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Morreu Manuel Reis, fundador do Lux-Frágil

Luísa Ferreira/Lux

Aos 71 anos, faleceu o empresário que transformou a noite lisboeta. Cerimónia fúnebre está marcada para terça-feira à noite no Teatro Thalia

Faleceu Manuel Reis, proprietário da discoteca Lux-Frágil. A notícia foi confirmada ao Expresso por Margarida Martins. Reis foi o empresário que, nos anos 1980, ajudou a transformar o Bairro Alto, onde fundou o Frágil, em 1982 - e que se viria a transformar, mais tarde, em 1998, no Lux-Frágil. À beira do Tejo, em Santa Apolónia, e a comemorar 20 anos de vida, continua a ser um dos espaços mais marcantes da noite lisboeta. Manuel Reis transformou a 'movida' lisboeta e, com ela, a cidade de Lisboa.

"Foi hoje, em Lisboa, a cidade que ele escolheu. A cidade que agora se despede de um dos seus maiores inventores. O Manuel fez maior esta cidade, o nosso mundo e as nossas vidas também", dá assim conta o Lux-Frágil do falecimento do homem que o inventou, vítima de doença prolongada. Tinha 71 anos. Era um homem discreto, avesso a entrevistas. A cerimónia fúnebre está marcada para terça-feira à noite no Teatro Thalia, em Lisboa, em hora a anunciar.

Por muitos, Manuel Reis era tido como um dos impulsionadores da cultura na capital portuguesa. Margarida Martins, ex-presidente da Abraço, atualmente presidente da junta de freguesia de Arroios e ex-porteira do Frágil, nos anos 80, despediu-se do amigo no Facebook: "O nosso amiigo Manuel Reis, partiu hoje! Para mim além de amigo, foi um Mestre!"

Também João Soares, ex-ministro socialista da Cultura, num post no Facebook que acaba de publicar, presta homenagem a Manuel Reis e um tributo ao seu "bom gosto", "sensibilidade" e "talento", que diz serem "raros". "A quem a cidade de Lisboa, deve uma obra notável. Onde está o "Lux". Tive a honra de o ter, sempre, como apoiante. Aqui fica, sentido e triste, tributo de respeito à memória de Manuel Reis", escreveu.

Manuel Reis, algarvio de nascença, chegou a Lisboa para estudar. E ficou. Fez da cidade a sua casa, abrindo restaurantes e bares, e aí deixando a sua marca - cheia de referências ao design, ao teatro e à moda, mundos que o fizeram confluir para o seu universo muito próprio. O Frágil foi ponto de encontro de intelectuais, atores, cantores, artistas plásticos (Pedro Cabrita Reis, como outros, assinou a decoração do espaço), jornalistas, escritóres, fotógrafos. Todos queriam passar por lá. E, para isso, todos tinham de ser admitidos (ou não) pelas porteiras do bar, a cantora Anamar e Margarida Martins. O Frágil ficava no número 126 da Rua da Atalaia, no Bairro Alto.

O Frágil, assim como o restaurante Pap'açorda, depois a "sua" Bica do Sapato, ainda novamente ao Frágil na sua versão "Lux" e, mais recentemente, o Rive-Rouge, um bar no Mercado da Ribeira, com matinés de dança ao domingo, foram alguns dos espaços emblemáticos que Manuel Reis lançou.

Numa das suas crónicas publicadas no "Público", Miguel Esteves Cardoso (um habitué no Frágil, como também o eram António Variações, Sérgio Godinho, João Botelho, Jorge Palma ou Clara Ferreira Alves), a propósito dos 20 anos do Lux-Frágil, escreveu em janeiro: "Manuel Reis é um génio de Lisboa, daqueles que emergem das lamparinas e que nos oferecem três desejos. Quanto mais impossíveis os desejos mais ele teima em realizá-los. O Frágil e o Lux Frágil eram impossibilidades, continuam a ser fantasias que, ninguém sabe como, se tornaram realidades. E todas as noites renascem". Para o cronista: "Manuel Reis e as pessoas iluminadas com quem faz questão de trabalhar inventaram a noite de Lisboa mas continuam a inventá-la diariamente porque se não fosse assim chegaria ao fim e amanheceria para sempre."