Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A nossa movida

Em Manutenção de 16 de junho de 2012

Luís Pedro Nunes

DE ESPANHA SOPRAVAM VENTOS pouco usuais. Eram rabanadas, sopradelas, tempestades secas, trovoadas multicolores. Do lado de lá chegava um termo novo: movida. E também queríamos. E quisemos. E, sejamos francos, até tivemos. À nossa maneira.
Em meados dos anos 80 estava aberta a jugular movidense lisboeta, que era composta pelo Trump's, no Príncipe Real, pelo Frágil, no Bairro Alto, e pelo Plateau, nas ainda inocentes e esconsas Escadinhas da Praia. Tão pouco mas tanto. O suficiente para dizer "Lisboa me mata"? Bom, não era fácil na altura ousar.
O Trump's, ali ao Príncipe Real - hoje a avozinha de todas as discotecas gay -, começou por ser o primeiro local onde era possível fugir ao pesadão Portugal do pós--25 de Abril. Nem era gay nem hetero. Era tolerante e espampanante. E, ao contrário do que podem vender as crónicas sociais, a sociedade portuguesa dos anos 80 não primava pela aceitação de novas ideias. A roupa da Maçã, loja de Ana Salazar, na Rua do Carmo, não era propriamente consensual; os "vanguardistas" tipo londrino acabavam insultados na rua (sim, passear no Chiado era melhor ser a passo largo), os "neorromânticos" esses... ui. Ora o Trump's, sendo já um local de excessos, passava mais por um conluio de extravagâncias, do que uma porta selecionada por opção sexual.
A 500 metros, a multidão amontoava-se perante a incompreensão. A porta do Frágil! Milhares de horas a discutir a psique da Anamar, primeiro, e da Guida Gorda, depois.
As duas infames 'porteiras'. Milhões de pessoas barradas. Mas quem é que elas pensam que são? Não se perdoa. Fica sempre uma ponta de rancor.
O Frágil 'criou' o Bairro Alto. O Frágil e o Pap'Açorda. Tudo o que lá há hoje começou em potência quando o Manel Reis abriu um e o Fernando Fernandes e o sócio abriram o outro.
Mas a questão era mesmo entrar no Frágil.
Stresse. (Nessa altura ainda não se chamava "stresse" ao stresse). A luz sobre a porta cinzenta metálica, campainha. A cara entediada a olhar para nós - vestidinhos com roupinha bem "prafrentex" - e...
umas vezes sim, outras vezes não. Ora, esta decisão perfeitamente bizarra e aleatória - e que hoje compreendemos enquanto catch de marketing - tornou-se um ato de conversa: uma indignidade, um privilégio, um "nunca mais lá vou!", um "eu entro sempre!" um "eu quero que essas gajas se..." O Bairro Alto foi o imã da movida madrilena em Lisboa. O local Almodovariano por excelência.
Não no Plateau. Aqui começaram a separar--se as águas... uns betos mais arrebitadotes.
Metros abaixo, ainda não havia sinais dos irmãos Rocha nem do grupo K.
É verdade... há aqui uma amálgama cronológica da década. A memória tem destas coisas. Algumas terei visto ou imaginado no olhar de pós-adolescente universitário de escudos contados para três imperiais e um shot e muito jornal lido? O Reininho num fantástico blazer de ombros largos a conversar com o Pragal da Cunha? O Miguel Esteves Cardoso e o Carlos Quevedo e os irmãos Coimbra a preparar "O Independente"? Como era possível eles escreverem assim? E não serem de esquerda e terem pinta? E as Amoreiras e a polémica? As Amoreiras iam acabar com Lisboa, arruinar o comércio tradicional e arrasar a estética da cidade. Embargar. Bah! Tomás Taveira não cedeu. E ficará na história por causa da porcaria de umas cassetes em que se filma a sodomizar umas wannabe no seu próprio escritório - no que foi o primeiro 'escândalo sexual' do pós-25 de abril. Nisso foi um precursor. Hoje safava-se, com tanto YouTube.
Lembro, no início dos anos 80, o anúncio da morte do António Variações. Foi algo que comoveu transversalmente a sociedade portuguesa. Terá sido - nunca foi confirmada - a primeira morte de uma personalidade pública portuguesa com sida. Mas, verdade seja dita, isso foi algo a que não foi dado muito relevo. Hoje, a sida parece estranhamente 'esquecida'. Mas a sua chegada foi aterradora e teve um impacto escabroso na nossa relação com o sexo, os outros e a morte. Inicialmente, descansou os hetero. E os não-junkies. Mas já faz 30 anos que uma noite de sexo causal desprotegido passou a ser uma roleta russa. Aliás, já ninguém se lembra de como era não ser assim. Pensando bem, isso é que é incrível.
Acho que foi mais ou menos isto.