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O que é que eu vou fazer à minha vida quando estiveres na fossa e não me chamares?

CRÉDITOS: CONTA DO FACEBOOK DE MARLON WILLIAMS

A voz melosa e grave dos crooners dos anos 50 e 60, os ritmos de voz reminiscentes de Elvis, os falsetes próximos de Perfume Genius ou ANOHNI. Está tudo em Marlon Williams, que perdeu a cabeça por Aldous Harding e depois a perdeu a ela. “Make Way For Love” é o regresso devastador do jovem neozelandês, que faz um disco sobre corações partidos pelo qual Chris Isaak trocava sem problemas a modelo seminua com quem se enrola na praia naquele videoclip. Também há praias nos vídeos de Williams mas nestas há vento, há ele esquelético e de terríveis calções brancos a fazer pouco de si próprio e castelos de areia destruídos ao pontapé. Esta quarta-feira assinalou-se o dia Mundial da Poesia e Williams é um belo exemplo de um cantor poeta. Ainda não sabemos se um dia um seu nome será referido ao lado dos de Tom T. Hall, Kris Kristofferson, Loretta Lynn, Tom Waits, Patti Smith, Morrissey, Lou Reed, Chuck Berry ou Joni Mitchell mas aqui fica uma homenagem à descoberta de palavras que nos fazem tremer

Ana França

Ana França

Jornalista

Sirvam-se da destilada mais à mão e apaguem as luzes. Os brevíssimos 40 minutos que se seguem estão entregues ao mui respeitado rapaz do indie-country, pinga-amor e melancólico Marlon Williams. Depois de um primeiro registo que já fazia antever o nascimento de uma lenda do crooning moderno, onde a experimentação com os filamentos da country era óbvia, chega este demolidor “Make Way For Love”. Sim, abram alas para o amor, mas levem retroescavadoras convosco para irem removendo a pilha de escombros onde estas músicas se escondem.

Depois de uma separação dura e ainda em carne viva com a não menos promissora cantora neozelandesa Aldous Harding, o mais fácil, o humano aliás, seria fazer um álbum sem intelectualização, de total e óbvia entrega ao desespero mas há muito mais do que isso neste trabalho. Fugir às letras é quase impossível. Como liricista e compositor, as palavras de Williams são tudo. Nascido em 1990, bom, a 31 de dezembro, portanto quase em 1991, fica difícil entender de onde herdou a autoridade para soar como se estivesse a dar cartas na cena musical de Memphis e Nashville dos anos 50, mas conseguimos imaginar até Sinatra no topo da carreira a presentear um reverente público com uma versão de qualquer música deste disco e chamar-lhe sua. Uma parte herdou do pai, que também cantava, outra da mãe, que pelos vistos não cantava mas ouvia música aos berros. Ainda antes de ser maior de idade, Williams criou os Unfaithful Ways. Em 2011 começou a atuar com Delaney Davidson e em 2013 lançou-se a solo.

Talvez este albúm não seja só mais um “post-breakup” por isso mesmo. Há muito tempo dentro de Williams apesar de ele próprio andar cá há tempo nenhum. As vénias aos crooners do passado - Paul Anka, Roy Orbison e Scott Walker são presenças constantes - conferem-lhe a seriedade necessária para destilar este drama todo. Williams trabalha bem, sem cansar e sem copiar, uma série de influências que vão do jazz ao doo-wop, a voz encorpada, teatral sem ser envernizada, sempre acompanhada do tremolo na guitarra.. O disco abre com “Come to Me”, uma balada totalmente “orbisonesca” em toda a sua aura de romance vintage, feita de violinos, percussão distante e acordes longos e sonolentos.

