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Sempre em “Vogue”

Tem 126 anos e é a mais longeva revista de moda. Conseguiu manter-se adaptando-se aos tempos e às mudanças, sem envelhecer. Nascida nos Estados Unidos, a revista tem hoje edições numa trintena de países

Primeira fotografia publicada numa capa da “Vogue”, da autoria de Edward Steichen, em 1932

Primeira fotografia publicada numa capa da “Vogue”, da autoria de Edward Steichen, em 1932

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A palavra é francesa e significa literalmente ‘moda’. Sozinha, sem qualquer adjetivo ou complemento, sem floreados, padrões ou adereços, faz uma frase inteira. Basta nomeá-la para saber que o tema da conversa aspira à sofisticação e procura uma espécie de selo de qualidade, só acessível citando-a ou remetendo para o interior das suas páginas. A “Vogue” é assim, toda uma instituição numa única palavra. E uma das revistas de moda mais antigas de sempre, que continua a crescer e a multiplicar-se, e que ao contrário do que é longevo não chegou a envelhecer. Ainda este ano mais dois países — a Polónia e a República Checa — somaram-se à lista dos quase 30 que a publicam. Há dois anos aparecia a “Vogue Arabia” e há cinco as edições tailandesa e ucraniana. A “Vogue” continua na moda. E a dar que falar.

Em 2017, a saída de Alexandra Shulman da edição britânica poderia não ter sido notícia se o editor nomeado para a substituir não fosse Edward Enninful, o primeiro homem negro à frente da revista. A sua capa de estreia trazia nada menos que Adwoa Aboah, modelo feminista que partilha com Enninful a origem ganesa. Depressa as comparações com a orientação anterior tornaram-se inevitáveis, sendo Shulman acusada de só ter feito 12 capas de mulheres negras ao longo de 25 anos — com uma total ausência destas entre 2002 e 2014 —, e de falta de diversidade étnica no seio do seu staff, composto por 55 pessoas brancas. A ex-editora defendeu ser contra a discriminação positiva. E, a respeito de opções editoriais, argumentou: “Eu era julgada pelas vendas. E a minha responsabilidade principal era que a diversidade étnica não fosse apresentada como política da revista.” Estava lançado o assunto que tinha sido o elefante dentro da sala durante tantos anos e que motivou Edward Enninful a responder: “A minha ‘Vogue’ distingue-se por ser inclusiva e por mostrar diferentes tipos de mulher, de corpos, de raças e de classes, derrubando géneros.”

Muito, muito caminho teve de ser percorrido para uma tal declaração de intenções. Um caminho que atravessou todo o século XX e teve tantas ramificações, avanços e obstáculos como a própria história da mulher e do seu reconhecimento legal e social. Quando a primeira “Vogue” deu à estampa, em dezembro de 1892, assumiu-se logo como um “autêntico e digno jornal da [alta] sociedade, da moda e do lado cerimonioso da vida”. No número inaugural de 30 páginas e um preço de capa de 10 cêntimos — o equivalente hoje a 2,72 dólares (2,17 euros) —, o seu criador Arthur Baldwin Turnure, homem de negócios aprimorado em Princeton, escrevia ter por propósito que o folhetim, então de periodicidade semanal, atraísse “o sábio e o debutante, o homem de negócios e a beldade”, relatando “os seus hábitos, atividades de lazer, encontros sociais, lugares que frequentam e a roupa que vestem” para “todos aqueles que queiram ser como eles e ingressar no seu círculo exclusivo”.

Edward Enninful é desde 2017 o primeiro homem negro à frente da “Vogue” inglesa, em substituição de Alexandra Shulman, que ocupou o lugar durante 25 anos

Edward Enninful é desde 2017 o primeiro homem negro à frente da “Vogue” inglesa, em substituição de Alexandra Shulman, que ocupou o lugar durante 25 anos

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Mulher, upper class, exclusividade, beleza, vestuário, sofisticação, sociedade. Eram estas as palavras que cabiam dentro daquela primeiríssima “Vogue”. Em 1905, após a morte de Turnure, o magazine foi comprado por Condé Montrose Nast, tornando-se a publicação inaugural do que hoje é um dos maiores grupos editoriais americanos, dona de uma vintena de marcas, entre as quais a “Vanity Fair”, a “Wired” ou a prestigiada “The New Yorker”. Nas mãos do novo proprietário, a revista começou a ganhar reputação e não tardou a ser exportada para o Reino Unido, em 1916. Mas o nascimento da edição inglesa foi também uma resposta às restrições alfandegárias e na produção de papel provocadas pela Grande Guerra, que impediam a expedição das revistas para o velho continente. Quatro anos mais tarde surgia a “Vogue” francesa, ficando desenhado o triângulo geográfico que durante anos simbolizaria o que de mais atual e vanguardista a moda idealizava.

