos decidiram investir em grande, num bar novo, o Lux, num restaurante novo, a Bica, e numa ideia nova, a de um público cosmopolita mais alargado, que tomasse pequeno-almoço e lesse jornais junto ao rio, que adquirisse design, que bebesse champanhe, e que apreciasse comida, livros, arquitectura e arte.

Lisboa dava o rio. Os três meteram mãos à obra e, com ajuda do amigo americano, John Malkovich, abriram em 99. Para muita gente, a intimidade e a beleza da Bica, com aquele rio azul encostado às paredes e os barcos estacionados ao fundo da sala, é um privilégio de viver em Lisboa. Um lugar refinado, iluminado, com o lustro da sofisticação. Se os três amigos quisessem, exportavam-se lá para fora e estariam, neste momento, mais ricos. O Papa em Londres ou em Nova Iorque seria um sucesso. Mas os ditos três amigos gostam de viver em Portugal e em Lisboa e não têm outro país.

Trabalham de sol a sol, e a Lisboa que eles ajudaram a construir e mudar deve-lhes muito. Talvez não haja medalhas para o trabalho bem feito, muito bem feito, e se houvesse eles mereciam uma. O Manel Reis, o Fernando Fernandes e o Zé Miranda são como os lugares que criaram: insubstituíveis.