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Cultura

A redenção da Lello

A livraria Lello recebe entre 28 de abril e 30 de junho uma mostra de livros ilustrados por Juan Miró

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

A mais icónica livraria portuguesa, com frequência colocada entre as dez mais bonitas do mundo por diferentes publicações, esteve a um passo de se deixar tolher pela desmesura do seu sucesso recente.

Tornou-se nos últimos anos querida e procurada por milhares de estrangeiros que todos os dias fazem fila para lá entrar, depois de pagos os €4 de acesso descontáveis na compra de um livro, atraídos, uns pelo imaginário de Harry Potter de que ali julgam encontrar referências, outros, porventura em minoria, pela beleza rara de um espaço tão inusitado e tão carregado de história.

O reverso deste quase conto de fadas de uma livraria transformada em negócio altamente rentável, num contexto de degradação e empobrecimento da generalidade das livrarias, muitas delas obrigadas a encerrar, como sucedeu ainda há pouco tempo com a histórica Leitura, situada a escassas dezenas de metros da Lello, foi um inevitável e progressivo afastamento dos leitores comuns e autóctones.

Todos os dias há aglomeração de turistas para visitar a Lello

Todos os dias há aglomeração de turistas para visitar a Lello

Rui Duarte Silva

Face ao temor da síndrome do parque temático, acentuou-se o divórcio entre a livraria e os que a procuravam, antes de mais, como leitores interessados em descobrir naquele espaço uma qualquer nova aventura literária. A simbologia, a beleza, as memórias plasmadas naquelas paredes a abarrotar de livros constituíam um benefício suplementar para deleite dos bibliófilos.

Começaram, porém, a sentir escassear a tranquilidade indispensável a quem faz da leitura, não uma confirmação de certezas, mas um refúgio para a explanação de dúvidas, interrogações e divagações incompatíveis com o frenesim dos que ali desembocam animados por motivações legítimas e respeitáveis, mas tantas vezes alheias ao prazer da literatura.

Em simultâneo, crescia em diferentes setores a perceção de que a Lello, não obstante a sua natureza privada, não estava a conseguir encontrar forma de retribuir à cidade o que a cidade implicitamente lhe proporcionara, em resultado de se ter tornado um dos principais destinos turísticos da Europa.

O interior foi restaurado

O interior foi restaurado

Rui Duarte Silva

A visibilidade da livraria deve-se ao que ela é e representa. Porém, a dimensão atingida e o impacto internacional alcançado não pode ser desligado da viragem ocorrida no posicionamento do Porto no contexto dos destinos europeus.

Em benefício dos leitores, da livraria e da cidade, houve em dado momento aquela espécie de luz capaz de proporcionar a inteligência bastante para, no devido tempo, perceber a necessidade de dar novos e decisivos passos, de modo a recolocar a Lello na rota dos interesses culturais dos portuenses.

Começaram, então, a surgir iniciativas bem pensadas, consistentes, apostadas em provocar um reencontro com a cidade afastada e os leitores perdidos. Tem sido um trabalho paciente, desenvolvido ao longo de meses, centrado na consolidação de uma ideia: a Lello pode ter tido um devaneio, mas reencontrou o rumo.

Sem abdicar de dinamizar o estatuto de ponto de visita obrigatória na cidade, os responsáveis pela livraria apostaram numa ousada e dispendiosa intervenção no edifício. Devolveram à fachada o esplendor original e assumiram a importância de proteger e proporcionar novos equipamentos ao interior. De seguida começou a ser programado um vasto conjunto de atividades culturais de acesso livre – e este é um dado crucial – das quais resulta uma reaproximação dos e aos leitores, que por sua vez voltaram, como nas origens, a ter na Lello um local privilegiado de contacto com escritores.

Para lá de conferências ou originais apresentação de livros, destacam-se iniciativas como a recente “E se a vossa cabeceira falasse”. Tratava-se de um repto lançado a escritores, artistas e cineastas para que escolhessem os livros que de alguma forma os marcaram e tiveram presença regular nas suas mesas-de-cabeceira. Dezenas desses livros, escolhidos por Mário Cláudio, Valter Hugo Mãe, Álvaro Magalhães, Rui Lage, Miguel Miranda e Adélia Carvalho estiveram expostos e deram origem a várias conversas com os autores.

A livraria está a programar iniciativas de acesso livre

A livraria está a programar iniciativas de acesso livre

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

Março é o mês dedicado a Valter Hugo Mãe. O escritor está em destaque na Lello, não apenas através dos seus livros, como com a organização de atividades inesperadas. Numa destas últimas noites, a livraria abriu para que um conjunto de pintores interviessem sobre desenhos feitos pelo escritor. O resultado final é agora visível no interior da Lello. A convidada do próximo mês será a poeta Ana Luísa Amaral.

Ontem durante a tarde, dia mundial da poesia, as janelas e os interiores da livraria foram os locais escolhidos pelo coletivo constituído por Isaque Ferreira, João Rios e Rui Spranger para uma intervenção poética.

À noite, Pedro Abrunhosa e o poeta João Luís Barreto Guimarães participaram numa tertúlia organizada sob o mote “Poesia da Música ou Música da Poesia?”, com debate, música e leitura de poemas.

Uma das mais bonitas livrarias do mundo

Uma das mais bonitas livrarias do mundo

Rui Duarte Silva

A ideia de redenção contém em si mesma múltiplos significados. Dispensam-se as conotações bíblicas. Também não se trata de assumir uma qualquer grandiloquente ideia de salvação. Talvez tudo seja bem mais prosaico. Poderá, nesse caso, ter cabimento a expectativa de que esta redenção da livraria Lello, para lá de precisar de ser ainda mais aprofundada, é, sobretudo, a escolha de um novo e mais acertado percurso dentro da rica, longa e vasta caminhada percorrida por aquela casa ao longo da sua história.