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Ex-peões do jogo duplo

d.r.

“Quem diabo pensam vocês que são os espiões? Modelos filosóficos que medem tudo o que fazem contra Deus ou Karl Marx? Os espiões não são nada disso.” A frase é de Richard Burton em “O Espião Que Veio do Frio”. E para saber melhor o que são os espiões no cinema, nada melhor do que procurar no cinema as respostas que ele próprio nos propôs e que a passagem dos anos remeteu à injustiça do esquecimento

Reinaldo Serrano

Diz-nos o Dicionário Priberam de Língua Portuguesa ser a palavra “espião” um substantivo masculino que define “um indivíduo que, por conta própria ou a mandado de outrem, observa secretamente os movimentos, atos e conversações de terceiro ou terceiros”.

Aparentemente, a definição parece confinada a um tempo em que práticas mais ousadas e mais condenáveis por parte de agentes secretos ainda não constavam da cartilha operacional que dias mais próximos acabariam por revelar. Sem prejuízo de outros juízos de valor, a verdade é que a espionagem tem sido, mesmo que mais ou menos romanceada, objeto de análise diversa, de crítica nem sempre justa e de generalizada desconfiança, remetendo invariavelmente para atividades sombrias, cerceadoras da liberdade individual e coletiva, desprezíveis em matéria de ética e de conduta.

O palavreado até aqui enunciado pré-anuncia a temática da prosa desta segunda-feira cinzenta, mais negra ainda quanto mais fechadas estão as nuvens que o fim da Guerra Fria parecia ter desanuviado: o caso do envenenamento de um ex-espião russo e da filha deste no Reino Unido, alegadamente praticado a mando de Moscovo e – aponta-se – do próprio senhor do Kremlin, ressuscitou a temática da espionagem e das lesões sociais e políticas que advêm da sua prática.

Neste sentido, e porque a ideia da crónica é sugerir o que o próprio clima nos tem sugerido (ficar em casa envolto numa manta apropriada lendo ou vendo um bom filme ou uma boa série), ocorreu-me recordar uma ou outra proposta que o cinema e a televisão conceberam em matéria de espiões. Desde logo, um curioso e pouco conhecido filme de 1959 que conta a história do FBI. Assinado pelo experiente Mervin LeRoy (que dirigira “Quo Vadis” e participara na realização de “O Feiticeiro de OZ”, entre outros títulos), “The FBI Story” propõe-se, ao longo de duas hora e meia, contar os primeiros tempos da organização de combate ao crime através do olhar de um dos seus agentes, notavelmente interpretado pelo enorme James “Jimmy” Stewart.

O tristemente célebre atentado ao voo 629 da United Airlines dá o mote relativo à atuação dos agentes do FBI que, numa fase inicial do Bureau, não estavam autorizados ao porte de arma. Pena que o filme se perca um pouco na chamada vida pessoal do protagonista mas, para quem quem queira conhecer um pouco mais sobre os primórdios do Bureau, o seu combate aos grandes criminosos, ao KKK e, claro, ao comunismo, achará interessante esta obra datada e algo longa mas que se vê sem enfado.

Dez anos antes desta realização de Mervin LeRoy, já Carol Reed assinava aquele que o British Film Institute considerou o melhor filme britânico do século XX; chama-se “The Third Man” (“O Terceiro Homem”) e narra a história de um escritor norte-americano que, chegado à Viena do pós-guerra para se encontrar com um amigo, descobre que este morreu em circunstâncias pouco claras. Decidido a investigar a fundo o que pode ter acontecido, o protagonista vê-se embrenhado numa teia de mistério de contornos soturnos e ameaçadores.

O elenco é encimado por Joseph Cotten, Orson Wells e Trevor Howard, o que já diz muito sobre a qualidade da obra, coadjuvada pela pena de Graham Greene (ele próprio antigo colaborador dos Serviços Secretos britânicos), que rubricou o argumento deste filme vencedor do Óscar para Melhor Fotografia que, juntamente com a banda sonora de Anton Karas (música interpretada pelo próprio numa cítara), é absolutamente notável. “Deixe a morte para os profissionais” é apenas uma das muitas pérolas de diálogo desta obra obrigatória no filme negro.

Outro grande clássico do género é, na verdade, um duo de grandes filmes (como o são todos) do mestre Alfred Hitchcock, pese embora sem a notoriedade de outras obras que preenchem a vasta e impressionante carreira da figura maior do cinema britânico. Comecemos por “Secret Agent”, realizado em 1936 e vagamente inspirado em dois contos de Somerset Maugham. O tema recorrente da identidade, característico de boa parte da obra do grande realizador britânico, está omnipresente nesta história de espionagem passada no período da I Guerra Mundial, em que um soldado se vê envolvido numa intriga onde é destacado para assassinar um espião germânico. A aventura, plena de suspense, é inflacionada pelas questões éticas e de caráter que se vão revelando à medida em que a história avança para o seu clímax, sem descurar a cortina de romance que aconchega o enredo. Este, é eficazmente exibido pelas atuações imaculadas de John Gielgud, Peter Lorre e, sobretudo Madeleine Carroll (eventualmente, a primeira musa de Hitchcock). De notar, a título de mera curiosidade, que John Gielgud manifestou forte reticência em participar no filme – afinal de contas, o homem havia acabado de interpretar “Hamlet” no palco, mas Hichcock garantiu-lhe que o papel que lhe reservara em nada afetaria a dignidade do ator. O resultado é bastante interessante, pese embora ainda algo distante das obras-primas que se seguiriam.

Como é o caso de “Notorious”. Datada de 1946, a película apresenta-nos a figura de uma jovem mulher destroçada quando o pai é condenado como criminoso de guerra nazi. Refugiada no álcool e em aventuras de sedução fácil, a mulher parece ser moralmente resgatada quando é desafiada a participar numa missão, também ela de moralidade questionável: infiltrar-se num grupo de foragidos nazis cujo círculo se abrigou no Rio de Janeiro. Esta missão de espionagem é soberbamente interpretada por Ingrid Bergman, mas seria impossível não destacar igualmente as presenças de Cary Grant e Claude Rains. Suspense, intriga e romance constituem uma vez mais a trilogia magistralmente manipulada por Hitchcock, provando que a temática da espionagem é muito mais que vigilância ou tiros: é, antes, a metódica construção de climas que adensam ainda mais a trama psicológica que domina um género tantas vezes mal tratado, negligenciado, fantasiado e até caricaturado quando nas mãos erradas. Afinal de contas, dominar a arte da filmagem e da construção da narrativa fílmica, parece ser um... segredo, só ao alcance de poucos.