Em 1932, a fotografia a cores chega à capa da “Vogue” americana: a imagem de uma nadadora a segurar uma bola, num fundo azul em contraste com o fato de banho encarnado, da autoria de Edward Steichen. Era o tempo da Grande Depressão e o menos indicado para arriscar mudanças de peso, mas neste caso a jogada resultou num aumento significativo de assinaturas — curiosamente, o mesmo aconteceria durante a II Guerra Mundial. Aquela capa marcou também o princípio do fim da ilustração de moda, que seria, ao longo dos anos 30, substituída pela fotografia. Nessa altura, Nast introduziu a impressão a cores ao longo de duas páginas e autorizou, em 1933, uma capa com a modelo Toto Koopman, assumida bissexual, de origem mista — tailandesa e holandesa —, que operou na resistência italiana durante a guerra e foi prisioneira em Ravensbrück. Os anos 60, sob a liderança de Diana Vreeland, ampliaram o foco editorial, deixando que, em plena revolução sexual, a sexualidade e a juventude fossem integradas. Da mesma forma, a atenção virou-se para outros modos de vestir — as boutiques do East Village —, e para personalidades como Jane Holzer, a superstar de Andy Warhol, ou Sophia Loren.

Sinais do tempo

“As mulheres não estavam interessadas em comprar ou em ler sobre roupas que não se enquadrassem nas suas vidas em transformação.” Foram estas as palavras de Grace Mirabella, a editora da “Vogue” que antecedeu a lendária Anna Wintour, em 1973. Mais uma vez, o vocabulário alargava-se em função do papel da mulher na sociedade, acompanhando a sua evolução. Agora, a revista tinha de ser apelativa para “a mulher livre, trabalhadora e emancipada” do seu tempo. Mirabella aumentou o foco no lifestyle, a cobertura de eventos culturais e os artigos sobre temas de saúde que ultrapassassem os tópicos de beleza até então habituais. E colocou na capa Beverly Johnson, a primeira mulher negra a atingir esse patamar. Mas seria bruscamente despedida em julho de 1988, quando a recém-fundada “Elle” começou a ganhar terreno. Quem ocupou o seu lugar é hoje o mais forte sinónimo da “Vogue”. Anna Wintour, inglesa, londrina, jornalista, ex-editora da versão britânica, a bomba nuclear de franja e eternos óculos escuros que marcaria uma nova era — a mesma que recentemente, em mais um sinal do tempo, não os retirou quando a sentaram ao lado da Rainha Isabel II na London Fashion Week, quebrando o mais básico protocolo.

Wintour, cuja passagem pela “Vogue” inglesa só uma paráfrase de Shakespeare foi capaz de descrever — “The Wintour Of Our Discontent” [“O Wintour do Nosso Descontentamento”] — imprimiu uma nova revolução. Voltou centrar-se na moda, mas fê-lo dirigindo-se a um público mais abrangente, preferindo fotografias tiradas no exterior, modelos menos conhecidas e produções que misturassem peças de alta-costura com outras mais acessíveis. Para marcar essa tendência, a primeira capa da sua autoria mostrava a modelo israelita Michaela Bercu fotografada por Peter Lindbergh, envergando um par de jeans de 50 dólares e uma camisola de Christian Lacroix, cravejada de joias, de 10 mil. “Isto quebrou todas as regras”, comentou Wintour anos depois. “Michaela não estava a olhar para nós, e pior, tinha os olhos semicerrados. O cabelo voava-lhe pela face, tudo parecia fácil, casual, um momento capturado na rua — o que era de facto o objetivo.” Nada que se assemelhasse ao visual altamente estudado de outrora, iluminado em estúdio, impensável na vida quotidiana.

Sim, a vida diária, despenteada, misturada, imperfeita, entrava definitivamente na “Vogue”. E trazia pela mão a política, com a primeira dama Hillary Clinton a tornar-se, em 1998, rosto de capa da revista. De repente tudo era possível, até homens na capa (LeBron James, George Clooney, Richard Gere). Até números sobre burqas e a forma como a moda era experimentada pelas mulheres muçulmanas; ou mesmo o patrocínio, altamente criticado, de uma escola de cosmetologia para jovens mulheres em Cabul. Em 2012, Anne Wintour angariou fundos para a campanha de Barack Obama às eleições presidenciais americanas. Em 2016, a “Vogue” declarou-se apoiante de Hillary Clinton nas eleições que esta haveria de perder para Donald Trump. Em 2017, Edward Enninful deu um passo de gigante ao ser designado o primeiro editor homem da centenária edição inglesa. Enninful conhece bem, admira e trabalhou com Anna Wintour. Ex-modelo descoberto aos 16 anos, que entrou no mundo da edição de moda aos 18 e foi nomeado Cavaleiro da Ordem do Império Britânico aos 44, é negro, imigrante e homossexual. A história não anda para trás, e certamente a “Vogue” também não.