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O inconsciente das imagens

Uma viagem à China maoísta entra no itinerário de “No Intenso Agora”

Um documentário que vasculha imagens de arquivo, em busca daquilo que, sem querer, elas nos revelam sobre as convulsões políticas do fim dos anos 60

É sob o signo do arquivo que entramos no novo documentário do brasileiro João Moreira Salles. De facto, no início, encontramos fragmentos de três filmes caseiros sem banda sonora, que — como ficamos a saber pela desfalecente narração em over do próprio Salles — nos devolvem à Checoslováquia comunista, ao Brasil ditatorial e à China maoísta de 1966-1968. Entre estes três blocos de imagens, há um denominador comum (o seu tempo), mas também uma ‘diferença genética’: o carácter anónimo ou familiar dos seus autores (as sequências da China maoísta foram registadas pela mãe e amigos da mãe do cineasta). Fica assim dado o mote para o que se seguirá: um filme-ensaio que revisita e reavalia algumas das principais convulsões políticas do fim da década de 60, apoiando-se na montagem e no comentário de imagens e sons de arquivo que, por força das suas diferentes origens, fomentam um vaivém (não muito consistente) entre a história pessoal e a história política.

O grosso do filme será ocupado pela análise da génese e do colapso do Maio de 68. Ora, ainda que esse episódio histórico tenha ocorrido no momento em que a família de Salles (que tinha então seis anos) residia em Paris, poucas serão as referências biográficas feitas nesse âmbito pelo cineasta. O que cativa o olhar dele é, antes, a possibilidade de autopsiar as imagens de um cadáver: o da última grande tentativa de abalar os alicerces políticos da sociedade capitalista-burguesa, na Europa Ocidental. Para fazê-lo, Salles montará e examinará um acervo muito vasto de materiais: imagens e sons resgatados à rádio e televisão francesas (os discursos do então Presidente De Gaulle), excertos de filmes pouco vistos rodados à época (“Les Deux Marseillaises”, de Jean-Louis Commoli e André S. Labarthe)…

João Moreira Salles escava arqueologicamente as imagens que convoca

João Moreira Salles escava arqueologicamente as imagens que convoca

Há que dizê-lo: a enorme atenção que o cineasta dedica ao Maio de 68 tem o inconveniente de secundarizar os outros episódios políticos que aborda, convertendo-os em notas de rodapé que vão sendo enxertadas de um modo algo avulso no corpo do filme. O que assegura o interesse da circulação que Salles assim promove é — quanto a nós — a forma como ele se dispõe a escavar arqueologicamente as imagens que convoca, no intuito de revelar as distintas camadas de sentido que elas comportam. Trata-se aqui, sobretudo, de refletir sobre o ‘inconsciente das imagens’, ou seja: sobre o que elas mostram sem querer (a luta de classes no Brasil do fim dos anos 60, cristalizada no gesto de uma criada que sai discretamente do campo para não ficar num retrato de família) ou apenas de viés (a maneira como diferentes condições políticas determinaram diferentes condições de filmagem, na Checoslováquia comunista). É por aí — mais do que pelo modo descosido como procura articular o registo político com o registo pessoal — que “No Intenso Agora” se transforma num objeto relevante e estimulante, que merece ser visto com a maior atenção.

3 ESTRELAS

NO INTENSO AGORA

De João Moreira Salles (Brasil)

Documentário M/12