Williams passa então para aquela que é a primeira grande canção do álbum: “What’s Chasing You” é um clássico imediato, tirada a papel químico dos tais salões bafientos dos anos 50 e 60 onde homens de vozes graves e colocadas levavam adolescentes ao desespero. Mas Williams tem pelo menos um rival no século XXI: Christopher Owens, dos Girls, que também canaliza, como se de um médium se tratasse, as mais características notas vocais dos homens que um dia fizeram nome a emitir sons como shup shuahh repetidas vezes. É claro também o dedinho de Noah Georgeson nisto: o músico e produtor que anteriormente trabalhou com Joanna Newsom, Devendra Banhart e Cate Le Bon saca o melhor de Williams, sabe isolar aquilo que o distingue.

“Beautiful Dress” é o primeiro exemplo de outro ponto forte deste álbum: as histórias bem contadas. Tal como “I Know a Jeweller”, “Beautiful Dress” está cheia de detalhes que dão cor a episódios do passado de Williams que não podem ser ficção. Porquê? Porque as melhores histórias são todas, todas reais. “Make me a ring for the one / Who is too afraid to try / And if she doesn't buy / I'll come knocking at your door tonight”, canta Williams em “I Know a Jeweller.

Já tinha dado uns ares de sua graça em “Beautiful Dress” e volta a entrar em cena com “Party Boy”. Sim, temos Elvis nas imediações, a sua voz estilizada e o ritmo acelerado clássico do rock’n’roll mas não é o que define esta música, que não cabe em nenhuma caixinha. Sem ser tão direto como nas outras letras, “Party Boy” transborda de ressentimento. Isto podia ser Alan Vega a cantar numa festa de finalistas em Nashville em 1970. Há uma espécie de exploração desconfortável do seu lado mais venenoso. O som é sempre “cool” mas as palavras dizem outra coisa: “Party Boy...I don't like you / I only know you don't mean to be a party boy / If I find you...If I catch you...sniffin' around my pride and joy / I'm sorry, boy...but you can party at the bottom of the sea”.

Primeiro alerta para guardar as facas e as lâminas de barbear antigas que tenhamos por casa. “Can I Call You” começa já com Williams desarmado na mais completa derrota. Nisso faz lembrar a sombra espessa, permanente de “Something in the Way” dos Nirvana. Há uma música para todas as fases do fim. Nesta música ele parece admitir que se tornou qualquer coisa entre o apaixonado não correspondido, o putativo amigo e o stalker. “Learn to love your solitude”, aconselha-o o seu anjinho por cima do ombro. “I just don't know what that means”, responde o lado negro.

Deixem o alerta no vermelho para já. “Love is a Terrible Thing” é um arranjo solitário, feito só de teclas lânguidas e da voz de Williams numa espécie de murmúrio arrastado. “A sorte protege os frios”, diz ele. E não tem senão razão. Coberto dela como está de memórias, Williams dá-nos aquela que é talvez a frase mais bonita, e também mais brutal, de todo o disco: “People tell me / Boy, you dodged a bullet / But if only it had hit me / Then I’d know the peace it brings”. Não há aqui qualquer artifício, é sincero o desejo pela paz a qualquer custo.

É nesse nevoeiro que nos encontramos quando chega “Nobody Gets What They Want”, uma espécie de hino do folk-psicadélico onde a voz de Williams se junta à de Harding. É ela que abre, aquela voz como garras cravadas na consciência. Continuamos sem respostas mas fica claro que um dia mais tarde as coisas ficarão bem para ambos.

E é então que ele depois pergunta, numa daquelas linhas que uma pessoa depois de a ler nunca mais a consegue esquecer: “What am I gonna do / When you’re in trouble / And you don’t call out for me?”. Quando já não precisas de mim, para que sirvo eu? Uma coisa que ele pergunta com outras palavras ao longo de todo o disco e para a qual nunca nos oferece a redentora resposta.

É também pelas palavras que este disco nunca poderá ser só mais um sobre dores no lado esquerdo do peito. Williams é um bom músico e um bom escritor de canções e sabe que o amor é uma guerra que não faz prisioneiros.